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Mauricio Stycer, repórter especial do iG
A certa altura de “Maradona”, o documentário do sérvio Emir Kusturica que será exibido na Mostra de Cinema de São Paulo, o dono de uma casa noturna de Buenos Aires diz que as go-go girls reclamam quando a tevê exibe antigos gols de Maradona porque os frequentadores do inferninho preferem ver os gols aos shows das dançarinas seminuas.
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O diretor sérvio Emir Kusturica e Maradona se divertem no set do documentário |
Outra imagem impactante, ainda que cômica, mostra um casamento realizado segundo o rito da Igreja Maradoniana – uma seita mantida por fiéis que entendem ser Maradona um representante de Deus na Terra. Depois de declarados marido e mulher, o casamento se consuma com a encenação, pelo noivo no papel de Maradona, do gol que o craque fez com a mão contra a Inglaterra na Copa de 1986.
Cenas como essas ajudam a entender melhor o fascínio e a perplexidade que causam a um brasileiro as cenas ocorridas nestes últimos dias em torno de Maradona e da seleção da Argentina, às voltas com a luta pela classificação para a Copa do Mundo de 2010.
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Maradona comemora na vitória da Argentina |
Em estado de êxtase, como já havia ficado três dias antes, ao conseguir ganhar a partida contra o Peru com um gol aos 48 minutos do segundo tempo, Maradona começou a gritar em campo e a xingar os jornalistas que o criticaram ao longo da campanha. A imagem, como tudo que diz respeito a Maradona, correu o mundo e provocou reações fortes da imprensa.
Ganhador de duas Palmas de Ouro em Cannes (por “Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios”, em 1985, e “Underground”, em 1995), Kusturica filmou Maradona entre 2005 e 2007 – antes, portanto, de o ex-jogador receber o convite para dirigir a seleção do país nas Eliminatórias.
Apresentado como “o Maradona do cinema”, e sem nenhum distanciamento, Kusturica parece concordar que o argentino veio ao mundo para vingar os fracos e oprimidos, e humilhar os poderosos – seja no futebol, seja na política.
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Maradona na intimidade, ao lado da esposa |
Não fosse pelo vício, que quase causou sua morte, Maradona acha que teria ido mais longe. “Fica um gosto amargo na boca. Eu teria sido muito maior que sou.” Como sempre foi considerado um dos maiores jogadores de todos os tempos, apenas atrás de Pelé, entende-se que Maradona considera que poderia ter sido maior que o Rei.
Reverenciado pelo povo argentino em diferentes momentos do filme – e também por milhares de napolitanos (foi campeão italiano pelo Nápoles em 1987) – Maradona é também tratado com carinho por Fidel Castro, Hugo Chávez e Evo Morales, aos quais agradece com críticas ao ex-presidente americano George Bush.
Kusturica não deixa dúvidas de que Maradona é uma figura acima do bem e do mal – e seu filme sugere que depois de tanto insistirem, Maradona também parece acreditar que “é” Deus.
Nas próximas semanas e meses, saberemos se Maradona arranhou, ou não, esta imagem mítica com o seu desempenho errático no comando da seleção da Argentina. Antes de começar a ofender os seus críticos, no gramado do estádio Centenário, em Montevidéu, Maradona disse: “Agradeço ao elenco e ao povo... e ninguém mais!”. Pesquisa divulgada pelo diário “La Nación”, no entanto, informa que 85% dos argentinos acham que Maradona deve deixar o cargo.
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