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"Há dois anos, não tinha nada, nada, nada. Nem lugar para dormir"

18/09 - 10:20 - Mauricio Stycer, repórter especial do iG

Ao olhar para os indicadores socioeconômicos que compõem a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2008, divulgada nesta sexta-feira, é possível pensar que existe um “brasileiro médio”, cujas características são majoritárias no conjunto da população?

Resumindo e simplificando os dados da pesquisa esse brasileiro teria as seguintes características: é uma mulher (51,3% da população), com idade entre 15 e 39 anos (41%), branca (48,4%), alfabetizada (79,5%) em escola pública (79,2%), que hoje está empregada (52,2%) no comércio (17,4%) com um rendimento médio de R$ 1.034,00.

Esse “brasileiro médio” mora com duas outras pessoas (24,8%), possui em casa luz elétrica (98,6%), telefone (82,1%), fogão (98,2%), filtro de água (51,6%), rádio (88,9%) e televisão (95,6%). É possível que ainda não tenha freezer (só 16% da população possui), computador (31,2%) e internet (23,85%).

Rizoan Vieira de Moura se parece muito com esse “brasileiro médio”. Vendedora em uma loja na rua José Paulino, o movimentado centro comercial no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, ela conta sua história ao Último Segundo numa pausa do trabalho.

Natural de Serra Talhada, a 420 km de Recife, Rizoan deixou sua cidade em janeiro de 2008, com o marido e a filha recém-nascida. Ambos estavam desempregados e sem perspectivas quando partiram para São Paulo. Passou três meses desempregada até conseguir o trabalho – o primeiro com carteira assinada em sua vida – como vendedora numa loja de roupas.

Mauricio Stycer/iG
Rizoan Vieira de Moura
Rizoan, agora trabalha com carteira assinada
Foi o melhor que conseguiu, numa loja que exige o segundo grau completo para suas vendedoras. “Antigamente, a gente contratava pelo perfil. Tinha que ser bonita”, explica a gerente Valeria Cuppello. “Hoje, precisa ter segundo grau, saber conversar com as clientes”.

Como toda vendedora, Rizoan recebe um salário fixo e um variável, dependendo de comissões e prêmios. Aos 24 anos, afirma receber entre R$ 1.200 e R$ 1.400 por mês. “Há dois anos, quando cheguei de Serra Talhada, não tinha nada, nada, nada”, diz. E ainda acrescenta: “Nada mesmo. Nem lugar para dormir”.

O marido conseguiu, primeiro, um trabalho como garçom, e hoje está empregado, também com carteira assinada, como porteiro de um prédio. Em casa, conta Rizoan, eles têm “tudo que é preciso para uma vida estável”. Tem televisão, aparelho de som, telefone celular... “Quero muito a minha casa própria e meu marido quer um carro. Acho que o carro vai sair mais rápido”, diz, animada.

Em outra loja no mesmo bairro, Kelly Rodrigues, de 30 anos, dá a lição para Rizoan alcançar os seus objetivos. Natural de Santa Isabel, na região de Guarulhos, Kelly trabalhava como vendedora de roupa, “das 8 às 8”, numa loja na cidade de 46 mil habitantes. “Queria crescer, mas não tinha incentivo”.

Mauricio Stycer/iG
Kelly Rodrigues

Kelly Rodrigues, empreendedora

Há quatro anos, conseguiu um emprego como vendedora numa loja no Bom Retiro. Nos primeiros dois anos, mostrou qualidades no ofício, a ponto de convencer a chefe a lhe pagar um curso de moda em bolsa. Foi promovida a gerente. “Trabalho das 9h às 17h30 e depois vou para Santa Isabel”. Na cidade onde mora, abriu uma loja de calçados.

“Falo para as vendedoras investirem no estudo. ‘Olha eu’, digo para elas. ‘Volta a estudar’, insisto”. Com segundo grau completo, Kelly ganha hoje três vezes mais que uma vendedora. “Não penso em ser rica. Não dá tempo”. O marido é dono de uma funilaria em Santa Isabel. “Há um ano e meio, consegui meu carro. Agora estou juntando o dinheiro para comprar minha casa”.

Veja os principais dados da Pnad 2008:

 

Saiba mais sobre: Pnad





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