24/08 -
11:26
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Mauricio Stycer, repórter especial do iG
Não é necessário estudar pesquisas de audiência para perceber que o projeto da Record de copiar a Globo está sendo bem-sucedido porque o público claramente manifesta a sua simpatia pela existência de uma emissora-clone. O último episódio de “A Fazenda”, exibido ao longo de três horas e 20 minutos neste domingo, ilustra isso de forma cristalina.
Entre os 14 candidatos do reality show da Record, vários com origem social humilde e histórias de vida edificantes, o público levou à final justamente os dois cariocas de classe média, da zona sul do Rio. Não por coincidência, Dado Dolabella e Danni Carlos encarnam o perfil que a Globo, por anos, tentou convencer o espectador ser o do brasileiro típico ou ideal. Além disso, tanto um quanto o outro devem o seu sucesso artístico à própria Globo.
Como se sabe, Danni “estourou” depois que sua música “Coisas que Eu Sei” fez parte da trilha da novela “Duas Caras”, de Aguinaldo Silva, em 2007. E Dado, filho de dois eternos atores da Globo, só se tornou um “bad boy” de expressão nacional depois de ter feito “Malhação”, algumas novelas e seriados na emissora carioca, além de ter namorado meio elenco global.

Dado Dolabella, vencedor do show comandado por Britto Júnior
A Record omitiu propositadamente essas informações na noite de domingo, ao apresentar o perfil dos dois finalistas. E não era necessário agir de forma diferente – até porque o mau hábito de não mencionar a concorrência é uma regra geral na mídia brasileira. Difícil, em todo caso, acreditar que alguém que tenha assistido ao programa não soubesse desses detalhes sobre a carreira dos dois finalistas.
Há dois tipos básicos de imitação na televisão. A mais ambiciosa busca extrair o sumo do original para superá-la. A mais pragmática procura adequar o objeto de sua cobiça às suas ambições, normalmente limitadas por dificuldades de orçamento ou falta de know-how mesmo. Neste segundo caso, a cópia costuma virar pastiche.
As dificuldades da Record neste seu primeiro reality show ficaram evidentes no último episódio de “A Fazenda”. O esforço de resumir o que aconteceu em 84 dias ao longo de 200 minutos – duração de “E o Vento Levou...” – resultou num programa tedioso, sem timing, sem humor, sem emoção.
Ao exibir um clipe sonolento com todos os “paredões” realizados ao longo de 84 dias, a Record expôs Britto Junior de forma constrangedora. Em 11 dos 12 “paredões”, o apresentador praticou o mesmo truque de festa infantil, ao anunciar o nome do perdedor olhando para o vencedor.
Theo Becker, a mais surpreendente atração do programa, foi reduzido a um mero participante que disputou o posto de maior brigão com Dado. Igualmente inovador – e também omitido na edição do último programa – foi o conflito aberto, ao vivo, entre Dado e o apresentador Britto Junior.
Becker não imitou ninguém em “A Fazenda”, cumprindo um papel absolutamente inovador no programa, sem paralelo em qualquer BBB da Globo. Ao discutir com Britto Junior por conta de um remédio para dormir que lhe foi prometido e não entregue, Dado também não copiou a atitude de ninguém, mostrando uma coragem jamais vista em reality show da Globo.
Por que a Record não deu destaque a estes dois lances originais em sua edição final? Será que ficaram de fora justamente por não se adequarem ao modelo de imitação da concorrente?
Ao ser anunciado como vencedor do programa, Dado Dolabella imediatamente ajoelhou-se. Depois, ao receber um cheque de R$ 1 milhão, disse: “Quero agradecer, em primeiro lugar, a Deus”. À 0h51, “A Fazenda” finalmente saiu do ar e, sem comerciais, a Record emendou a apresentação de “Fala que Eu Te Escuto”, programa apresentado por um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus.
Sucesso de público e comercial, o reality já anuncia a sua segunda edição, ainda este ano. Certamente, alguns detalhes serão aperfeiçoados, mas não é preciso mudar muita coisa. “A Fazenda” mostrou que o espectador também quer que a Record imite a Globo.
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