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"Rodeio é uma caixinha de surpresas", diz locutor

23/08 - 13:07 - Mauricio Stycer, enviado especial a Barretos

BARRETOS - Sem o touro ou o peão, não haveria o rodeio. Mas sem o locutor, o evento não teria a mesma graça. Misto de animador de auditório e narrador esportivo, o locutor de rodeio é um personagem essencial na festa. E alguns, como Adriano do Vale, têm status de estrela, com direito a entrada triunfal na arena e vídeo especial de apresentação.


Natural de Barretos, 37 anos, Adriano do Vale (“com um ele só; com dois eles só os ricos”) sonhava em ser locutor desde criança. “Assistia os rodeios e ia para o banheiro imitar o locutor”, conta.

Estreou aos 21 anos, em Passos de Minas e no ano seguinte já estava sendo escalado para narrar rodeios em Barretos, palco da principal festa do gênero. Hoje, considerado um dos três principais locutores de rodeio do País, atua em cerca de 30 festas por ano. Ganha de R$ 5 mil a R$ 8 mil por quatro dias de trabalho. “Em outros Estados, pode chegar a R$ 12 mil”, diz.

Qual é o segredo do bom locutor de rodeios? “É um dom de Deus. Tá no sangue”, filosofa. “Não adianta fazer curso”, continua, antes de contar que fez fonoaudiologia por quatro anos para aperfeiçoar a maneira de colocar a voz.

Adriano do Vale narra o rodeio de dentro da arena, a menos de 10 metros da porteira de onde partem bois e peões. “Asa Branca é que criou essa escola de narrar de dentro da arena”. Dessa forma, acaba transmitindo mais emoção que o locutor que se posiciona no palco, protegido, mas distante. Não é uma tarefa sem risco. “Em 98, o boi me pegou em Maringá”, conta. “Estourou o ligamento do meu pé”.

O grande desafio do locutor de rodeios é encontrar a palavra certa, a expressão exata para definir as manobras dos touros enfurecidos que entram na arena. “Essa é a graça e a dificuldade. Rodeio é uma caixinha de surpresas”, diz.

Em seu repertório, constam expressões curiosas, que tentam dar conta da variedade de saltos e manobras dos touros. Quando o animal é muito rápido, Adriano diz: “Que touro apetitoso!” Quando o touro gira para os dois lados, e normalmente derruba o peão, ele avisa: “Inverteu a rotação.” Também fala coisas mais difíceis de entender, como: “O animal entrou na roda, depois da estilingada”.

Bem humorado, ao ver a arena com muita lama, no segundo dia de rodeio, avisou o diretor Emilio Carlos dos Santos. “Cacá, o trem tá feio aqui”.  Quando o peão é derrubado pelo touro em poucos segundos, diz: “Foi tudo embora, cowboy”.

Não faltam, também, piadas de cunho sexista ao longo da narração. Brincadeiras como: “As mulheres de hoje em dia já não são como antigamente. Na primeira oportunidade, elas mandam chifre na gente”.

Sinal do seu sucesso, Adriano é patrocinado por três diferentes cervejarias, e exibe as logomarcas de acordo com o local onde ocorre o evento que narra. Também tem site pessoal. “O sonho de todo jogador de futebol é jogar na seleção brasileira. O sonho de todo locutor de rodeios é entrar dentro dessa arena em Barretos. Sou realizado na minha profissão”, diz.

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