22/08 -
11:43
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Mauricio Stycer, enviado especial a Barretos
BARRETOS - Na arena de rodeios ouve-se, na sequência, o Hino Nacional, uma canção em louvor a Nossa Senhora e um country rock de Shania Twain. O locutor grita o nome do patrocinador com a mesma intensidade que anuncia o sucesso de um peão sobre um touro. Parte do público veste-se como se estivesse no Texas. O evento acontece numa área enorme, com tantas e variadas atrações quanto um parque temático da Disney. Para quem vem pela primeira vez, essa mistura toda dá à Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos uma aparência única. Como dirá o locutor do rodeio, “é coisa de outro mundo”.
“Momento cívico”, anuncia o locutor, solene, convidando dois violeiros a executarem o hino do Brasil. “Momento de fé”, prossegue, chamando Amanda, “a princesinha dos rodeios” para cantar um hino religioso católico. Em seguida, um momento militar. Três dezenas de cavaleiros entram na arena. Todos portam bandeiras tricolores, com faixas horizontais em azul, branco e vermelho, as cores do Clube Independentes, que organiza há festa há 54 anos. Para completar a confusão cromática, a calça dos cavaleiros, de plástico, representa uma bandeira do Brasil. Eles encenam várias coreografias ao som de marchas empolgantes, que remetem à conquista do Oeste americano.
Antes do início do rodeio, propriamente, são disputadas três provas. Na primeira, chamada Team Penning, três cavaleiros precisam separar três touros do meio de um rebanho e colocá-los em um curral. Parece uma brincadeira de fazenda, mas é uma competição séria, que mobiliza uma dezena de “times”. Vence o que cumprir a tarefa mais rapidamente. “Esse popular evento cronometrado é baseado nas tarefas originais dos cowboys ainda da era Western”, ensina um folheto distribuído aos jornalistas.
Depois tem o Bulldog, “a modalidade mais radical do rodeio”. É uma prova chocante mesmo, no qual o peão salta do cavalo para agarrar o boi pelo pescoço e derrubá-lo. Vence o que der um “ippon” mais rápido no animal. Diante de um boi mais esperto, acontece de o cavaleiro saltar e cair no vazio. “Bye bye, cowboy”, diverte-se o locutor quando isso ocorre.
“Qual é a emoção de vencer a prova, Rodrigo?”, pergunta o locutor, como se fosse um repórter esportivo, ao final de uma partida de futebol, entrevistando o autor do gol decisivo. “Muita emoção”, responde Rodrigo, campeão da noite no Bulldog, com o tempo de 4,4 segundos.
Ao anunciar as necessidades de prevenção contra a gripe suína, o locutor avisa: “Se cuida peão, senão a doença vem e caça você”.
A terceira prova da noite se chama Três Tambores, “a prova mais charmosa do rodeio brasileiro”. Disputada só por mulheres, consiste em percorrer um circuito, passando por três tambores, no menor tempo possível. Como em gincana de colégio, mas montado num cavalo.
Disputada sob chuva na quinta-feira, a prova de Três Tambores foi cancelada na sexta-feira, em função de a arena ter ficado totalmente enlameada. O público foi privado da empolgação do locutor, que na véspera havia se derramado: “É o charme, a beleza e a velocidade da mulher brasileira. Capricha peona!!!”
Chega a hora, finalmente, do rodeio – ou Montaria em Touro. Introduzida no Brasil há menos de 30 anos, é uma modalidade clássica, que exige do peão uma coragem extraordinária. Montado em touros nervosos, e tendo o direito de usar apenas uma mão, o cowboy precisa ficar sem cair por oito segundos, para começar a marcar pontos.
Um vídeo da LNR (Liga Nacional de Rodeio) é exibido no telão da arena. Até a tipografia usada lembra a NBA, a liga profissional de basquete americano. O locutor conta que, no Brasil, o sonho de todo menino é ser jogador de futebol... ou cowboy. A última imagem mostra uma criança falando sobre “realizar o sonho de ser campeão em Barretos”.
A animação começa com a chegada do locutor do rodeio, uma atração especial. No caso, Adriano do Vale, nascido em Barretos, que logo dá o tom: “Hoje vamos ter um rodeio aquático. É coisa do outro mundo”
A arena tem a forma de um “O”. O ponto de partida dos touros, a jaula onde o animal aguarda a partida, chamada de “brete”, fica numa das extremidades da arena. São 25 peões disputando a prova, válida para o circuito nacional de rodeios. Menos da metade consegue pontuar.
Na metade da prova, transfere-se toda a estrutura para a outra extremidade – uma maneira de facilitar a visão dos espectadores instalados em camarotes bem atrás. O público nas arquibancadas movimenta-se de um lado para o outro, em busca do melhor ângulo.
A graça do rodeio, para quem não sente pena dos animais, é a imprevisibilidade. Cada touro reage de uma forma diferente à montaria do peão. Dão pulos, saltos, rodopios, coices num ritmo frenético, sem lógica aparente, o que torna admirável, realmente, a resistência do cowboy que consegue ficar mais de oito segundos em seu lombo.
Além do locutor Adriano do Vale, o diretor de Rodeios, Emilio Carlos dos Santos, o Cacá, também comenta a perfomance dos touros e dos peões. “Achei que ele ia completar a viagem”, diz Cacá sobre o cowboy derrubado depois de 7,45 segundos. “O menino usou todos os fundamentos para nos mostrar uma excelente apresentação”, diz sobre outro, bem-sucedido.
Sobre os touros, os comentários exigem mais de Cacá. “Que touro complicado”, diz ele sobre um animal furioso, que derrubou o peão em apenas dois segundos. “Esse aí deu um pulo que a gente chama de pulo da cobra mal matada. É muito difícil para o peão”. O touro, com seus mais de 700 quilos, elevou as patas traseiras e sacudiu o corpo, primeiro para um lado, depois para o outro. Pulo da cobra mal matada. Definição perfeita. O peão, no chão, não viu nada. O público aplaudiu o touro. Coisa de outro mundo.
Como ninguém é de ferro, ao final do rodeio tem uma noitada musical. Na primeira noite, o pagode do Sorriso Maroto e a malandragem de Latino. Na segunda noite, Zezé di Camargo & Luciano dividiram o palco com Edson & Hudson. Uma parte considerável do público chega à arena por volta da meia-noite, exclusivamente para ver os shows. Não sabem o que estão perdendo.
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