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Das gargalhadas no cinema mudo ao riso nervoso em "Bruno"

14/08 - 09:00 - Mauricio Stycer, repórter especial do iG

Entre outras joias, o segundo número da revista “Serrote”, que acaba de sair, traz um texto de James Agee, publicado originalmente na revista “Life”, em 1949, e até então inédito em português, intitulado “A grande era da comédia”, sobre a geração de comediantes americanos do tempo do cinema mudo.

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O jornalista e crítico James Agee
Escritor, jornalista e crítico de cinema, Agee (1909-1955) é autor de um livro-reportagem famoso, “Let Us Now Praise Famous Man”, realizado em parceria com o fotógrafo Walker Evans, em 1936, no qual acompanha a trajetória de duas famílias de agricultores, que vivem em condições desumanas, no Alabama durante a Depressão (a obra será lançada pela Companhia das Letras com o título “Elogiemos os Homens Notáveis” dentro da coleção Jornalismo Literário).

Com textos para as revistas “Time” e “The Nation”, Agee construiu sua fama como crítico de cinema entre o final dos anos 30 até a sua morte, precoce, aos 46 anos. O texto publicado na “Serrote” distingue-se desta produção por se tratar de uma longa reportagem, de caráter nostálgico, escrita para a “Life”, centrada nas trajetórias e nos talentos dos comediantes que popularizaram o cinema americano nas décadas de 10 e 20.

O texto começa com uma magnífica definição sobre os quatro níveis de riso que os comediantes do cinema conseguem obter com suas piadas: o riso abafado, o uivo, a risada e a gargalhada. Escreve Agee:

“O riso abafado é apenas um riso abafado. O uivo é um riso abafado, porém prolongado. Todo mundo que já sentiu esse prazer sabe o que é uma risada. A gargalhada é a risada letal. A boa gague genuína, concebida e interpretada à perfeição, é aquela que leva a vítima a subir essa escada de risos até o topo, controlando cruelmente cada um de seus degraus, para então balançá-la, sacolejá-la, fazê-la vibrar e tremer, até que a vítima implore por clemência. Após um curtíssimo intervalo para recuperação, ela sente novamente a primeira comichão perversa provocada pelo comediante e começa a subir uma nova escada”.

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O comediante Charles Chaplin
Pergunta Agee, em 1949: Há quanto tempo o leitor não passa por este tratamento? A partir da constatação que já não se gargalhava como antigamente, o jornalista dedica-se a descrever os métodos e as qualidades específicas dos gênios do cinema mudo, em especial Harold Lloyd, Harry Langdon, Charles Chaplin e Buster Keaton – este último, tenho a impressão, o seu favorito.

Não vou aqui descer a detalhes do texto. Basta dizer que, em 2006, na “New Yorker”, o crítico David Denby classificou “A grande era da comédia” como “um dos melhores textos sobre cinema já escritos” nos Estados Unidos.

O que me interessa nesta descrição inicial de Agee sobre a gargalhada é a reflexão que provoca sobre “Bruno”, o mais recente filme de Sacha Baron Cohen, que estréia no Brasil nesta sexta-feira, 14 de agosto. Em função do sucesso de “Borat”, seu filme anterior, Cohen alcançou o status de comediante de maior expressão – e com maior volume de recursos para realizar filmes – hoje no mundo.

Como escrevi no Último Segundo há um mês, acho que Cohen repete a fórmula de “Borat” em “Bruno”.

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Sacha Baron Cohen como Brüno
Em todo o caso, Cohen é hoje, com certeza, o mais importante comediante dentro de um segmento específico, o do humor agressivo, radical, cujo efeito é obtido quase sempre da confrontação com não-atores em situações construídas sem o conhecimento deles e com o objetivo de constrangê-los. Dito de outra forma, em uma única palavra: “pegadinhas”.

Tanto em “Borat” quanto em “Bruno”, esse tipo de humor presta-se como uma luva para a denúncia da estreiteza de comportamentos conservadores e de preconceitos raciais ou sexuais, dos mais variados tipos e formas. Cohen provoca muitos risos abafados, alguns uivos e umas poucas risadas com esse tipo de humor.

Também provoca um tipo de riso que Agee não descreve em seu texto – o riso nervoso. Trata-se de um riso abafado, mas repetido, de forma sincopada, semelhante, às vezes, a um choro. Rimos assim quando achamos graça, mas também sentimos pena de quem está nos fazendo rir.  Nas sessões em que assisti aos dois filmes, não me recordo de nenhuma grande gargalhada.





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