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O triste fim do pregão da BM&F

30/06 - 15:04 - Mauricio Stycer, repórter especial do iG

SÃO PAULO - “Não sei se vou voltar amanhã”, diz o operador da BM&F ao segurança do prédio. São 10h da manhã e a Bolsa de Mercadorias de Futuros, em São Paulo, vai operar pela última vez em sua história com o pregão viva-voz. O segurança não responde nada, apenas pede para o operador passar novamente pelo detector de metais.

O operador volta, retira alguns objetos do bolso, mas o alarme toca novamente. “Hoje está muito sensível”, explica um segurança. O operador se irrita com o rigor na revista eletrônica. Bate boca com o segurança. Retira um punhado de moedas e entrega. “Vê se agora vai”. O segurança não responde nada. Parece treinado para enfrentar a irritação e o mau-humor dos operadores.

Mauricio Stycer/iG
O pregão de hoje na BM$F, já com número de operadores reduzido

A segurança na entrada da BM&F aumentou muito nos últimos meses, desde que, em novembro de 2008, um operador entrou no local com um revólver e atirou contra o próprio peito no meio do pregão.

 

Com o fim do viva-voz, os negócios na BM&F passam a ser integralmente realizados pelo chamado GTS (Global Trading System) – um sistema eletrônico, que as corretoras acessam de seus escritórios e dispensa a negociação feita pelos operadores em pregão.

No seu auge, a BM&F chegou a ter 1.200 operadores cadastrados, aptos a participar daquela balbúrdia que se tornou a marca registrada das bolsas de valores. Desde que o GTS entrou em operação, em 2000, esse número vinha caindo, chegando hoje a apenas 300 operadores.

AP
O pregão ainda movimentado na BM&F

Às 10h15, no aquário reservado à imprensa, onde sempre foram realizadas as fotos e imagens da animação no pregão, os jornalistas assistem a uma cena melancólica. Há cerca de 50 operadores no pregão e nenhum negócio é realizado por viva-voz. De braços cruzados, os operadores conversam ou fazem fotos, em pequenos grupos, para guardar de lembrança.

A morte do pregão viva-voz está anunciada desde dezembro de 2006, quando o GTS foi responsável por 58% dos negócios, superando os que se realizaram na sede da Bolsa. Em 2007, o sistema eletrônico respondeu por 73% e, no fim de 2008, por 93%. Em abril de 2009, o índice chegou a 97%.

“É um processo natural de evolução”, diz André Demarco, diretor de Operações da BM&F, em sua sala, três pisos acima do pregão quase fantasma. “Os negócios ganham agilidade e são realizados com menos erros”, diz. Aos 37 anos, o executivo está na Bolsa desde 1991 e chegou a trabalhar no pregão viva-voz.

Mauricio Stycer/iG
O diretor da BM&F André Damarco

A conversa com o Último Segundo é a 30ª entrevista que Demarco dá nos últimos dias para falar do assunto. Nada que diminua o seu ânimo e otimismo: “Isso não é o fim de nada. É o início de uma nova era”.

O otimismo de Demarco não é compartilhado pelos operadores que, a partir das 17h30 desta terça-feira, vão ver desaparecer o ofício que exerceram por muitos anos. Ao redor do prédio da BM&F, na praça Antônio Prado, no centro velho de São Paulo, o repórter se aproxima de alguns operadores, que conversam. “Você é operador?”, pergunto a um deles. “Sou, não. Era”, responde, irônico.

A maioria evita se identificar. Temem sofrer represálias das corretoras onde (ainda) trabalham. Pergunto a vários o salário de um operador de pregão e as respostas são parecidas – entre R$ 3 mil e R$ 12 mil. Não há piso salarial, nem tabela. Operadores que fazem exatamente a mesma coisa ganham salários muito diferentes.

Com o fim do pregão viva-voz, eles acham que poderiam ser reaproveitados em suas corretoras, na função dos que operam o sistema por computador. “O problema é que a maioria dos donos de corretora prefere colocar um trainee para fazer esse serviço, pagando R$ 2 mil”, diz um.

Muitos operadores planejam, com o dinheiro da indenização que receberão em caso de demissão, operarem por conta própria. Outros pensam em se habilitar junto à Ancor (Associação Nacional das Corretoras de Valores, Câmbios e Mercadorias) para poderem operar para terceiros. E muitos aguardam os acontecimentos, angustiados, sem saber o que acontecerá a partir desta quarta-feira, 1º de julho.

Alexandre Farinaro de Lacerda é um destes. Ao 37 anos, como Demarco, também entrou na Bolsa aos 19 anos. Foi office-boy, depois funcionário da Bovespa e, a partir de 1993, operador de pregão de corretoras. Há sete anos, com o fim do pregão na Bovespa, veio para a BM&F.

Mauricio Stycer/iG
O operador Alexandre Lacerda

Como todos que lidam com o trabalho estressante do pregão, Lacerda guarda algumas más recordações. “Há três anos tive síndrome do pânico aí dentro. Comecei a chorar no meio do fechamento. Foi punk”, conta. Submetido a tratamento médico e terapia, Lacerda recuperou-se e voltou ao trabalho em pouco tempo. “Há três meses, tive de novo. É a TPD, tensão pré-demissional”, diz.

O que preocupa mais a Lacerda e outros operadores é o desaparecimento da profissão que exerceram. “Entendo que é um processo de modernização e de corte de custos. O problema é a recolocação de 250 profissionais”, diz, antes da triste conclusão. “Não é que eu vendia pneu e agora vou vender feijão. Minha profissão se extinguiu”.

O que será do espaço onde até esta terça-feira funcionava o pregão? Uma parte será ocupada por 60 funcionários da BM&F que hoje trabalham no segundo andar, na fiscalização das operações. Outra parte será transformada numa espécie de museu – um espaço para visitação pública, como ocorreu com o pregão da Bovespa, e também para a realização de eventos midiáticos. “É a nova identidade da Bolsa”, explica Demarco.

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