02/04 - 10:47 - Mauricio Stycer, repórter especial do iG
As mortes de militantes políticos, acusados de traição, por companheiros de suas próprias organizações preenchem um capítulo embaraçoso e pouco discutido nos ambientes de esquerda no Brasil. Há alguns casos famosos – especialmente no duro período em que organizações de esquerda, clandestinas, adotaram a luta armada para enfrentar a ditadura brasileira, em meados da década de 60 e de 70.
| Simone Rodrigues/Divulgação |
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| Sérgio Rodrigues, que lança "Elza, a Garota" |
Na entrevista, realizada numa troca de e-mails, Rodrigues explica a sua opção pela forma do romance, em detrimento do relato de caráter histórico ou jornalístico, e discute algumas questões, levantadas pelo trabalho.
iG - Por que você optou por dar tratamento de romance ao caso?
Sérgio Rodrigues - Por algumas razões. A primeira foi perceber que, por melhor que fosse a pesquisa, haveria grandes lacunas na história dessa moça, em parte fabricadas por quem queria esconder esse crime, em parte devido ao longo tempo que se passou, sobretudo ao fato de todos os personagens estarem mortos. Mas não foi só isso. A decisão foi se firmando à medida que eu percebia o que a história tinha de apaixonante, de romanesco, qualidades que seriam até certo ponto desperdiçadas num livro de não-ficção. Por último, o romance me dava flexibilidade para pintar um painel histórico mais amplo, trazendo as repercussões do caso até os dias de hoje. Fazer isso numa reportagem seria praticamente impossível, e num ensaio acadêmico consumiria mil páginas.
iG - Memória e invenção andam juntas – você mesmo escreve. Um romance, num caso com tantas versões e filigranas, pode chegar mais perto da “verdade” que uma reportagem?
Sérgio Rodrigues - De um certo tipo de verdade, uma verdade humana, acredito que sim. A literatura te dá liberdade para fazer associações, para jogar com certas intuições, uma liberdade que numa história como essa me parece um trunfo – desde que seja bem usada, claro. O Milan Kundera diz que o romance está perdendo espaço em nossa época porque as pessoas estão interessadas em encontrar respostas, seja na política, seja na religião, e a especialidade do gênero é perguntar e não responder. Um caso como o da Elza Fernandes comporta mais perguntas que respostas, sem dúvida nenhuma. Do ponto de vista do Kundera, é romance puro.
iG - Você deixa transparecer que entrevistou várias pessoas e leu muitos livros e documentos para reconstituir episódios relatados. Pode falar um pouco desse trabalho? E responder: Existiu um Xerxes?
Sérgio Rodrigues - Foram cinco meses de pesquisa intensiva, em que tive a ajuda de uma pesquisadora profissional, a Cristina Zarur. Corremos arquivos e bibliotecas no Rio e em São Paulo. Li dezenas de livros, que estão listados na bibliografia, e entrevistei um bom punhado de pessoas. Só uma delas, uma velha militante comunista de São Paulo chamada Sara Becker, conheceu a Elza. Foi um encontro fundamental para o livro. Depois de conversar com Sara, que aos 94 anos tem uma memória espantosa e me recebeu muito bem, ganhei coragem para inventar o Xerxes. Este é um personagem totalmente fictício, mas acho que não existiria se eu não tivesse conversado com alguém que conheceu de fato a Elza. Até então, a pesquisa era toda fria, de segunda mão.
iG - Nas várias reproduções de “reportagens” da época, sobressaem, como você mesmo diz, o fato de que “os efeitos dramáticos afogam a exatidão”. Você acha que o jornalismo político melhorou?
Simone Rodrigues/Divulgação

Reprodução da capa do livro
Sérgio Rodrigues - O jornalismo como um todo melhorou muito. O dos anos 30, principalmente quando não era autoral, assinado, era subliteratura pura. Foi divertido incorporar esse discurso ao romance, claro que com uma perspectiva crítica.
iG - Em mais de uma passagem, você faz, se entendi, uma crítica ao relativismo. Ao mesmo tempo, o seu livro não compra nenhuma tese, não assume incondicionalmente um ponto de vista, deixa quase tudo em aberto. Não seria uma contradição?
Sérgio Rodrigues - Não vejo assim. A crítica ao relativismo está na boca de um personagem, mas, embora eu não seja avesso a toda e qualquer perspectiva relativista, concordo que esse tipo de pensamento pode ser perigoso para tratar de política e ideologia, como se no fundo não houvesse diferença entre as ideias que estavam em luta naquele momento. Isso pode conduzir a uma indiferença pela História que me parece ser o oposto das intenções do “Elza”. O fato de contar com nuances uma história que até hoje tinha tons chapados e deixar que o leitor tire suas próprias conclusões, sem distribuir etiquetas de herói e vilão, obedece a um impulso de busca de justiça e verdade histórica que, no fim das contas, é anti-relativista, porque tem fundo moral. Se essa verdade não é dada de bandeja nem tem uma dimensão só, se ela acaba sendo um grande tumulto, talvez isso indique apenas que é mais verdadeira ainda. Mas o livro não perdoa ninguém nem diz que todos se equivalem. É uma tentativa de ir além do ideológico, do esquemático.
iG - A certa altura, você descreve um certo “guru da História Virtual” e descreve que a principal característica desse gênero reside no fato de que “a verossimilhança, e não a verdade, é a prova dos nove dos relatos históricos”. Diante da dificuldade de chegar à “verdade” sobre Elza, você ficou tentado a recorrer à “história virtual”?
Sérgio Rodrigues - Bom, de certa forma eu recorri mesmo à "história virtual" ao criar uma série de personagens fictícios. Essa passagem do livro tem muito de auto-ironia. Ao mesmo tempo, é também uma crítica aos relatos históricos cristalizados. Toda história é sempre construída, e não custa manter os olhos abertos para isso. Num certo sentido a vida real não existe, pelo menos não em estado puro.
iG - Quase ao final do livro, você cita, de passagem, um caso mais recente, pós-1968, de um jovem morto pela própria organização de esquerda da qual fazia parte. Seria um tema para um próximo livro? Uma “continuação” de Elza?
Sérgio Rodrigues - Nunca! Esse novo justiçamento é um eco, um espelho, tem a ver com a arquitetura deste livro e nada mais.
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