30/03 - 00:31 , atualizada às 11:11 30/03 - Mauricio Stycer, repórter especial do iG
Num mundo em que se lê cada vez menos, chega a provocar incredulidade a notícia de que uma equipe de jornalistas do primeiro time se debruça há cinco meses sobre o projeto de criação e lançamento de uma revista dedicada a textos de caráter ensaístico. Mas é isso mesmo.
| Reprodução |
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| Capa da nova publicação 'Serrote' |
Está chegando esta segunda-feira às livrarias e algumas bancas de jornais o resultado deste esforço, o primeiro número de “Serrote”, que se apresenta como “uma revista de ensaios, idéias e literatura”.
Projeto de Flavio Pinheiro, desenvolvido por Matinas Suzuki Jr., ao lado de Rodrigo Lacerda, Samuel Titan Jr. e Daniel Trench (diretor de arte), “Serrote” apresenta-se como uma alternativa às revistas de ensaios de caráter acadêmico, que proliferam, com os mais variados padrões de qualidade, nos principais centros universitários do país.
“No Brasil, (o ensaio) tomou forma acadêmica, o que é uma pena, pois fica sem o que tem de bom, a espontaneidade”, escrevem os editores, na apresentação de “Serrote”. “O ensaio ideal poupa citações e supõe que as notas de rodapé são um terreno minado”, acrescentam, explicitando o modelo de revista que perseguem.
“Vamos abrir espaço para o chamado ensaio pessoal”, diz Matinas Suzuki. “O autor pode discorrer sobre um tema de interesse dele, com liberdade de estilo e tom, sem nenhuma obrigação”.
A título, talvez, de modelo do que deseja alcançar, “Serrote” publica em seu primeiro número ensaios antigos de três autores americanos que, de alguma forma, ajudaram a moldar esse gênero: E.B. White (“Adeus ao Ford Bigode”), Edmund Wilson (“Motores de Detroit”) e H.I. Mencken (“O Circo de Tennessee” e “Expondo um Tolo”).
Outro diferencial da revista é o padrão gráfico. “Serrote” apresenta-se com impressionante apuro visual e diagramação refinada, recheada de fotos e ilustrações – um conjunto que a deixa mais “leve”, atraente. A fonte de inspiração, no caso, é a “The Virginia Quarterly Review”, uma revista trimestral, publicada pela Universidade de Virginia (EUA), desde 1925.
| Copyrigth The Saul Steinberg Foundation/ Artists Rights Society (ARS), New York |
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Inéditos de Saul Steinberg estão na nova publicação |
Por coincidência, a revista estréia com a publicação de 20 desenhos inéditos do artista Saul Steinberg (1914-1999), retirados de uma agenda (de 1954) e nunca publicados. “Serrote” também revela que a primeira revista a publicar um desenho de Steinberg na capa não foi a “New Yorker”, onde ele se tornou célebre, mas a brasileira “Sombra”, em 1940.
No variado, e atraente, cardápio da revista, um texto do historiador Robert Darnton sobre “O Google e o futuro dos livros”, a tradução de aforismos de Kafka por Modesto Carone, uma reflexão do artista plástico Nuno Ramos sobre Nelson Cavaquinho, fotos inéditas de José Panceti feitas por Marcel Gautherot, uma palestra do historiador Carlo Ginzburg sobre a tela “O Último Suspiro de Marat”, de Jacques-Louis David e uma carta, nunca divulgada, de Mario de Andrade para Otto Lara Resende.
Publicada pelo Instituto Moreira Salles, com recursos próprios, a revista circulará três vezes por ano, em março, julho e novembro. A tiragem inicial de “Serrote” é de 3 mil exemplares e o preço de capa é de R$ 29,90.
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