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Pueril, "Garapa" quer obrigar espectador a se sensibilizar com a fome

19/03 - 15:15 - Mauricio Stycer, repórter especial do iG

Consagrado em 2007 com “Tropa de Elite”, o diretor José Padilha começa a mostrar seu novo trabalho, “Garapa”, um documentário sobre a fome, filmado no Ceará. O filme estreia em circuito comercial no dia 15 de maio, mas poderá ser visto antes, no Festival É Tudo Verdade, nos dias 26 de março (Rio de Janeiro) e 03 de abril (São Paulo).

No filme, as mulheres cuidam das crianças,
que vivem largadas / Alexandre Lima

Trata-se de um filme destinado (e, tudo indica, planejado) a não passar em branco. No lugar de discutir o tema da fome, “Garapa” se propõe a obrigar o espectador a compartilhar cruamente a experiência de quem não tem o que comer.

“Essa é uma experiência que só pode ser compreendida quando você se cola em pessoas que, efetivamente, passam fome. Só assim é possível ter o entendimento ideal, que vai além do que se lê em estatísticas. Um entendimento emocional”, disse Padilha, em fevereiro, por ocasião do Festival de Berlim, onde o filme foi exibido pela primeira vez.

Por 110 torturantes minutos, Padilha dedica-se a um registro pretensamente realista, em preto e branco, do cotidiano de três famílias miseráveis – no sertão cearense e na periferia de Fortaleza. O termo “garapa”, ensina o filme, designa um caldo quente feito com água e açúcar, dado pelas mães às crianças como substituto do leite, ou de algum outro alimento.

As três famílias vivem na miséria. Sem trabalho, os homens não fazem nada – apenas fumam, bebem e veem o tempo passar. As mulheres cuidam das crianças. E as crianças vivem largadas, em casas com chão de terra, sem esgoto e sem água. Os recursos para o dia-a-dia vem ou de algum programa de auxílio do governo federal (eles citam o Fome Zero) ou de esmolas e ajudas de almas caridosas.

“Garapa” não se propõe a discutir as razões da miséria, os seus antecedentes, o seu histórico. O filme, muito menos, tem a pretensão de apontar soluções, debater alternativas, vislumbrar saídas.

Como defendeu Padilha em Berlim, é preciso sentir a fome na pele para entender o problema – um raciocínio pueril, paternalista e anti-intelectual. É preciso ser assaltado para entender a violência urbana? É preciso ser violentado para entender a violência sexual? É preciso morar na favela para entender a pobreza? É preciso pedir dinheiro no sinal para entender a miséria?

Curiosamente, o discurso extracinematográfico de Padilha não combina com o seu filme. Em Berlim, o cineasta afirmou: “Se ainda há fome no mundo é porque assim queremos. Não há nenhuma lei natural que determine que pessoas tenham que passar fome. É um drama que tem solução.” O seu filme ajuda pouco nesse sentido.

Assista a trechos do documentário "Garapa":

Leia mais sobre: Garapa, José Padilha

 





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