26/12 - 15:40 - Mauricio Stycer, repórter especial do iG
Ainda há muito a esclarecer, nos estudos sobre a televisão no País, tanto sobre o papel das telenovelas na formação de uma indústria do entretenimento quanto em relação ao espaço que elas ocupam no imaginário do brasileiro.
As novelas integram a programação desde os primórdios da tevê no Brasil, na década de 50. Ganharam impulso decisivo a partir das décadas de 60 e 70, dentro da Rede Globo, que transformou a sua produção num processo industrial altamente profissional e bem-sucedido, do ponto de vista da audiência e da rentabilidade.
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| Capa do livro "Autores" |
Não à toa, a própria Globo vem demonstrando preocupação em registrar uma parte desta história, ao menos a parte que lhe cabe, por meio do projeto Memória Globo. É dentro desse contexto o esforço que levou à publicação, agora em dezembro, de “Autores – Histórias da Teledramaturgia” (Editora Globo, R$ 72), dois catataus com 482 páginas cada, dedicados a ouvir os depoimentos de 16 autores de novelas.
Não se pode deixar de lamentar o “recorte” do projeto, que privilegia basicamente a própria produção da Globo e os autores “da casa”, deixando de fora quase tudo feito fora de seus domínios. Ainda assim, o resultado do projeto está longe de poder ser desprezado como uma iniciativa “chapa-branca”.
Do confronto dos entrevistadores, coordenados por Silvia Fiúza e Ana Paula Goulart Ribeiro, com os autores de telenovelas, é possível vislumbrar um mundo complexo, repleto de contradições, sujeito a todos os tipos de pressão (da própria direção da emissora, de diretores, atores, do público e da imprensa) e a um modelo de trabalho assustadoramente industrial.
São entrevistas fluviais, repletas de detalhes que podem interessar tanto o pesquisador acadêmico quanto o apreciador de novelas. Aparecem nas entrevistas as vaidades, os conflitos, as frustrações e os sonhos desses escritores envolvidos numa rotina pesada, mas muito bem remunerada.
São, evidentemente, entrevistas desiguais. Os autores mais novos tem muito menos para contar e mais dificuldades para deixar o ego de lado e refletir sobre o próprio ofício. Autores como os veteranos Benedito Ruy Barbosa, Walter Negrão e Manuel Carlos falam pelo prazer de falar e contar histórias. As entrevistas com Aguinaldo Silva, Gilberto Braga e Silvio de Abreu também são reveladoras de meandros do ofício.
| Cicero Rodrigues |
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| Aguinaldo Silva |
| Cicero Rodrigues |
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| Benedito Ruy Barbosa |
“Cheguei a assistir a uns cinco ou seis capítulos da novela (“Esperança”) depois que eu saí. Mas parei de ver, porque eu ficava doente. Até briguei com o autor (Walcyr Carrasco) que me substituiu, mas fizemos as pazes. Entendi os motivos dele. Na verdade, cheguei à conclusão de que eu era o grande culpado, porque havia parado de escrever. Mas, se ele tivesse recebido a sinopse que deixei com a continuação da história, teria feito tudo que imaginei.” (Benedito Ruy Barbosa)
Autor x colaborador “Não queria ficar (na Globo) sem poder contar as minhas histórias. O colaborador de novela não é a figura que narra a história. Ele é importante, evidente, mas não é o dono da trama”. (João Emanuel Carneiro) Autor x diretor “Acho um absurdo o autor impor ao diretor um elenco porque o autor vai ficar em casa, e quem vai conviver com os atores é o diretor”. (Aguinaldo Silva) “Houve na televisão brasileira um momento de ditadura do diretor. Aliás, não foi só na TV; aconteceu no teatro também. O diretor forçava uma estética à revelia do texto, e isso provocava um descompasso. Era meio esquisito.” (Alcides Nogueira) “Belíssima” “A Sonia Braga não acertou com a TV Globo, eu não conhecia nenhuma atriz que pudesse fazer o papel de mãe de Gloria Pires, então optei por mudar a história da novela. Criei a mãe, símbolo sexual que já teria morrido, a filha problemática e esmagada pela fama da mãe, e a avó, mãe do símbolo sexual e guardiã do mito da filha morta – portanto, algoz da neta. Assim nasceu Bia Falcão, papel escrito especialmente para Fernanda Montenegro, que passou a existir a partir do momento em que não pude contar com a Sonia Braga no elenco.” (Silvio de Abreu) Crise nas novelas “Nenhuma novela tem ido tão bem como antigamente porque hoje existem alternativas fora da televisão. (...) É o politicamente correto que está predominando em todo lugar. Se a novela é só politicamente correta, fica muito chata.” (Aguinaldo Silva) “Se eu quiser fazer uma cena de assalto, nada pode ser mostrado. Os ‘não pode’ são infindáveis.” (Antonio Calmon) “Hoje, sou um autor que se preocupa com a audiência. Tanto que procuro saber todo dia a posição do Ibope. Antigamente, não me preocupava com nada. Não havia concorrência.” (Benedito Ruy Barbosa)
| Cicero Rodrigues |
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| Gilberto Braga |
“Escrava Isaura”
“O maior fenômeno de Escrava Isaura – na época, eu já pensava um pouco assim – é que eu, pessoalmente, acho a novela horrível. Até hoje não entendo por que fez tanto sucesso. Era uma produção horrorosa. Eu não gosto, especialmente, do elenco, nem do meu texto.” (Gilberto Braga) Estresse “O processo de novela é massacrante. É como se você estivesse correndo na frente de uma locomotiva. Ou, como diz o Jorginho Fernando, é como uma escola de samba que desfila durante oito meses.” (Antonio Calmon) “Escrever novela é trabalhar na estiva, durante nove, dez meses.” (Benedito Ruy Barbosa) “Até hoje pago um preço muito alto por ter escrito essa novela (‘Dancin´ Days’) sozinho. Só consigo dormir com remédios. Eu tinha 33 anos de idade e aquilo me cansou para o resto da vida.” (Gilberto Braga) “É preciso ter uma resistência psicológica enorme, inclusive para agüentar a imprensa quando a novela é um fracasso.” (Maria Adelaide Amaral) Homossexualismo “Eu estava muito incomodado com a maneira como o homossexualismo vinha sendo tratado nas novelas. Os casais homossexuais pareciam casais heterossexuais de classe média.” (Aguinaldo Silva, sobre a trama que criou em “Duas caras”) “O casal gay de ‘Paraíso Tropical’, do Gilberto Braga e do Ricardo Linhares, podia ser tanto um casal de gays como um casal de símios, porque não era nada. Não havia nada que mostrasse uma intimidade maior. E sei que o problema não era do Gilberto nem do Ricardo.” (Alcides Nogueira) “Não queríamos criar polêmica em torno do casal gay. Nosso objetivo, ao contrário, era mostrar um casal sem conflitos afetivos. Existem casais bem casados, tanto gays quanto héteros. Nós queríamos mostrar um casal gay que não vivesse conflitos amorosos e fosse totalmente aceito no ambiente de trabalho, no circulo de amigos e vizinhos”. (Ricardo Linhares) “Não acho que a TV aberta seja um veículo para divulgar a luta dos gays, por exemplo. Ela foi feita para a família heterossexual comum. Entendo que certas regras precisam ser seguidas.” (Antonio Calmon) “O romance entre o Junior e o Zeca (em ‘América’) era tão bonito que o beijo merecia ter ido ao ar. A história de amor dos dois personagens foi construída de forma delicada. Mas a direção da emissora achou que a cena não devia passar, porque poderia chocar a maioria do seu público. (...) Não discuto: em todas as emissoras do mundo, cabe à direção decidir o que vai e o que não vai ao ar. Fiz a minha parte...” (Gloria Perez) Imprensa “Acho que a imprensa insufla o falso moralismo, principalmente as revistas de fofoca, que têm uma penetração muito grande”. (Alcides Nogueira) “Existe gente que extrapola, que não respeita você. Na época de Esperança, eu estava com a minha mãe e o meu irmão morrendo, sem fumar, sem beber, com a novela na mão de outro autor – e, quando pegava o jornal, a imprensa só me criticava. Era duro”. (Benedito Ruy Barbosa) “A função dos críticos é analisar; a minha, escrever. Evidentemente, não concordo com eles. Acho a crítica brasileira muito provinciana e reacionária.” (Carlos Lombardi) “O Brasil conseguiu criar uma indústria de novelas muito sólida, muito apreciada no exterior, mas não conseguiu criar uma crítica à altura desse produto.” (Gloria Perez)
| Cicero Rodrigues |
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| Silvio de Abreu |
“A crítica começou a dizer que ‘Rainha da Sucata’ tinha sido feita para defender o Plano Collor, que a TV Globo tinha me mandado fazer uma novela para defender o candidato que ela supostamente havia apoiado – o que, além de uma grande mentira, era um absurdo, uma bobagem. Isso foi crescendo e começou a haver uma antipatia muito grande com relação à novela”. (Silvio de Abreu)
O público manda "Você está fazendo novela para quê? Para conseguir audiência e agradar o telespectador. É para fazer sucesso, não é por outra razão. Então, é um absurdo se colocar contra o que o espectador quer. Posso fazer isso nos meus livros e nas minhas peças de teatro. Nas novelas, não.” (Aguinaldo Silva) “Quando um tema é rejeitado, a culpa não é do público, é do autor. Ele é que não soube tratar o assunto.” (Aguinaldo Silva) “Não podemos esquecer que a novela, por maiores que sejam as nossas ambições artísticas, é um produto.” (Alcides Nogueira)"(Em ‘Desejos de Mulher’) eu mexia na trama todo dia. A cada capítulo, a novela tinha uma cara. Ficou algo completamente louco. Os personagens não tinham pé nem cabeça, faziam uma coisa a cada dia. Eu tentei de tudo. Se me falassem que daria certo botar um elefante plantando bananeira, eu botaria. Foi uma maluquice, muito, muito estressante”. (Euclydes Marinho)
| Cicero Rodrigues |
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| Manoel Carlos |
| Cicero Rodrigues |
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| Walter Negrão |
“O bom vilão é canastrão, faz o telespectador rir. É um pouco como o Tom do desenho animado Tom & Jerry. Ele esmaga aquele ratinho mil vezes por dia, prepara as armadilhas mais ardilosas, mas sempre leva a pior, e todo mundo morre de rir.” (Aguinaldo Silva)
“Resolvi matar o Ziembinski (em ‘Cavalo de Aço’). Ele ficou bravo porque estava fazendo um sucesso danado, meio Dom Corleone, no estilo Marlon Brando de ‘O Poderoso Chefão’. Pedimos desculpas a ele e matamos o velho Max. A novela explodiu. Essa é uma fórmula que sempre deu certo. Aliás, são duas fórmulas que não falham: história de família, como ‘A Grande Família’, ‘Gente como a Gente’, ‘Família Trapo’, e o ‘Quem matou?’. Não tem erro.” (Walter Negrão)
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