04/11 - 14:12 - Mauricio Stycer, repórter especial do iG
“Acho que tem um cara pelado no terceiro andar”, informa um segurança no andar térreo da 28ª Bienal de São Paulo. Em vez de optar pelo segundo andar, totalmente vazio, Maurício Ianês resolveu iniciar sua performance pelo terceiro andar, onde estão outras obras e instalações da exposição.
Por volta das 10h10 da manhã desta terça-feira, Ianês postou-se totalmente nu à esquerda de quem sobe a rampa do prédio da Bienal. A ação se chama “A Bondade de Estranhos” e visa promover uma interação do artista com o público. Durante 13 dias ele ficará no prédio, sem falar com ninguém, sem roupa nem comida, apenas aceitando doações do público. “É a limpeza, reduzir a ação à essência, à coisa mais crua possível”, definiu, em entrevista publicada hoje na Folha de S.Paulo.
Menos de dez minutos depois de iniciada a performance, Marcos Cristian apareceu e doou sua camisa para Ianês. Cobrador de ônibus na linha Vila Madalena-Terminal Capelinha, Cristian ficou comovido com a proposta do artista. “Fui avisado antes sobre a exposição, mas quando você chega aqui e vê, é um choque. O choque de ver que o ser humano é necessitado”.
Cristian estuda artes visuais na Faculdade Montessori e sonha um dia trocar de profissão, para se dedicar exclusivamente à arte. “Não doaria a minha camisa novamente. Espero que o meu gesto seja um passo para as pessoas”.
A performance de Ianês causa constrangimento aos seguranças da Bienal. “Nem vou olhar para lá”, diz um deles. “Toma conta do malandro aí”, diz um outro para os dois colegas postados a 200 metros do artista.
Os visitantes que alcançam o terceiro andar, invariavelmente, viram à direita, evitando passar perto de Ianês, que está à esquerda de quem chega. Não há nenhuma placa ou indicação sobre o que o artista está fazendo. Também não há visitas guiadas nesta 28ª Bienal. Quem tiver interesse em se informar ou entender o que se passa deve se dirigir aos “educadores”, que estão próximos.
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Cristian doou camiseta ao artista, que continuou nu abaixo da cintura / Mauricio Stycer |
É a uma delas que a pianista Cecília Gidali se dirige, ao chegar com as duas filhas para visitar Ianês. “Não pode interagir?”, ela pergunta. “Não”, explica a monitora. Ianês não fala, não se move, não faz nada. Cecília se aproxima com as meninas – Natalia, de 8 anos, e Fernanda, de 4, ambas vestidas para a aula de balé – olha para o artista como se ele fosse um quadro na parede e se afasta. “Conheço ele há muitos anos”, explica. “Treinamos esgrima juntos. Vim trazer minhas crias para ele conhecer”.
Pergunto à educadora que está próxima, Alline Leal, por que não há nenhuma informação sobre a performance de Ianês. “Todo trabalho de arte contemporânea tem essa carga de subjetividade. Assim, a Bienal tem essa proposta: fazer pensar. E o trabalho do educador é instigar o público a pensar”.
Em outra área do terceiro andar, diante de um trabalho sem nome nem título, indago a um outro educador se ele pode me dar alguma informação. Ele explica que a identificação do trabalho está no mapa que é distribuído gratuitamente na Bienal. “O problema”, diz ele, “é que algumas obras mudaram de lugar em relação ao mapa”. No lugar que o mapa indica estar o trabalho da brasileira Rivane Neuenschwander, na verdade, vemos a galeria de vídeos da sérvia Marina Abramovic.
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Cenário do programa de tevê que preencheu hoje "vazio" do 2º andar / Mauricio Stycer |
No mapa distribuído há uma espécie de ficha técnica dos trabalhos, com nome e materiais usados por cada artista. Essas informações substituem as placas de identificação, normalmente colocadas na parede, ao lado de cada obra. E se o espectador quiser saber algo mais sobre a instalação ou performance? “A explicação está no guia”, diz a educadora. E onde está o guia? “É vendido lá embaixo”.
No segundo andar, supostamente vazio para questionar o próprio papel da bienal, há aulas de reeducação postural com integrantes da companhia de Ivaldo Bertazzo. As aulas ocorrem duas vezes por dia, às 10h e 12h, às terças, quintas, sábados e domingos.
Nesta terça-feira o vazio também não está tão vazio assim por conta da gravação de um programa de televisão. A Globonews obteve autorização para preencher o vazio com uma instalação própria, que inclui 50 pufes, uma pequena bancada e quatro poltronas, para gravar um programa de cultura, o “Starte”, no local. Para quem passa desavisado, pode parecer uma obra de arte.
Assista à reportagem em vídeo da performance na 28ª Bienal:
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