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Atores são muito inseguros, diz Benicio Del Toro em São Paulo

30/10 - 13:55 - Mauricio Stycer, repórter especial do iG

“A maquiagem já acabou”, informa um assessor. “Já saiu do hotel”, avisa outro, alguns minutos depois. “Já cruzou a (avenida) Paulista”, diz uma terceira assessora, esta mais ofegante. “Já tá no elevador”, informa por rádio o quarto assistente. Tamanho frenesi tem um nome: Benicio Del Toro.

Acordo Ortográfico Estamos no cinema Unibanco Arteplex, em São Paulo, onde 20 fotógrafos, 15 cinegrafistas e cerca de 80 jornalistas aguardam a chegada do ator porto-riquenho, em sua primeira visita ao Brasil, para o início de uma série de entrevistas com o objetivo de promover “Che”, o filme de mais de quatro horas sobre o líder revolucionário cubano.

"Muitas coisas que Che dizia nos
anos 60 continuam atuais" / Agnews

Com suas famosas olheiras e o topete cuidadosamente desarrumado, Benicio Del Toro primeiro suporta dez minutos de fotos, ouvindo, com um sorriso nos lábios, os gritos desesperados de alguns profissionais: “Benicio, olha pra cá!!!!”, “Benicio, olha pra esse lado!!!”.

Leon Cakoff, criador da Mostra de Cinema de São Paulo, que vai exibir “Che” no encerramento de sua 32ª edição, na noite desta quinta-feira, puxa uma salva de palmas para Benicio quando ele entra na sala de cinema, local da entrevista.

A primeira pergunta é em inglês. Vários jornalistas reclamam e a autora da questão diz: “Depois eu traduzo”. Benicio fala sobre o ofício de ator: “Somos inseguros, trabalhamos muito com o instinto, não existe um livro-texto para ser ator. Por isso é muito bom ser reconhecido com um prêmio”, diz a respeito de duas de suas maiores medalhas – o Oscar, em 2001, pelo papel coadjuvante em “Traffic”, e o título de Melhor Ator em Cannes, em 2008, por “Che”, ambos dirigidos por Steven Soderbergh.

Bem-humorado, o ator tripudia do repórter que o questiona sobre qual a principal diferença entre este filme e outros que já trataram da vida de Che Guevara. “Rodrigo Santoro está nesse”. Como se sabe, Santoro interpreta o papel de Raul Castro, irmão de Fidel – uma participação que o brasileiro trata como troféu particular.

“Pedi para participar do filme”, contou Santoro. O primeiro empecilho era o seu desconhecimento de espanhol – o que inviabilizou sua escalação, originalmente. Mas, com o apoio da produtora Laura Bickford, presente na entrevista, e um curso intensivo de espanhol, Santoro conseguiu uma chance. “Cheguei a dizer pro Steven que ele precisava de um brasileiro no elenco porque Che queria fazer uma revolução em toda a América Latina.”

"Pedi para participar do filme", contou Santoro, que driblou a barreira da língua / Agnews

Benicio foi indagado se acha que o discurso revolucionário de Guevara é atual. O ator respondeu: “Hoje há outros meios de fazer as coisas, não há só o fuzil. Tomar as armas está um pouco obsoleto. Mas muitas coisas que Che dizia nos anos 60 continuam atuais, não só na América Latina, mas também na África”.

Um repórter faz uma longa pergunta para a produtora Laura Bickford sobre a situação da Bolívia, no passado e hoje. Ela ainda tentava entender o sentido da questão, quando Benicio a ajuda, de forma bem resumida: “Conta como foi a filmagem na Bolívia”.

O ator revelou, também, como travou contato com Che Guevara. Disse que em Porto Rico, onde nasceu, a revolução cubana não é ensinada nas escolas. Ouviu falar de Che pela primeira vez ao ouvir “Indian Girl”, canção de Mick Jagger e Keith Richards, incluída no álbum “Emotional Rescue”, dos Rolling Stones. A segunda vez, numa livraria no México, onde viu um pôster com uma foto do Che e comprou um livro de cartas escritas por ele. “As cartas me comoveram”, contou Benicio.

A produtora Laura Bickford norte-americana
também participou da coletiva / Agnews

Expressando-se às vezes em inglês, às vezes em espanhol, o ator também tentou falar português. Depois de enrolar muito a língua, conseguiu dizer a palavra “loira” e emendou uma “caipirinha”, mostrando os interesses específicos do seu pequeno vocabulário.
 
Cobrado por um repórter, que queria saber por que “Che” não aborda a aventura de Guevara no Congo e também não trata das divergências dele com Fidel, Benicio foi curto e grosso: “Tempo e dinheiro”. O projeto todo, contaram, levou sete anos – e contou com recursos espanhóis. Não há dinheiro americano no filme.

Sem burlar a lei dos Estados Unidos, que mantém desde a década de 60 um embargo comercial com Cuba, Laura Bickford, Soderbergh e Benicio estiveram várias vezes em Havana, para pesquisas e entrevistas. Há atores cubanos no elenco, que não poderiam participar do filme se fosse uma produção americana. 

Desde às 9h da manhã desta quarta-feira havia fila na porta do Artplex Unibanco, no esforço de comprar ingressos para a exibição, às 19h, de “Che”. Cakoff anunciou ao final da entrevista que haverá uma sessão extra, nesta sexta-feira, no Cinesesc.

Leia mais sobre: Mostra de São Paulo

 





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