24/10 - 11:34 - Mauricio Stycer
Sério candidato a um prêmio do público na 32ª Mostra Internacional de Cinema, “Loki – Arnaldo Baptista”, documentário sobre a trajetória do criador dos Mutantes, terá apenas mais uma exibição no festival, neste domingo, 26 de outubro – possivelmente, a última vez que o filme será visto em São Paulo.
Primeiro longa-metragem produzido pelo Canal Brasil, “Loki” caminha para se tornar um produto de exibição exclusiva na tevê fechada e em DVD. Os custos envolvidos no pagamento de direitos de exibição das quase 50 músicas, além dos respectivos direitos autorais, inviabiliza a sua exibição em cinemas, diz Paulo Henrique Fontenelle, diretor do filme. “Isso é muito mais caro no cinema do que na tevê”, explica.
Outro empecilho diz respeito às dificuldades de distribuição. “É complicado. No máximo, a gente consegue exibir duas cópias nos cinemas, uma no Rio e outra em São Paulo. O filme poderia fazer 100 mil espectadores. Na tevê, você faz isso numa única exibição”, diz Fontenelle.
Relato emocionante e emocionado dos altos e baixos de Arnaldo, “Loki” conquistou o prêmio de público no Festival do Rio, no início de outubro, depois de uma exibição apoteótica, com a presença do músico, no Cine Odeon, encerrada com dez minutos de aplausos.
Em São Paulo, nas duas exibições na Mostra, ambas com o músico na platéia, a reação do público também foi de empolgação – entre urros e lágrimas. “Arnaldo ficou muito emocionado. Ele me disse que conseguimos chegar na alma dele”, conta o diretor.
“Loki” faz um registro cronológico da carreira e da vida de Arnaldo. Dos primeiros passos musicais, numa bandinha de rock, com amigos, logo se evolui para os Mutantes, com a incorporação de duas meninas – uma delas chamada Rita Lee – ao grupo. A apresentação da banda com Gilberto Gil, cantando “Domingo no Parque” no Festival da Record, em 1967, e o namoro de Arnaldo e Rita são dois episódios que vão moldar a carreira e a vida do músico.
Fontenelle recuperou imagens magníficas dos anos 60, que expõem a criatividade, a alegria e a irreverência de Arnaldo e de seus companheiros de Mutantes. Também fez boas entrevistas com os músicos que acompanharam a trajetória de Arnaldo – especialmente seu irmão, Sergio Dias, Liminha e Dinho Leme. Menos impactantes e, com freqüência, apenas repetindo clichês, o filme apresenta também uma série de depoimentos de amigos e críticos.
Corajoso, “Loki” aborda de forma desabrida o período que se segue ao sucesso inicial, no qual o consumo de drogas – especialmente de LSD – escapa, aparentemente, do controle dos Mutantes. A fase lisérgica conclui-se com a saída de Rita Lee da banda e do fim do casamento com Arnaldo. É o início da bad trip do músico, que resultará numa tentativa de suicídio – ou queda acidental – de um hospital, em São Paulo, no início da década de 80.
Com o apoio de sua terceira mulher, Lucia Barbosa, Arnaldo recolhe-se em uma casa em Juiz de Fora, onde vive desde então. Passa a se dedicar à pintura e, com o tempo, recupera boa parte de suas habilidades. Ainda fala com alguma dificuldade, mas integrou-se com total desprendimento ao projeto de reviver os Mutantes, há dois anos – com Zélia Duncan no lugar de Rita Lee. O filme se encerra com a cobertura detalhada, em ritmo jornalístico, da primeira – e emocionante – apresentação dos Mutantes, em Londres, em 2006.
Aos 37 anos, Fontenelle apresenta “Loki” como o seu primeiro longa-metragem. Ligado ao Canal Brasil, o cineasta tem feito vários programas documentais para a emissora e já realizou, por conta própria, um divertido curta-metragem, “Mauro Shampoo – Jogador, Cabeleireiro e Homem” – sobre a vida de um “craque” que passou pelo Íbis, o pior time de futebol do mundo (disponível no Porta Curtas).
Fontenelle reuniu 500 horas de gravação sobre Arnaldo e os Mutantes. Fez o filme ao longo de três anos, “nas brechas”, diz, de seu trabalho no Canal Brasil. A primeira versão do filme tinha três horas. Com muito sofrimento, foi reduzida para duas horas. Uma parte do material não aproveitado será visto no DVD, a ser lançado em 2009. Outra possibilidade, ainda não definida, seria transformar “Loki” numa série para a tevê. Se você planeja ver esta versão de duas horas – na tela grande – apresse-se. É só domingo.
“Loki – Arnaldo Batista” será exibido dia 26, às 17h, no Unibanco Artplex 2.
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