10/10 - 13:54 , atualizada às 19:35 10/10 - Mauricio Stycer, repórter especial do iG
Vendendo otimismo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou, na manhã desta sexta-feira, da sua convicção de que o Brasil terá um Natal “extraordinário”, a despeito da crise financeira que afeta o mundo neste momento.
Lula acha que o Brasil está mais preparado que outros países. “É como se o Brasil tivesse tomado uma vacina contra uma doença. Ela está demorando a chegar e, se chegar, talvez chegue numa proporção muito menor do que nos Estados Unidos, onde é o epicentro da crise, e na Europa, onde estavam todos metidos na especulação financeira com sub-prime.”
| Ricardo Stuckert |
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Lula concede entrevista a portais de internet |
A declaração foi dada no Palácio do Planalto, em Brasília, ao longo da primeira entrevista, em seis anos, que Lula concedeu aos principais portais de Internet do Brasil. Bem-humorado, mas atrasado para um compromisso em São Paulo, o presidente deu a oportunidade a cada um dos seis jornalistas presentes de fazer uma pergunta apenas.
Sobre o seu otimismo, realçou que é uma das funções do seu cargo. “Meu papel é passar serenidade para a sociedade brasileira”, disse, antes de anotar. Mas sempre dizendo “a verdade absoluta para o povo brasileiro.” Nesse momento, o presidente observou: “Eu sou o tipo de ser humano que quando visita alguém no hospital não fico contando para ele quantas pessoas já morreram daquela doença. Eu fico contando pra ele das pessoas que se curaram. Ou fico contando outras coisas para não contar da doença. Porque tem gente que vai no hospital visitar o doente e fiz: ‘Ah, mas ontem morreram três com essa mesma doença’.”
Lula criticou, mais uma vez, a irresponsabilidade de grupos financeiros estrangeiros que especularam com papéis sem lastro, comparou a um “cassino” a atividade dos agentes do mercado e defendeu que organismos internacionais se reúnam para regular o sistema financeiro internacional. O presidente também criticou a mídia, especialmente a televisão, por divulgar de forma alarmante e exagerada a situação.
O presidente também mencionou os milionários bônus recebidos por diretores de bancos. “Outra coisa que temos discutido lá fora é essa figura do bônus. Um número enorme de diretores e gerentes estabelece metas entre eles. E depois, para cumprirem essas metas, fazem qualquer coisa”, criticou. “Ficam trabalhando na chamada economia virtual, que é só papel, papel, papel, e acontece o que aconteceu. É preciso mais responsabilidade”
Ao falar, em resposta a uma pergunta do iG, sobre as restrições impostas pelo TSE ao uso da internet na campanha eleitoral, o presidente fez uma enfática defesa da liberdade de expressão. Disse que é preciso regras para coibir a livre circulação de fotos que mostrem crianças nuas, mas que a discussão política, cultural ou econômica não pode ser limitada, de forma alguma.
Lula revelou, ainda, que usa pouco a internet, mas que pretende tirar o atraso quando deixar a presidência. Recentemente, contou, baixou três músicas na internet – uma, “Viola Enluarada”, para si próprio, uma canção do comediante Ari Toledo ele deu para o governador do Ceará, Cid Gomes, e uma terceira, uma bem-humorada canção sobre os baianos, ele presenteou o governador Jacques Wagner, da Bahia.
Veja abaixo os principais temas abordados por Lula na entrevista:
Natal (Assista ao vídeo)
Continuo otimista que vamos ter um Natal extraordinário. O Brasil participa da economia global, mas a crise não chega do mesmo tamanho em todos os países do mundo. No Brasil, ainda, nenhum grande projeto sofreu qualquer arranhão. A decisão é de manter todas as obras do PAC, de manter todas as obras de infra-estrutura.
| Ricardo Stuckert |
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Presidente falou sobre liberdade de expressão e crise financeira |
Lupa
Estamos acompanhando essa crise com lupa. É uma crise muito maior que todas as outras. Mas o Brasil está mais bem preparado. É como se o Brasil tivesse tomado uma vacina contra uma doença. Ela está demorando a chegar e, se chegar, talvez chegue numa proporção muito menor do que nos Estados Unidos, onde é o epicentro da crise, e na Europa, onde estavam todos metidos na especulação financeira com sub-prime. Não é o caso do Brasil.
O Brasil e a recessão em cadeia
O sistema bancário está sólido. A política fiscal está muito sóbria. As reservas nos dão tranqüilidade. E não há sinal, até agora, que a economia brasileira esteja envolvida no sub-prime. Obviamente, se houver uma recessão profunda nos Estados Unidos, e essa recessão atingir a Europa, que atinge a China, obviamente todos os países irão sofrer. Mas estou convencido que o Brasil sofrerá menos que qualquer país. Por isso, temos que nos preparar para comprar tudo aquilo que a gente sonha comprar no Natal.
O papel da mídia
É preciso ver como essa crise é vendida todo santo dia (na televisão). Quando surgiu a história da gripe aviária, vi na televisão que morreu uma galinha em Marília. E disseram na televisão que era gripe aviária. Diminuiu o consumo de frango no Brasil. E a gripe aviária nem tinha chegado aqui. Pode chegar? Pode. Mas não chegou. A questão da febre amarela, a mesma coisa. Se vendeu como se fosse uma coisa nacional, quando era uma coisa localizada. É preciso que a gente dê à crise a dimensão que ela tem.
Ajuda a empresas (Assista ao vídeo)
Essa crise americana é profundamente forte e o Brasil está profundamente preparado. De US$ 112 bilhões que a Petrobras tem para fazer investimentos, US$ 104 bilhões são de caixa próprio. Além disso, vamos trabalhar para ajudar as empresas brasileiras a terem o empréstimo necessário, que precisarem. Um presidente da República nunca se reuniu tantas vezes com o presidente do Banco Central e o Ministro da Fazenda. Além de me reunir de manhã, de tarde, de noite, converso nos intervalos. Temos que acompanhar com lupa para não sermos pegos de surpresa. O papel do presidente da República é passar para a sociedade a serenidade que a sociedade precisa para continuar acreditando no país.
Crise de 1997 versus crise de 2008
Os Estados Unidos já colocaram US$ 1 trilhão. Nosso amigo Gordon Brown, primeiro-ministro da Inglaterra, ontem anunciou mais US$ 1 trilhão para o sistema financeiro. Já são US$ 2 trilhões. E a crise não está causando no Brasil o impacto que causou uma crise de US$ 40 bilhões ou US$ 70 bilhões, que foi a crise da Rússia, em 1997. Isso porque o Brasil está mais sólido. Deus queira que o Brasil seja um bom país para que as empresas façam investimentos, tenham o lucro necessário para poder ajudar as matrizes a pagar suas dívidas no exterior. E os programas sociais vão continuar.
Otimismo
Tem muita gente que fala que o presidente Lula está muito otimista, não está vendo a crise. Olha: eu sou o tipo de ser humano que quando visita alguém no hospital não fico contando para ele quantas pessoas já morreram daquela doença. Eu fico contando pra ele das pessoas que se curaram. Ou fico contando outras coisas para não contar da doença. Porque tem gente que vai no hospital visitar o doente e fiz: “Ah, mas ontem morreram três com essa mesma doença”. Eu não sou esse tipo de gente. Meu papel é passar serenidade para a sociedade brasileira. A verdade absoluta pro povo brasileiro.
Sem pacote
Na medida em que esta crise chegar ao Brasil e tiver implicação na diminuição dos investimentos, com a mesma serenidade, vou dizer: “Companheiros, amigas e amigos, a situação está se agravando, nós vamos ter que fazer isso e aquilo”. E anunciar as medidas. Tenho evitado trabalhar com pacote. Pacote atrás de pacote, tenho dito ao Guido e ao Meirelles, o Brasil já quebrou a cara muitas vezes. Então, eu prefiro tomar medidas pontuais. Não é porque o médico diz que você tem que tomar 20 injeções que você vai tomar as 20 de uma vez. Toma uma de cada vez. Comigo não tem pacote.
Hora da política
Esse é o momento da política. Na medida em que a economia, sobretudo, a economia virtual, falhou, o que está trazendo prejuízos à economia real, esse é o momento dos dirigentes políticos assumirem a responsabilidade de tomarem as decisões.
Liberdade de expressão na Internet
Se você for candidato e estiver sendo a vítima da internet, você certamente concordaria. Se você for um cidadão brasileiro, ou o presidente da República, que ama a liberdade de expressão e de comunicação, nós achamos que precisamos cuidar da melhor maneira possível para que os meios de comunicação, inclusive a Internet, funcionem da forma mais aberta possível e com a maior responsabilidade possível. Acho que negar a informação, ou proibir as pessoas de fazerem a propaganda que quiserem fazer de seus candidatos é você negar um direito de expressão que é tão legítimo quanto qualquer outra que possa passar na internet.
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Presidente afirmou que brasileiro terá "Natal extraordinário" |
Revolução
Internet é uma revolução, que há 15 anos ninguém imaginava a dimensão que ela fosse ter. Ninguém tinha a noção que um jornal televiso que vai ao ar todo dia já fica velho na hora que vai ao ar porque a gente já sabe da notícia via Internet. Tentar coibir um espaço em que a gente recebe noticia em tempo real... Eu brinco sempre que quando faço um discurso, quando chego na minha mesa, já está tudo lá. Goste ou não goste, está lá o que vocês publicaram. É extraordinário.
Regras
Mas vamos ter cuidado. Vamos estabelecer regras para que você não possa fomentar coisas como pedofilia na internet, ou outras coisas mais graves. Mas do ponto de vista da comunicação, da liberdade de expressão, nós temos que agradecer a existência da internet porque ela deixou tudo o mais antigo e ultrapassado. Essa é uma revolução que eu ainda não sei se os donos dos veículos de comunicação já começaram a estudar carinhosamente o que vai acontecer quando mais brasileiros tiverem computadores e acesso à internet.
Música na rede
Hoje a pessoa tira todas as músicas que ele quiser na Internet. E ficam discutindo pirataria... A pessoa tira dentro de casa quantas quiser e na hora que quiser. Acho isso fantástico do ponto de vista do extravasamento da liberdade do ser humano.
Viva a Internet
Precisamos tomar cuidado para, em nome de estabelecer uma regra que não coloque em risco a sociedade, caso da pedofilia (os provedores, inclusive, tem responsabilidade de não permitir que isso aconteça), em se tratando de debate político, cultural, econômico, viva a Internet.
Ajuda a bancos
Quando os governantes colocam dinheiro num banco, como o Gordon Brown colocou agora, ou o Bush, a idéia é muito menos salvar o banco, mas sim garantir aos donos das contas nos bancos que ele vai ter o seu dinheiro. Se não, o que acontece? A corrida aos bancos quebrará os bancos. Alguns já estão agindo com mais sabedoria. Já vi pessoas mais conservadoras dizendo: “Vamos disponibilizar recursos para os bancos, comprando ações dos bancos”. As pessoas já não querem mais dar, como nós demos no Proer. Esse é um critério importante.
Redesconto
O mundo inteiro faz redesconto. No Brasil isso não era permitido. No momento em que tomaram essa decisão, pode ser, o Banco Central nem tinha condição de fazer redesconto. Mas hoje tem. Nós tomamos como primeira medida diminuir o compulsório para que os bancos grandes pudessem comprar as carteiras dos bancos menores. O Banco do Brasil, por exemplo, comprou três carteiras. Fomos informados depois que havia uma pressão muito forte dos bancos grandes em cima dos pequenos. Não existe solidariedade. Cada um quer meter a mão e ganhar o máximo possível. Não vamos permitir que os bancos pequenos fiquem reféns dos bancos grandes.
Sub-prime
Não há nenhum sinal, até agora, que os bancos brasileiros estavam metidos no sub-prime. Obviamente, se estiverem, vai aparecer. As pessoas podem esconder, mas uma hora aparece. Que nem boletim de criança que tira nota baixa e quer esconder do pai. Não adianta. Uma hora aparece. Nosso problema hoje é de liquidez. E que nós queremos ajudar, sobretudo, os exportadores brasileiros.
Mercosul
Acho que temos que fazer uma reunião do Mercosul. Estou viajando, só volto na próxima quinta-feira. Isso vai ter que ser feito depois da quinta-feira. Se tomar a decisão, pega o telefone e convoca a reunião.
Autonomia do Banco Central
Isso não existe mais. Esses bancos que estão quebrando agora, nos Estados Unidos, vendiam a idéia de que eles eram a sabedoria universal do sistema financeiro mundial e davam palpite. O BC brasileiro tem uma respeitabilidade que poucas vezes teve na história do Brasil. Nunca um ministro da Fazenda do Brasil e um presidente de Banco Central foram tão levados a sério como são hoje Meirelles e Guido Mantega. Esse assunto não se discute mais, não está na pauta de ninguém.
Recado no exterior (Assista ao vídeo)
Temos discutido a necessidade dos Bancos Centrais se organizarem e estabelecerem um novo padrão de funcionamento do sistema financeiro mundial, sobretudo quando se trata de alavancagem. Você não pode permitir que alguém possa financiar aquilo que não tem. Ou, se está financiando, que tenha suporte para pagar em momento de crise. No Brasil, a alavancagem chega a nove, dez vezes. Nos Estados Unidos chegou a 35 vezes! Os bancos centrais, o FMI, o Banco Mundial, todos, precisam começar a bater bumbo nessa direção, para que a gente normatize internacionalmente e que um banco só possa fazer alavancagem sete ou oito vezes.
Bônus de executivos
Outra coisa que temos discutido lá fora é essa figura do bônus. Um número enorme de diretores e gerentes estabelece metas entre eles. E depois, para cumprirem essas metas, fazem qualquer coisa. Ficam trabalhando na chamada economia virtual, que é só papel, papel, papel, e acontece o que aconteceu. É preciso mais responsabilidade. Quando fui ao G-8 levantei a questão do preço do petróleo. Por que está a US$ 150 o barril? O que me diziam? Por causa do consumo da China. Até que o Senado americano pediu uma investigação. Porque a mesma quantidade de petróleo que a China consome já estava sendo especulada no mercado futuro de petróleo. Agora, a China continua consumindo a mesma quantidade de petróleo e o barril caiu para US$ 85. Qual a explicação senão a especulação?
Cassino financeiro
Agora não é uma crise dos pobres. O calo é no pé dos ricos. Eles que se apresentaram para nós como infalíveis, que sabiam tudo... Quando você permite que a economia real seja ultrapassada pelo cassino financeiro, todo mundo corre risco. É um bom momento, penso, para o mundo se ajustar. Para que a gente faça regras claras, que valem para o Brasil, o Paraguai, o Uruguai, mas também para os Estados Unidos, para a França, e para a Índia.
Hábitos na internet
Acesso muito mais através da Clara Ant. Quando eu deixar a presidência da República, vou acessar tudo que não tive direito agora. Esses dias eu queria achar três músicas na Internet. Uma, do Paulo e Sergio Valle, “Viola Enluarada”, para mim. Outra, do Ary Toledo, “Pau de Arara”, que fala do comedor de gilete, o Cid Gomes me ouviu cantando e eu quis dar pra ele. E uma outra, que homenageia a Bahia, eu queria dar pro Jacques Wagner, que fala assim: “Eu sou da Bahia, comigo não tem horário, eu não sou otário, ninguém pode mudar. Sou cabra-macho, sou baiano toda hora...” Eu queria dar pra ele... E baixei na internet.
Música
Não sei como o dono das produtoras de CD e DVD vão sobreviver nesse mundo libertário da internet. Em algum momento alguém vai começar a chiar.
Jornal
E tem outra coisa: você ler notícia sem precisar sujar a mão. É uma coisa nobre. Nós estamos fazendo o maior programa de inclusão digital que esse país já teve.
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