06/10 - 17:42 - Mauricio Stycer, repórter especial do iG
O pregão viva voz foi encerrado em setembro de 2005, mas até hoje algumas dezenas de investidores se dirigem diariamente à Bovespa para acompanhar o movimento e fazer negócios. Eles ficam no mezanino do prédio da Bolsa, num espaço conhecido como “aquário”, cercado de monitores, que exibem as cotações, e telefones para conexão direta com as corretoras.
Nesta segunda-feira, enquanto a Bolsa despencava, o clima no aquário era de desolação, com alguns momentos de desespero – e também de gozação com a tragédia alheia.
São 13h30, e o índice Bovespa registra queda de 11,50%. Um investidor, com os olhos fixos no monitor, pergunta em voz alta, derrotado:
- Fazer o quê?
Ao que um colega, no esforço de animá-lo, avisa:
- Em Nova York estava subindo.
Mas é um apoio que não dura muito, pois logo um terceiro investidor avisa:
- Está caindo também em Nova York. E quando cai lá, desaba aqui.
Um investidor concorda em conversar com o repórter, desde que não seja identificado. “Hoje, minha carteira está derretendo, mas recupera”, diz, esperançoso. “Sou um investidor de longo prazo. Minha carteira é voltada para dividendos. Estou tranqüilo”, diz.

No aquário, tom dos investidores é de piada e desespero / Foto: Mauricio Stycer
No meio da confusão, um amigo chama o outro para ler algo na tela do computador. Acredite se quiser, é uma daquelas piadas que circulam pela Internet. Conta a história de um “turco” que entrou no Banco do Brasil para pedir um empréstimo de R$ 1. O gerente do banco, depois de relutar, concede o empréstimo, mas pede uma garantia. O “turco” dá o seu Mercedes de garantia. Ao chegar em casa, informa: “Já podemos viajar para o exterior. Arrumei uma garagem para deixar o Mercedes por 30 dias, por 12 centavos”.
Em alguns momentos, é difícil saber se o tom é de galhofa ou de desespero. Como no diálogo a seguir:
- Que dia é hoje?
- Dia 6
- Quanto falta para acabar o mês?
- 25 dias.
- Puta que pariu!!! Tá longe!
Getúlio Machado, ex-operador de pregão, conta que trabalha desde os 13 anos. Começou como office-boy e foi crescendo. “Tudo que eu tenho foi daqui que eu tirei”, diz. Está há 43 anos nesse mundo da especulação. “Já perdi muito, mas também ganhei”. Na sua avaliação, esta é a maior crise já vivida pelo mercado de capitais no Brasil. “Nunca vi isso, mas o mundo não vai acabar”, diz, tentando demonstrar (ou se convencer) que há esperança.
As cotações seguem desabando, e as perdas do dia chegam a 11,88%, quando um grupo de estudantes começa uma visita à Bovespa e recebe informações sobre a maior bolsa da América Latina. A cena ocorre no local onde era o pregão, no térreo. Três funcionários simulam uma operação de compra e venda de ações para os jovens. Enquanto isso, no aquário do mezanino, um investidor tenta convencer outro da oportunidade de comprar determinada ação.
- É uma ótima oportunidade...
- É, e de vender daqui a 200 anos.
Um dos veteranos no aquário é Alcides Fernandes. Tem 75 anos. “Estou aqui desde 1955”, avisa. “Amanhã tem chance de cair mais um pouco. Minha mulher falou: ‘Não fica nervoso”. Não estou. Mas essa é a pior crise que já vivi”, diz. Na visão de Fernandes, o mercado pode até se acalmar, mas a recuperação das perdas dos últimos dias vai levar anos. “Essa crise não tem horizonte”, diz, antes de soltar um palavrão.
O mais agitado no local é Carlos Saad. “Aqui, se você vai no banheiro, quando volta tá ferrado”, diz, olhando sem parar para as cotações que piscam no monitor do aquário. “Não estou nervoso, não”, ele diz. “É agitação mesmo.”
Agitado, mas não nervoso, Saad corre de um monitor para outro para ver a cotação da Bolsa de Nova York. Liga para seu corretor e ordena, entre palavrões, a venda de determinada ação. “Você está vendendo esta bosta?”, pergunta, pelo telefone.
Saad está na bolsa há 20 anos. Já foi operador, hoje investe por conta própria. Ele se auto-define como “especulador”: “Vou atrás do dinheiro. Se é para comprar, compro. Se é para vender, vendo”...
Nesta segunda-feira, Saad só vendeu. “Essa crise é um negócio sério. Você não sabe a profundidade dela”, diz, antes de suspirar: “Acabou a festa”. Será?

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