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Um domingo no extremo leste de São Paulo

05/10 - 19:15 , atualizada às 19:51 05/10 - Mauricio Stycer, repórter especial do iG

Festa da democracia? Não no extremo leste de São Paulo. Em lugares como Itaim Paulista, Lageado, Guaianases e Cidade Tiradentes, dia de eleição é uma boa oportunidade de faturar um troco em pleno domingo. Ou, na falta de opções de lazer, de tomar uma cerveja – ou algo mais forte – no boteco da esquina.

Com a missão de percorrer uma das regiões mais pobres da cidade, o repórter do iG parte do Jardim Paulista às 9hs da manhã. A primeira parada é em Ermelino Matarazzo, próximo à igreja de São Francisco, comandada por Antônio Marchioni, mais conhecido como padre Ticão. Ali, no início da campanha eleitoral, Marta Suplicy, Gilberto Kassab e Geraldo Alckmin estiveram no mesmo dia na igreja, em busca de apoio.

Cesar Conti

Mulher faz propaganda eleitoral em laje, na Cidade Tiradentes
A cem metros da igreja, na porta de um colégio estadual, cabos eleitorais dos mais variados candidatos distribuem santinhos – o que é proibido por lei. Um carro com propaganda de um candidato a vereador do PT entra no colégio, outra irregularidade, para deixar uma eleitora. Wilson Lopes, fiscal do DEM, se assusta e sai correndo atrás do infrator. Volta, dois minutos depois, desanimado. “A mulher está de cadeira de rodas. O que eu posso fazer?” – ele pergunta ao repórter.

Rita Frausino assiste a cena com um sorriso nos lábios. Ela vende churrasquinho a R$ 1,50 na porta da escola. “A pensão que eu recebo é pequenininha”, justifica. Quantos anos a senhora tem? “Vou fazer, não vai ficar assustado, 80 anos no final de dezembro”, ela conta. “Eu votaria na Marta, mas não preciso mais votar... E, para falar a verdade, pobre votar não adianta nada”.

Ao seu lado, quatro moças conversam sobre o assalto que uma delas sofreu, dias atrás. “O rapaz perguntou que horas eram. Quando eu fui olhar o relógio, ele arrancou do meu braço”, conta uma delas, sem dizer o nome. Em quem as moças votam? “Em branco”, responde Ivanice de Jesus Oliveira. Em branco? “É... Somos Testemunhas de Jeová, não podemos votar em ninguém”.

De repente, 10h30, cai uma chuva forte. O boteco na esquina é o refúgio ideal. Várias turmas bebem cerveja animadamente. “Ainda bem que acabou a lei seca”, comemora Eduardo Alexandre de Oliveira, eleitor de Marta. “Aqui todo mundo é Marta”, acrescenta. “Ah, não é”, replica o amigo Paulo Henrique da Silva. Você vota em quem? Um outro amigo sopra: “Maluf”. E ele: “Ainda não decidi. Vou tomar essa cerveja primeiro, depois eu decido”.

Pegamos a avenida Marechal Tito e seguimos em direção ao Itaim Paulista – um dos pontos mais ao leste da cidade. Em frente ao colégio Vida Ativa, na Avenida Tibúrcio de Sousa, três meninas distribuem santinhos de um candidato a vereador do PPS. “Ele vai tirar a polícia da rua”, diz uma, fazendo piada, enquanto entrega um santinho. As jovens ganharão R$ 20 cada pela jornada de trabalho. “Coloca aí que é o maior pouco”, pede uma. “A Marta ta pagando R$ 30. Vou votar nela”.  Por razões óbvias, elas pedem para que os seus nomes – e muito menos imagens suas – sejam divulgados.

Em frente à escola, o local mais animado da avenida é o boteco Casa Paulista, de Nelson Sordi. O bar só vende cachaça Velho Barreiro, conhaque Dreher e vermute Contini. “Tudo aqui é 50 centavos. Quem tem 25, bebe. E quem não tem nada, bebe fiado”, explica o dono. “O que o senhor bebe?”, ele pergunta ao repórter.

Aos 74 anos, Sordi comemora 44 de botequim, no mesmo local. Já viu de tudo. “Esse ano, a eleição está muito boa. Marta é boa. Maluf é bom. Kassab é bom. Alckmin é bom. E Serra é bom”, explica, sem esclarecer se colocou Serra na lista por engano ou gaiatice.

São 11h30 da manhã e o bar está lotado. É o horário de pico, explica o proprietário. “Abro às 7h e fecho às 16hs. E se quiser falar de futebol, vá lá fora. Aqui dentro não pode”. Sordi não vai se dar ao trabalho de atravessar a rua e votar. “Parei de votar. Já ajudei demais, um monte de gente, e nunca ganhei nem uma camisa”. E ri da frase que acabou de dizer.

Sordi orgulha-se de nunca ter sido assaltado. “Amizade traz amizade”, ensina. E adora o bairro: “Está tudo sobrando aqui. Escola, está sobrando. Creche, está sobrando. Posto de saúde, está sobrando. O povo reclama de barriga cheia”, avalia. “Não quer mesmo um aperitivo”, insiste, educado, com o repórter.

Nas proximidades da avenida principal do Itaim Paulista vemos diferentes projetos habitacionais coletivos, cada um de uma cor e formato diferentes – obras de variados governantes, municipais e estaduais. Muitos jovens na rua, na porta dos prédios. Outros, distribuem santinhos de candidatos. Um carro estacionado deixa o alto-falante do som a todo volume. A rua toda ouve um funk de mau gosto e, o que também é proibido, propaganda eleitoral de um candidato a vereador. 

A caminho de Lageado, um congestionamento gigantesco pára a avenida D. João Nery. Os cabos eleitorais aproveitam para panfletar junto a motoristas e passageiros. Wilson Machado se aproxima, entrega um santinho de um candidato a vereador do PV e anuncia. “Esse aqui vai liberar a maconha. Já tem até a área aqui do lado”, diz, apontando para um dos muitos terrenos baldios na região. E, exibindo só um dente, dá uma gargalhada gostosa. Machado vai ganhar R$ 20 pela jornada de trabalho, das 8h às 17h. “Mais um lanche”, acrescenta. “Vale a pena”.

Cesar Conti

O cabo eleitoral Wilson Machado vai ganhar R$ 20 pelo trabalho das 8h às 17h

Passamos pela Estrada do Lageado Velho, cruzamos Guaianases, e entramos na Estrada do Iguatemi, que leva a São Mateus. Não deixa de ser engraçado pensar nesses nomes – Itaim, Iguatemi – e na paisagem inóspita ao redor.

A eleição é responsável apenas em parte pelo congestionamento – em

Cesar Conti

Em dia de eleição, a feira-livre aumenta o trânsito

 

todos esses bairros, domingo é dia de feira livre, o que aumenta o caos.

Em Cidade Tiradentes, última parada do tour pelo extremo leste, encontramos uma presença mais forte do PT. Bandeiras são exibidas em cima de lajes de prédios, os santinhos são, em sua maioria, de candidatos que apóiam Marta. “Aqui só dá PT. Marta, Marta, Marta”, diz Tiago Ribeiro, desanimado cabo eleitoral de Primo Preto, candidato a vereador pelo PSDB.

Um dos políticos que manda no bairro é Claudete, candidata a reeleição. Estamos na avenida dos Metalúrgicos, quando um cabo eleitoral da vereadora do PT se assusta com a passagem da própria Claudete, de carro, pelo local, para conferir o trabalho dos seus assistentes. “Ela me pegou sentada. Pegou mal”, lamenta a moça, em frente à escola Oswaldo Aranha. “Estou ganhando R$ 450 por mês, para ajudar na campanha”, ela explica, desolada com o flagrante que levou.

Partimos, então, de volta para o Jardim Paulista. Passamos por São Mateus, entramos em outro município, Santo André, e saímos em frente do Museu da Independência, às margens do Ipiranga. De lá, rapidamente, chegamos à avenida Paulista, onde encontramos congestionamento semelhante ao visto na zona leste. As calçadas estão tão imundas de santinhos quanto as de Cidade Tiradentes. Sete horas e 119 quilômetros depois de iniciado, nosso passeio chega ao fim.   





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