Autor de um livro que colegas de ofício do naipe de Antônio Callado e João Antonio consideram um marco da literatura brasileira, Antônio Fraga (1916-1993) é um enigma que há mais de 20 anos aflige a professora de literatura Maria Célia Barbosa Reis da Silva.
Romancista, poeta, tradutor, pintor, Fraga publicou em vida apenas dois livros – um deles, “Desabrigo”, tornou-se uma referência literária, pela sua originalidade e força. Amigo de meio mundo, Fraga era uma figura famosa no Rio das décadas de 40 e 50, mas a certa altura optou por isolar-se em Queimados, na Baixada Fluminense, onde viveu em dificuldades, e esquecido, até a morte.
“Antonio Fraga, personagem de si mesmo” (editora Garamond, 240 págs., R$ 30), que acaba de ser lançado, é o mais recente esforço de Maria Célia no sentido de compreender Fraga e sua obra. Antes desse livro, ela dedicou ao escritor sua dissertação de mestrado e também a tese de doutorado. Não bastasse, no final de outubro, verá a publicação de um volume com seis novelas inéditas, que ela localizou, mais a reedição da obra-prima de Fraga, “Desabrigo”, num único volume da coleção Sabor Literário, da editora Jose Olympio. “Desabrigo” é um pequeno texto, publicado pela primeira vez em 1945, no qual Fraga narra as aventuras do malandro Cobrinha num estilo absolutamente surpreendente para a época, repleto de gírias, pontuação irregular e ritmo cinematográfico. A edição de “Desabrigo” se faz acompanhar de um glossário, sem o qual o leitor pode se perder na leitura da história. Por exemplo: Cobrinha andava teso pra xuxú Embora fosse safo tava dando uma azia danada Bem que ele podia afanar um Estácio ou topar o basquete mas não era guindaste para enfrentar batente e não queria se encalacrar com dona justa No lugar de “Estácio”, hoje se diria “um mané” e, em vez de “topar um basquete”, alguém escreveria “aceitar um trampo”. Ao publicar o livro, em 1945, Fraga era uma figura conhecida no meio intelectual carioca. Era amigo do escritor Antonio Olinto, que editou “Desabrigo” e dividia mesas de bar, na Cinelândia, com os grandes escritores e artistas plásticos. | - Reprodução |
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| Fraga era romancista, poeta, tradutor e pintor |
Fraga não tinha profissão. Casado com a atriz Tereza Rivera, vivia de bicos e biscates. Conseguiu alguns trabalhos na imprensa, mas em momentos mais difíceis foi até lanterninha de cinema. Em meados da década de 60, desiludido com a falta de opções e sem conseguir publicar as inúmeras obras que escreveu, Fraga se mudou para Queimados, na Baixada Fluminense, a 50 quilômetros do Rio. Isolado, sem ter o que fazer, caiu no esquecimento. Maria Célia, que o encontrou pela primeira vez em 1985, descreve Fraga como um intelectual de muitos recursos, mas sem traquejo social. Já em sua dissertação de mestrado, a professora percebe que, além de dominar a voz da marginalidade, em “Desabrigo”, Fraga dialoga com Pirandello, Nietzche e Anatole France, entre outras referências cultas. “Ele combina a voz da rua com a voz da academia”, observa. Bom de conversa, mas um pouco mitômano, Fraga relatou histórias incríveis sobre a sua vida para Maria Célia. Viveu entre prostitutas no Mangue, no Rio, participou da Revolução Constitucionalista de 1932, como soldado, fez amizades com meio mundo, de Vinicius à Drummond, passando por Pancetti, Djanira e Mario Pedrosa. “Fraga começa a compor sua mais importante personagem: ele mesmo”, escreve Maria Célia. Em 1978, a repórter Maria Amélia Mello encontra Fraga em sua casa, em Queimados. O relato sai na revista “IstoÉ”, com o título “Um autor maldito. Ou o Joyce do Mangue?”. Neste ano, estréia a “Ópera do Malandro”, de Chico Buarque, e amigos comuns tentam aproximar o autor de “Desabrigo” do célebre compositor. O encontro não dá certo e Fraga retorna ao ostracismo. Em 1985, eu ouço falar de Fraga (veja mais no meu blog) e proponho uma reportagem ao “Jornal do Brasil” sobre o escritor. Encontro Fraga em Queimados, com problemas financeiros e de saúde. A reportagem tem grande repercussão, registra Maria Célia em seu livro, Fraga arruma o primeiro emprego com carteira assinada em sua vida, e vê o lançamento da terceira edição de “Desabrigo” (hoje esgotada”). | - Reprodução |
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| Maria Célia descobriu material inédito de Fraga |
Mas essa é outra onda passageira e, logo, esquece-se de Fraga. Em 1993, aos 77 anos, o escritor morre, do coração, ao lado da mulher. Maria Célia prossegue em sua pesquisa e descobre quilos de material inédito do escritor – o seu acervo foi doado para a Casa de Rui Barbosa, no Rio. Além do volume com seis novelas, a ser publicado agora em outubro, Maria Célia tem pronto um livro com 100 poemas, também inéditos, ilustrados com desenhos do próprio Fraga, à espera de um editor. Quando o entrevistei, em 1985, à porta da casa, ao se despedir, ele me disse: “Se a humanidade não toma conhecimento de uma obra, pior para a humanidade.”. Foi, certamente, mais uma frase de efeito do que desejo real. Fraga sonhava ser lido e publicado, acredita Maria Célia. É essa figura ambígua que a professora tenta mais uma vez resgatar.