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A vida real no Jardim das Rosas

18/09 - 17:34 , atualizada às 16:07 19/09 - Mauricio Stycer, repórter especial do iG

Que o internauta não se perca pelo nome. Jardim das Rosas, na região do Capão Redondo, é um dos bairros mais pobres da zona sul de São Paulo. Distante 25 km do centro da cidade, tem duas escolas, mas nenhum posto de saúde. É um desses lugares em que a vida real se encontra e, em alguns casos, colide com os dados coletados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgados na manhã desta quinta-feira, 18.

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O dentista Gledson Marcos Fioravante, 35 anos, por exemplo, teve sensibilidade para perceber que o seu negócio, para sobreviver, teria que se adaptar no Jardim das Rosas. Há dois meses, tornou-se sócio de um consultório que dá para a rua principal do bairro, como uma loja, e logo percebeu: “Aqui, todo mundo tem cartão de crédito”. Não pensou duas vezes antes de introduzir uma nova modalidade de pagamento: “em seis vezes, sem juros, no cartão”. O movimento cresceu. O consultório hoje movimenta, segundo Fioravante, entre R$ 15 mil e R$ 20 mil por mês.


O dentista Gledson Marcos Fioravante / Fotos: Mauricio Stycer

“A realidade é muito melhor do que eu vejo”, explica o dentista. “As pessoas são muito simples, mas têm recursos”. Em associação com outro dentista, o seu consultório oferece também tratamentos mais complexos para correção dos dentes, a chamada ortodontia. “Tenho 30 pacientes, quase todos jovens”, diz. O aparelho é fornecido de graça, enquanto o paciente paga R$ 60, a cada 20 dias, pela manutenção. O tratamento dura, em média, dois anos e meio.

André Santos, de 31 anos, faz parte do público-alvo do dentista. Ele mora a cerca de 500 metros da rua João da Cruz e Sousa, a principal, e trabalha como porteiro, nos Jardins, área nobre da cidade. Gasta uma hora e meia, em dois ônibus (“se o trânsito está bom”, diz) para se deslocar de casa para o trabalho e vice-versa.

Mauricio Stycer/iG
O porteiro André Santos
O porteiro André Santos
André mora com os pais, Amarílio e Jesuíta, e mais três irmãos numa casa de seis cômodos, construída por um deles, que é pedreiro. A família tem computador, um aparelho de televisão de 29 polegadas, serviço de tevê a cabo, forno microondas, telefone e máquina de lavar. Esta última, lamenta Jesuíta, “está no fim, muito velha”.

Amarílio e Jesuíta vieram de Alagoas, em 1955. Ele tem 83 anos, ela, 72. Tiveram dez filhos (“mais três, que morreram”, diz ele). Para o casal, a percepção sobre o momento não é das melhores. “A vida não melhorou muita coisa, mas não piorou”, diz ela. “Ninguém passa fome. Come-se carne, bebe-se leite”. Amarílio nunca estudou e foi servente de pedreiro. Ganha cerca de R$ 500 de aposentadoria. A mulher, que estudou um pouco, nunca trabalhou. “Para comprar uma roupa, um sapato, não dá”, diz ela.


Jesuíta e Amarílio, pais de André

O posto de saúde mais perto fica no bairro vizinho, o Jardim Macedônia. “Muitas vezes não tem médico lá”, reclama Jesuíta. “Aí a gente bota o pé na estrada e vai no Jardim Vazame (na cidade vizinha de Embu das Artes)”, conta Amarílio.

Já o filho André vê a situação com mais otimismo. Estudou até o terceiro colegial e faz planos de, em 2009, começar a estudar inglês e espanhol para deixar de ser porteiro e tentar trabalhar com turismo. Graças ao seu trabalho, nos últimos quatro anos, sente que progrediu. “Não tinha cartão de crédito, hoje tenho”. Também comprou uma televisão para a casa e um aparelho de telefone celular.


Ivone Bellascusa e seu armarinho


O crédito mais fácil se reflete nas ruas do Jardim das Rosas. No armarinho na rua principal, Ivone Bellascusa e seu marido não usam cadernetas para anotar as compras feitas na base do fiado. Por um lado, tem uma clientela de “pessoas muito humildes, mas que pagam”, conta Ivone. Por outro lado, ela se ressente de que o bairro é muito pobre e tem muita gente desempregada. “Para esses, não podemos aceitar fiado. Fica difícil receber...”

Cada um vira-se como pode no Jardim das Rosas. Ricardo Pereira Lanna tinha uma locadora de DVDs no bairro. O negócio ia bem (R$ 4 a locação) até que a pirataria começou a se espalhar (“Tem gente que vende quatro fitas por R$ 10”, protesta). Decidiu, então, diversificar. “A modernidade veio para bagunçar”, lamenta, referindo-se à pirataria.

Mauricio Stycer/iG
Ricardo Lanna em sua locadora
Ricardo Lanna em sua locadora

Com conhecimentos de relojoaria, passou também a consertar relógios. Não satisfeito, num canto da loja instalou uma bomboniere, que vende doces.  E, por fim, criou um quarto ambiente, dentro do mesmo espaço, que sublocou para um técnico em informática, que conserta computadores e instala internet sem fio (R$ 35 por mês) em casas do bairro. “Minha vida é trabalhar”, diz Lanna.

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