09/09 - 15:56 , atualizada às 19:39 08/04 - Mauricio Stycer, repórter especial do iG
Num ano que tem sido marcado por baixas bilheterias do cinema brasileiro, “Linha de Passe”, o esperado filme de Walter Salles e Daniela Thomas, teve um desempenho apenas razoável em seu fim-de-semana de estreia, mas espera crescer na base do boca-a-boca nas próximas semanas. O filme estreou com 56 cópias nas principais capitais do País. Entre sexta-feira e domingo, obteve uma média de 600 espectadores por cópia – o que é considerado bom pela equipe de produção – e levou mais de 33 mil espectadores aos cinemas.
Em algumas salas do Rio e de São Paulo, “Linha de Passe” obteve ótima lotação, mas não foi tão bem em cinemas de shopping e em outros centros urbanos. A expectativa em relação à estreia talvez tenha sido superdimensionada em alguns locais, como Recife, por exemplo, onde o filme estreou com quatro cópias.
“Linha de Passe” foi o oitavo filme mais assistido no País neste final de semana, atrás de seis títulos estrangeiros (“Hellboy 2”, “O Procurado”, a animação “Caçadores de Dragões”, “Zohan”, “A Múmia”, “O Reino Proibido”) e um brasileiro, “Bezerra de Menezes”, documentário sobre um divulgador do espiritismo no Brasil, no século 19. Em termos relativos, o resultado é melhor: o filme obteve a terceira melhor média por cópia do fim de semana.
Um parêntesis: ainda que a estreia de “Linha de Passe” possa ter deixado a desejar, o fim-de-semana de Walter Salles foi vitorioso em outra área (leia aqui).
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| Walter Salles no set, em |
Salles defende, na entrevista, uma revisão do sistema de financiamento de filmes no Brasil. Cita como exemplo positivo a legislação francesa a respeito e ataca: “A ideia de que o cinema brasileiro seja em grande parte definido por diretores de marketing de empresas não me parece desejável.”
Último Segundo: Cito uma frase sua: “Se ‘Terra Estrangeira’ falava de uma pátria fraturada, ‘Linha de Passe’ fala de uma frátria desejada”. Você poderia elaborar esse ponto?
Walter Salles: “Central do Brasil” era um pouco o contracampo de “Terra Estrangeira”. A busca pelo pai de Josué era também a busca por uma pátria possível, depois de 25 anos de ditadura militar e vários anos de desgoverno Collor. Essa conjugação pai/ pátria não era por acaso. Hoje, estamos confrontados a nós mesmos. A frátria a qual “Linha de Passe” se refere diz respeito à relação entre os irmãos da família que está no coração do filme, e também a transcende. Essa frátria é um país desejado, mais solidário do que este que foi construído ao longo dos últimos 500 anos. É por isso que, mesmo nos momentos mais difíceis, há um afeto entre irmãos, entre iguais, que se manifesta silenciosamente...
Pensando em temáticas gerais, panos de fundo desses dois filmes... Você concorda que “Terra Estrangeira” trata da ressaca da era Collor? E seria correto dizer que “Linha de Passe” pode ser visto como retrato de uma frustração com a era Lula?
“Terra” é claramente sobre os anos Collor, mas “Linha” não é um balanço deste ou de outro governo. Primeiro, porque o projeto de “Linha de Passe” começa há muito tempo e vai se transformando ao longo de seis, sete anos, graças ao trabalho de roteirização de Daniela Thomas, George Moura e, na fase final, de Bráulio Mantovani. O filme é feito de esperança e desesperança, mas não quero ter uma visão pessimista em relação ao futuro. Acho que estamos vivendo um momento importante da nossa história, em que 30 milhões de brasileiros ingressam na classe média e expandem, finalmente, o mercado interno brasileiro. Por outro lado, é difícil esconder a frustração com os problemas crônicos do Oaís. Isso talvez se amplie pelo fato de que moro no Rio de Janeiro. Há dez anos, meu irmão João e Kátia Lund fizeram um documentário, “Notícias de uma Guerra Particular”, que tratava da aceleração da violência urbana na cidade. Hoje, a situação está muito pior e não há um poder, seja ele municipal, estadual ou federal, que esteja fazendo algo para mudar os problemas estruturais evidentes que temos.
Nos últimos anos, o “cinema paulista”, se é que isso existe e podemos chamá-lo assim, apresentou algumas versões da periferia de São Paulo. Cito três filmes, mas não os únicos: “Através da Janela” (1999), da Tata Amaral, “Contra Todos” (2004), de Roberto Moreira, e “Falsa Loura” (2007), de Carlos Reichembach. “Linha de Passe” dialoga, de alguma forma, com essa cinematografia?
Em primeiro lugar, é importante entender que a periferia não é uma, e sim várias. Foi o que mais chamou a nossa atenção quando estávamos fazendo as locações em São Paulo: cada parte da cidade tinha uma identidade própria, tanto do ponto de vista da geografia física quanto humana. Por isso, há pontos em comum entre estes filmes que você citou e o excelente “O Invasor”, de Beto Brant. Cada um deles tem a sua originalidade, cada um deles é único e singular. Aproveito para dizer que, nos últimos tempos, há uma espécie de discurso oficial que procura desmerecer essas periferias como centros geradores de cultura, como se tudo aquilo que não viesse do centro não tivesse a capacidade de falar de nós todos. Daniela Thomas responde bem essa questão quando diz que quase todas as expressões artísticas que redefiniram a nossa maneira de ver o mundo vem justamente da margem e não do centro. É o caso do samba, do blues, do jazz, da cultura beat, do hip-hop, etc... No caso de “Linha de Passe”, o que nos interessou foi aquilo que um jornal descreveu como “os incansáveis sonhadores”, esses jovens que não aceitam aquilo que o destino parece lhes reservar e decidem reescrever as suas vidas. É um tema, aliás, que não diz respeito apenas às periferias.
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| Sandra Corveloni no papel que lhe rendeu o prêmio de atriz em Cannes / Divulgação |
O caráter documental de “Linha de Passe” é reforçado pela atuação de atores iniciantes ou pouco experientes? É mais difícil dirigir atores iniciantes?
Você poderia falar um pouco sobre a atuação da Sandra? Como foi dirigi-la? O fato de ela nunca ter feito um filme, de alguma forma, pode ter resultado numa atuação mais impactante?
Quando alguém descobre uma nova forma de expressão, há sempre o frescor de algo que está sendo registrado pela primeira vez. Essa descoberta é um privilégio para os diretores. Foi o que aconteceu com Sandra – e, sobretudo, graças a ela. Sandra escuta, acredita, mergulha sem para-quedas. Eu sempre achei que os melhores atores são aqueles que não têm medo de ficar na beira do penhasco. Sandra é dessa família...
“Linha de passe” foi produzido sem utilização de leis de incentivo fiscal. Por quê? O que você acha do sistema de financiamento cinematográfico por meio dessas leis?
Em primeiro lugar, não existem cinematografias nacionais, fortes e representativas, sem apoio do Estado. Da França à Argentina, o melhor cinema que se faz hoje resulta dessa relação de proximidade entre cinema e Estado. No caso de “Linha de Passe”, foi possível fazer o filme sem incentivo fiscal por causa dos resultados dos meus dois filmes anteriores que, somados, chegaram perto de 20 milhões de espectadores. Isso fez com que pudéssemos pré-vender “Linha de Passe” para distribuidores europeus independentes, e fazer o filme de uma forma totalmente livre, sem nenhuma obrigação. Respondendo agora a segunda parte da pergunta, penso que é necessário rever o sistema de financiamento existente hoje no Brasil, e penso que o pessoal da Ancine é sensível a essa necessidade. Acho que o sistema que existe na França, coordenado pelo Centro Nacional de Cinematografia, é o ideal. O CNC traça a política cinematográfica não só no papel, mas através do financiamento de roteiros, de primeiros filmes, do adiantamento sobre receitas, de prêmios de resultados. A ideia de que o cinema brasileiro seja em grande parte definido por diretores de marketing de empresas não me parece desejável.
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