04/09 - 04:21 - Mauricio Stycer, especial para o Último Segundo
A primeira coisa que espanta em Sandra Corveloni é que ela parece uma pessoa normal. Como é possível? Por seu papel em “Linha de Passe”, que estréia nesta sexta-feira, Sandra ganhou, três meses atrás, o prêmio de melhor atriz do Festival de Cinema de Cannes. Trata-se, simplesmente, de uma das maiores honras que um ator pode se permitir sonhar em delírios de megalomania. A segunda coisa que espanta é que, à medida que a conversa avança, a impressão inicial que Sandra causa não se altera.
| Paula Prandini |
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| No filme, Sandra interpreta Cleuza |
Antes de ser atriz, a protagonista de “Linha de Passe” era técnica têxtil, formada pelo Senai. Misturava cores em laboratórios. “Eu era muito boa nisso”, diz, sem falsa modéstia. Sandra fala de sua formação inicial depois de contar que, em mais de uma ocasião, nos últimos anos, cogitou desistir da carreira de atriz e voltar à primeira profissão. “Já fiz peça com mais gente no palco do que na platéia”, descreve, não sem rir. Acabou não abandonando o barco porque descobriu, dentro do meio artístico, uma forma de equilibrar as finanças e compensar a instabilidade da vida de atriz de teatro. “Dou aulas para pagar as contas”, diz. Mas não é só isso. Ensinando a arte de atuar, descobriu um prazer novo: “Tenho um dom para dar aula”.
A vencedora da Palma de Ouro em Cannes nunca trabalhou em televisão e, no cinema, até “Linha de Passe”, só havia feito uns poucos curta-metragens, como “Amor” (1993), de José Roberto Torero. “Sou muito desconfiada, pé no chão”, conta a taurina. “Se não acho legal, nem vou ao teste”. É uma postura que a afasta de algumas possibilidades: “Para trabalhar em tevê você tem que furar bloqueios, conhecer certas pessoas, fazer uma social... Não tenho talento para isso”.
Muitos atores talentosos, mas não famosos, por não terem o rosto exibido na tevê, encontram na publicidade uma forma de aliviar as despesas que a vida no teatro não cobre. Sandra até que já tentou, mas não deu muito certo. “Quase nunca passo nos testes. Dizem que apareço mais que o produto. Sou muito palhaça”.
Não deixa de ser irônico que o maior sucesso de Sandra na publicidade tenha sido com as mãos. “Fiz muito detalhe de mão”, conta. Ganhava para exibir a mão – e apenas a mão – em comerciais de jóias, sorvetes, cremes. “Uma vez fiz um comercial que foi um verdadeiro Frankenstein. A modelo era linda, mas tinha mão pequena” – e outros problemas. Moral da história: a mão que passa o creme no corpo é de Sandra, os pés são de outra atriz e a voz de uma terceira.
Essa fase em que ganhou dinheiro com as mãos terminou por causa de uma montagem teatral de “Morte e Vida Severina”. “Não dava para fazer essa peça com a unha pintada e bem cuidada”, conta. Para piorar, tentou aprender a tocar violão – o que não conseguiu, mas foi suficiente para deixar uma das mãos em estado lamentável.
Não se surpreenda, portanto, se você nunca viu Sandra Corveloni. Isso significa apenas que você não é freqüentador habitual das peças do Grupo Tapa, em São Paulo. Com “Linha de Passe”, que estréia nesta sexta-feira, você tem a chance de conhecer uma atriz de verdade.
Sandra interpreta Cleuza no filme de Walter Salles e Daniela Thomas. É
| Divulgação |
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| Cleuza tem quatro filhos no filme de Salles |
Esses cinco personagens dividem cenas e falas ao longo dos 108 minutos de “Linha de Passe”. Não há um ator principal entre os cinco. Todos são, de certa forma, atores coadjuvantes. Nas palavras da atriz, Cleuza não tem glamour algum: “É uma anti-musa, pobre, com vida desinteressante. Ninguém quer ser a Cleuza”. Para uma taurina como Sandra receber o prêmio principal por sua atuação causou espanto. “Pensei: o que eles estão querendo dizer com isso?”
Sandra estava em estado de choque ao receber a notícia da Palma de Ouro. No dia 5 de maio havia se reunido com a produção do filme para acertar os últimos detalhes da viagem que a levaria a Cannes. No dia seguinte, no hospital, grávida de seis meses de uma menina, perdeu a criança e quase a própria vida. “Implantação baixa” é o nome técnico do problema que enfrentou. Ficou dez dias no hospital (“quase me mudei para o andar de baixo”, diz, fazendo graça da sua tragédia). Soube, então, que não pode mais engravidar. No dia 23 de maio, em casa, deprimida e arrasada, ouviu da sua médica que devia começar a andar, sair, viver, enfim. Não tinha forças. No dia 25, o ator Jean Reno anunciou que Sandra foi a melhor atriz que passou pelo 61º Festival de Cannes.
É natural que tenha tido dificuldade em entender o que aconteceu. Demorou a aceitar o prêmio, digamos assim. “Uma amiga minha, muito amiga, já me pagou muito aluguel, me escreveu uma carta. Ela dizia: ‘Não foi sorte, não foi acaso, foi merecimento. Aceite. Se você não aceitar, eu vou aí e te dou uns tapas’. Sou muito desconfiada. Demorei a aceitar”, conta.
Como se chegou a esta interpretação especial? Um dos segredos está no oitavo nome a aparecer nos créditos de “Linha de Passe”. Por três meses, Sandra e os quatro meninos ensaiaram com Fátima Toledo, famosa preparadora de atores. É figura fundamental neste e em muitos outros filmes brasileiros. Fátima ensaiava o elenco e enviava alguns vídeos para Walter Salles e Daniela Thomas comentarem. Antes, ainda, de iniciarem as filmagens, Sandra e seus quatro “filhos” viveram por uma semana na casa onde se passa a história, na periferia de São Paulo. “Eu sabia o que tinha dentro de cada armário”, conta. Depois, se submeteram a mais 14 semanas de filmagens com Salles e Daniela.
“Essa família já entrou no filme com um passado”, diz Sandra, naquela que, talvez, seja a melhor definição sobre o que acontece em cena, em “Linha de Passe”. Além de Fátima Toledo, a atriz credita a força de sua interpretação, também, e em especial, a Eduardo Tolentino, diretor do Grupo Tapa. “Ele me ensinou a ver e a ouvir. Interagir com as coisas. Essa foi a grande lição”.
Por incrível que pareça, a Palma de Ouro não mudou muito a vida de Sandra. “Algumas coisas melhoraram. Quando montei ‘Retorno ao Deserto’, de Koltes, ganhei capa do ‘Caderno 2’, do ‘Estadão’. Isso nunca aconteceu antes”. Também recebeu algumas sondagens para outros filmes, mas ainda não acertou nada em relação ao futuro.
Em suas elucubrações sobre o prêmio histórico que recebeu, e pelo qual será sempre lembrada, Sandra esboça uma frase que parece combinar com tudo que ela contou até agora: “De certa forma represento todos esses atores incríveis que estão na batalha”. É verdade.
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