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Filme reverencia a Velha Guarda da Portela e revela os seus segredos

20/08 - 11:47 - Mauricio Stycer, especial para o Último Segundo

Já ouviu falar de Casquinha? E de Seu Argemiro? Nem de Jair do Cavaquinho? Ao menos de Casemiro da Cuíca? Você não está sozinho. Pouca gente conhece esses bambas e, no entanto, eles fazem parte de uma espécie de aristocracia do samba, a Velha Guarda da Portela.


 Veja cenas do filme:

Marisa Monte e Paulinho da Viola, porta-
vozes da escola na MPB / Divulgação

Trata-se do grupo formado dentro de uma das mais tradicionais escolas de samba do Rio de Janeiro, integrado apenas por veteranos de talento, mas pouca exposição pública. São eles as estrelas principais de um filme comovente, “O Mistério do Samba”, cuja estréia está programada para o próximo dia 29.

Hoje, quase toda escola possui a sua “Velha Guarda”, mas a da Portela carrega a fama de ser a pioneira, fruto de um esforço de pesquisa realizado em 1970 pelo jovem Paulinho da Viola. Resultado desse trabalho, o LP e o show “Portela Passado de Glória” tornaram conhecidos de um público maior os nomes e os sambas de Manacéa, Aniceto, Mijinha, Monarco e Paulo da Portela.

Trinta anos depois, em 2000, Marisa Monte voltou a explorar esse veio, realizando o CD “Tudo Azul”, com composições inéditas ou desconhecidas de Casquinha, Alvaiade, Jair do Cavaquinho, Candeia, Manacéa e Monarco, entre outros.

É esta instituição o tema do filme de Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda. Guiados por Marisa Monte, no quádruplo papel de roteirista, entrevistadora, diretora musical e produtora do filme, a dupla de cineastas parte em direção à Oswaldo Cruz, bairro contíguo a Madureira, onde está instalada a comunidade portelense.

Não espere, porém, uma história contada de forma didática, com início, meio e fim. Sem a pretensão de fazer um registro histórico, biográfico ou mesmo jornalístico da Velha Guarda, “O Mistério do Samba” é um documentário de cunho “poético”, defendem os diretores.

Qualquer que seja o objetivo dos diretores, é Marisa Monte – a principal responsável por “O Mistério do Samba” – quem melhor define o caráter do trabalho: a preservação e divulgação cultural. “Esse é um trabalho que não depende só de governos ou de instituições. Não faço isso porque sou cantora. Faço isso como cidadã”, diz a cantora.

Grávida de seis meses, Marisa esteve nesta terça-feira, 19, em São Paulo para assistir a uma sessão especial do filme, e respondeu a perguntas dos espectadores.

Antes que alguém diga que “O Mistério do Samba” parece o “Buena Vista Social Club” brasileiro, os diretores se apressam em avisar: “Começamos a fazer o nosso filme antes”. Ou seja, quando Win Wenders filmava apresentações da velha guarda da música cubana, Carolina e Lula já registravam as primeiras imagens do seu filme. “Não queria falar de pobreza”, explica Lula. “Não é o assunto deles. A música é o meio de vida deles. Eles não reclamam da vida, vivem com dignidade”.

Não à toa, o primeiro samba – dos quase 50 – que se ouve no filme é “Nascer e Florescer”, de Manacéa. Diz assim: “Não tenho ambição neste mundo, não... Sei que reclamas em vão/ Porque não tens a compreensão / Que o mundo é bom / Para quem sabe viver / E se conforma com que Deus lhe dá / A nossa vida é nascer e florescer / Para mais tarde morrer”.

Lula e Carolina convidam o espectador a compartilhar a intimidade que compositores, intérpretes e pastoras da Portela expõem para as câmeras. Há passagens tocantes – nem sempre fáceis de compreender. Numa cena, três pastoras cantam “Quantas Lágrimas”, de Manacéa, incluída no DVD “Barulhinho Bom”, de Marisa Monte, e se emocionam profundamente. Os cineastas optaram por não informar que aquela gravação ocorreu poucos meses após a morte do compositor.

À direita, os diretores Lula Buarque e Carolina Jabor nas filmagens / Divulgação

Em outra passagem, na casa da viúva de Manacéa, Dona Neném, os cineastas perguntam se o compositor não deixou alguma música inédita, a ser gravada. Dona Neném primeiro diz que entregou um caderno com letras a “um repórti” e nunca mais viu essas anotações. Alguns momentos depois, ela aparece com uma maleta, de onde saem fitas cassetes, cadernos e anotações variadas.

Consultando os achados, Marisa Monte descobre trechos inéditos de uma canção, “Volta”, que Manacéa havia gravado com outra letra, “Olga”, mas é um pouco difícil compreender a sucessão dos fatos.

Outros momentos, mais auto-explicativos, mostram a força de “O Mistério do Samba”. Como, por exemplo, quando Seu Argemiro conta que parou de trabalhar, como técnico de refrigeração, aos 60 anos, depois que emplacou um sucesso, a canção “A Chuva Cai”, em parceira com Casquinha, gravada por Beth Carvalho.

Ou quando Tia Eunice, uma das pastoras da Portela, diz que nunca amou. “Nunca tive tempo pra isso”. Ou quando a mesma Tia Eunice dá uma aula de samba para crianças boquiabertas.

Ou, ainda, para citar apenas mais uma entre várias boas cenas, quando Casquinha e Tia Surica cantam juntos “Amor Interesseiro” e o compositor agradece a famosa pastora da Portela pela traição, que o permitiu compor a música.

Como diz Seu Argemiro, em uma passagem de “O Mistério do Samba” que talvez explique o título do filme, “se não houver tristeza, o samba não fica bonito”.

Leia mais sobre: Velha Guarda da Portela, Marisa Monte





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