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 <Olho><![CDATA[Máquina é objeto de desejo em festival]]></Olho>
 <Texto><![CDATA[Por Augusto Olivani<br>File, mostra de arte eletrônica em SP, traz trabalhos que exploram os limites de interação entre artistas e público<br><br>Assim que o espectador entra no espaço da apresentação, um homem careca e corpulento sobe ao palco e passa a envergar um exoesqueleto robótico. Imóvel, ele se oferece à platéia, pronto para ser manipulado por esse estranho maquinário, que parece violar a carne com os garfos de metal. À disposição dos participantes está um monitor que integra música, iluminação e uma série de imagens, além de permitir a eles mexerem o corpo do homem, que está à mercê da máquina e de seus iguais.<br><br>Este homem é o catalão Marcel.lí, uma das principais atrações do Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, o File, aberto ao público nesta semana no Sesi, em São Paulo. O mezanino, a galeria e o teatro serão ocupados com exposição, perfomances e palestras até o dia 3 de setembro.<br><br>Depois de explorar ao máximo a possibilidade musical dentro da arte eletrônica na edição 2005, o File apresenta novos rumos na 7ª edição do evento. "Estamos prestigiando uma linha cinematográfica-teatral nesta edição", conta o organizador Ricardo Barreto. "O clima de festividade do Hipersônica realmente atingiu o ápice na última edição, por isso é hora de apostar em outra vertente."<br><br>São 200 artistas de 30 nacionalidades diferentes, o que ratifica a vocação do festival de apresentar diferentes tendências dentro do atual momento da arte eletrônica. Os trabalhos variam entre arte de internet, animação e cinema interativo, hipertexto, jogos eletrônicos, poesia digital, robótica, música, performance e instalações.<br><br>O que pode desnortear o espectador é exatamente essa pluralidade das obras exibidas. Mesmo aqueles que são familiarizados com uma ou mais áreas de interesse do festival (conectividade, ambientes de imersão, interatividade, cibertecnologia, etc.) podem ter dificuldades em acompanhar os diferentes formatos entre um trabalho e outro. Mas, para a organização, isso não é exatamente um problema para o File.<br><br>"Nós gostamos de operar nessa fronteira borrada que existe entre arte e tecnologia e entre as diferentes manifestações digitais", afirma Barreto, que retoma a máxima de Marshall McLuhan - o meio é a mensagem - para fechar sua idéia. "Porque, quando se trata de linguagem eletrônica, a mensagem está em constante mutação. Não existe padrão dominante, é uma mídia anárquica por natureza."<br><br>Em mutação está também o "rosto perfeito" que o artista inglês Tim Coe apresenta na 7ª edição do File. A partir das feições da modelo alemã Claudia Schiffer (ícone dos anos 90), o espectador mal consegue acompanhar as sutis transformações às quais o rosto é submetível e que, nem sempre, resultam em uma visão agradável. <br><br>Outra instalação presente no festival é Thesystemis, de Zachary Lieberman’s, que será apresentada apenas no primeiro dia do evento. Premiada na mais recente edição do festival alemão ARS Electronica, por sua "distinção em arte interativa", a apresentação permite que qualquer desenho feito pelos espectadores possa ser transformado em um objeto animado e então manipulado pelo artista através de uma interface sensível, projetada em monitor para a platéia.<br>Aliás, a palavra "interação" parece mistificada quando falamos de arte eletrônica. "A interação pode ser randômica, de objeto orientado, de subjetividade artificial, todas operando em níveis diferentes", enumera o organizador Barreto. "Depende da proposta."<br><br>A proposta, muitas vezes, não é apenas de usar os mais avançados códigos e programações, nem de criar ambientes imersivos. Um festival de arte eletrônica talvez não fosse completo sem ferramentas que estão ao alcance da maioria do público.<br><br>A dupla coreana Young-Hae Chang Heavy Industries, formada pela coreana Chang e por Marc Voge, por exemplo, usa o largamente disponível Macromedia Flash como veículo para sua poesia digital. Eles trabalham sobre um fundo cinza e branco e sincronizam palavras e música para criar uma seqüência de imagens cinematográficas. Inspirados pelos beatniks e pelo jazz de Bill Evans, Nina Simone e Art Blakey, os dois apresentam trabalhos - Dakota, O Mar e A Luta Continua - pela primeira vez em português.<br><br>O efêmero, que se mostra também como uma das características da arte eletrônica, é tema de outra instalação de Marcel.lí, Tantal. Classificada como "mecanismo de identidades efêmeras", trata-se de um sistema de identificação que transforma o espectador em personagem. Um dispositivo capta uma série de imagens do rosto dos participantes e a transpõe para a tela como protagonistas de histórias de violência corporal e sexual.<br><br>A relação mais íntima entre homem e máquina pode parecer desagradável, mas não é assim que Marcel.lí e Ricardo Barreto pensam. "A máquina não é estranha ao homem, é um desejo dele. A tecnologia pertence à vida", diz Barreto. <br><br>BOXE<br>FESTIVAL SE PREPARA PARA TER LABORATÓRIO EM 2007 <br><br>Se o Festival Internacional de Arte Eletrônica (File) se destaca pela produção diversificada que mostra em cada edição, há um ponto, porém, que incomoda a organização: a praticamente nula produção nacional.<br><br>"Recebemos propostas de festivais internacionais para promovermos um intercâmbio entre os artistas daqui e de outros países", conta Paula Perissinotto, uma das responsáveis pela organização e curadoria do evento. "Mas, se não temos uma produção consistente, fica difícil fazer essa troca."<br><br>Para inverter essa lógica, a idéia é de promover "laboratórios" já na próxima edição do File, reunindo expoentes de diferentes especializações no mesmo ambiente para criar um trabalho original, que possa ser usado como "moeda" com outras curadorias internacionais.<br><br>Outro problema enfrentado pelos responsáveis pelo festival é o da captação de patrocínio para a realização do evento, que tem entrada gratuita.<br><br>"Nós ainda enfrentamos muitas dificuldades para viabilizar o festival", diz Ricardo Barreto. "Não existe uma categoria de ‘novas mídias’ no Ministério da Cultura, nem no da Educação. Desse jeito, é difícil conseguir patrocínio. Tentamos pela lei do audiovisual, por exemplo, mas, como não fazemos parte desses meios, nunca somos prioridade", fala Paula.<br><br>"O Brasil é retardado no universo de cultura e tecnologia", ataca Barreto, que preferiu não usar a palavra "retardatário". "Vivemos numa demagogia digital, não adianta nada o ministro da Cultura apoiar o software livre e o Creative Commons se no quintal dele ninguém consegue usufruir da tecnologia", desabafa o organizador.<br><br>BOXE/FICHA TÉCNICA<br>WEB | www.file.org.br<br>HIPERSÔNICA | de 15 a 18/8, a partir das 20h <br>A ramificação sonora do festival está restrita ao Teatro Popular do Sesi nesta edição, mas não se restringe à música. O palco será ocupado também pelas performances de Marcel.lí e Zachary Lieberman’s (dia 15), os Gengivas Negras (para encerrar a programação dia 18, às 22h) e a dupla ADDD (dia 17, às 20h40).<br><br>SYMPOSIUM | de 15 a 18, a partir das 14h <br>A série de palestras abertas ao público pretende ser um canal de discussão entre os artistas e teóricos nacionais e internacionais. Em pauta, temas como o diálogo entre cinema e games (dia 16, às 14h), objetos ressonantes (dia 15, às 17h) e classificação de projetos colaborativos (dia 17, às 16h). <br><br>HIPERCINEMATIVIDADE <br>Uma das salas da Galeria do Sesi apresenta filmes interativos produzidos na Europa e EUA e as instalações ‘Direct Cut’, da russa Alexandra Dementieva, que tem duas telas e um playground com 99 tapetes sensíveis ao toque, e ‘10 Minutes em Nazareth’, do alemão Blaise Bourgeois.<br><br>INSTALAÇÕES <br>Além de ‘Tantal’, de Marcel.lí, e ‘Thesystemis’, de Zachary Lieberman’s, estão entre os trabalhos a retrospectiva do holandês Han Hoogerbrugge - artista que participa do File desde as primeiras edições - e a instalação imersiva ‘H2O’, em que vídeos são projetados ao redor de uma piscina, permitindo que o espectador interaja com a silhueta de uma mulher.<br><br>SERVIÇO | 7º File <br>DETALHES | Galeria de Arte do Sesi e Teatro Popular do Sesi. Av. Paulista, 1.313, São Paulo, 3146-7405. Abertura para convidados hoje, às 19h30. 3ª a sáb., 10h às 20h; dom., 10 às 19h. Grátis (retirar senhas com antecedência no dia). Até 3/9.<br><br>  ]]></Texto>

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