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 <DataGeracaoArquivo>Ter, 25 Jul 2006 17:49:09 -0300</DataGeracaoArquivo>

 <Titulo><![CDATA["A vida na Praça Roosevelt" e a história de um encontro cultural no teatro]]></Titulo>
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 <Olho><![CDATA[<P><STRONG>Por Michael Laages*, para o Aplauso Brasil</STRONG> </P>
<P>BERLIN - Nunca existiu tamanho intercâmbio cultural no teatro quanto com a “A vida na Praça Roosevelt” d’ Os Satyros na Alemanha.</P>]]></Olho>
 <Texto><![CDATA[<P><STRONG>Nossa calçada</STRONG></P>
<P>Nenhuma noite foi sem lágrimas, assim&nbsp; como ninguém deixou de rir ou de aplaudir sem parar (o que é bastante incomum no teatro brasileiro) – na Alemanha é o público que decide quanto tempo quer demonstrar o seu entusiasmo: primeiro com as mãos, depois com a batida dos pés, gritando “Bravo” e afinal com uma constante ovação, que só termina quando o público resolve sair em conjunto. Tudo isso aconteceu para os Satyros de São Paulo e a peça de Dea Loher “A vida na Praça Roosevelt” - eles chegaram a ser ovacionados oito vezes, quinze minutos sem parar. Na primeira noite em Mülheim e depois novamente&nbsp; - naturalmente a companhia estava com os olhos cheios d'água: Phedra e Angela, as duas Sorayas, Nora, Cleo e Tatiana, Alberto e Fabiano, Daniel e João, Laerte e Ivam, também Emerson e Igor na cabine técnica, assim como Theo %FOTOESQUERDA% Solnik, que era responsável pelas legendas feitas ao vivo e por fim Rodolfo e Dea Loher, que acompanharam toda a Tourné. Eles estavam muito agradecidos pelo reconhecimento e pela enorme disponibilidade do público&nbsp; em toda parte por onde passaram de compartilhar as emoções desta peça com a companhia. Também estavam um pouco orgulhosos, pois não se deixaram levar pelo gesto comum a outras companhias que se apresentaram no programa da “Copa da Cultura”: aplaudir o público de volta. Não! – a peça d’ Os Satyros de São Paulo foi mais forte e autoconfiante, tomando um passo decisivo rumo a um encontro exemplar na troca entre as culturas.&nbsp;&nbsp; </P>
<P>A última grande e bela imagem para este encontro foi quando a companhia do Thalia Teater de Hamburgo apresentou a versão alemã da peça “A vida na Praça Roosevelt” pela última vez. A mesma versão, cuja estréia foi o começo da história, que viajou para o Brasil e que colocou a pedra fundamental, instituindo assim um desafio para a própria produção dos Satyros.&nbsp; </P>
<P>Nesta ocasião, as atrizes e atores de Hamburgo pediram para que os seus colegas de São Paulo subissem ao palco, sendo que eles estavam ali somente como público. As várias fotos desta despedida e deste grande texto provavelmente vão ser para muitos e talvez por muito tempo ainda um dos momentos inesquecíveis a guardar na lembrança. Com certeza eles escreveram esta história juntos, acha o Rodolfo, pois talvez nunca tenha existido em nenhum lugar um encontro de uma forma tão concreta e mútua. E Dea Loher via-se no meio de um momento extremo de felicidade, como talvez ela nunca terá mais em sua vida. </P>
<P>“Nossa calçada” dizia Rodolfo sempre quando ele contava na Alemanha a respeito do grande cotidiano do pequeno mundo dos Satyros. Morte, pavor e susto das mais variadas formas podem ser encontradas nesta história, que a dramaturga conta como um misterioso e distorcido “Cosmos”, no qual emergem subitamente momentos de grande saudade: de fé, amor e esperança. A peça é sempre como um choque, fazendo o&nbsp; público rir e travar os dentes, deixando todos sem fôlego. Às vezes por causa do riso e às vezes por causa das lágrimas. Duas horas e meia dura a paixão, sendo (mais evidente e claro do que no artificial, frio, abstrato e estranho mundo de imagens da estréia do diretor Andreas Kriegenburg de Hamburgo)súplica, exorcismo e catarse ao mesmo tempo.&nbsp;&nbsp; </P>
<P>Assim como no Teatro Oficina de Zé Celso no outono passado e especialmente em vários grupos da programação da “Copa da Cultura”, é bastante incomum e novo para o público alemão ter tanta emoção como na “Praça Roosevelt” de Dea Loher; o teatro daqui hoje em dia é definido por conceitos intelectuais e pré-concebidos.&nbsp; </P>
<P>E são os momentos mais simples do texto de Loher e da montagem de Rodolfo, que não deixaram ninguém imune na Alemanha: a cena curta com a mulher, que quer levar os ossos de sua filha morta num ônibus para a sua casa no Nordeste. Ali o teatro pára de respirar por um momento inigualável e inesquecível, onde o mundo fica quieto e mudo sem saber o que está por vir – nenhum dos megacaros e superequipados “teatros-top” alemães (diferente do Brasil) conseguiram atingir algo assim até então. E não é à toa que Kriegenburg não se atreveu a mexer nesta cena, porque ele sabia que todos pensariam que ele não tinha o direito de mostrar algo assim. Mas é possível que outros diretores inteligentes como ele gostassem de aprender com esta experiência – e recordar-se desta energia incrível não só da companhia brasileira, mas também do teatro em si. </P>
<P>Assim “A vida na praça Roosevelt” não teria deixado somente marcas profundas na Alemanha, mas também gerado um efeito além da peça. Em São Paulo foi assim:</P>
<P>A “Folha de Sao Paulo” chamou a dramaturga Loher de “paulistana” de honra, ganhando o “Prêmio Shell” com a peça e a montagem. Desde então, o “Espaço dos Satyros” faz parte da primeira liga de teatros da cidade. Também o Rodolfo quer tirar proveito desta experiência, levando-o a ensaiar a outra peça de Loher chamada “Inocência”, que surgiu antes das histórias na Praça Roosevelt e que também estreou sob a direção do Andreas Kriegenburg. </P>
<P>Quando os Satyros ensaiarem esse texto de Loher, eles vão se lembrar como numa aparição daquela noite na Alemanha, pois após a estréia de Hamburgo, a companhia correu para o bar off da Rua Erich da “off Reeperbahn” (a nossa versão para a Rua Augusta). </P>
<P>Alí tem no fundo uma mesa de “penbolim”, com muitas fotos de heróis como&nbsp;Gerd Müller, Johan Cruyff, Diego Armando Maradona, além de uma, que só os convidados de São Paulo reconheceram na hora: do mestre Garrincha. Esse sim (e não o Pelé!) é venerado por estes convidados, que naquela noite pararam por acaso num lugar como este, dando assim início à uma festa especial, onde exatamente este Garrincha estava presente – o homem daquelas pernas especiais, que deixava todos os defensores tontos quando jogava, que era casado com a diva Elza Soares, mas que no fim da vida empobreceu e morreu devido à bebida. </P>
<P>Quase todos daquela pequena festa brasileira deixaram-se fotografar com aquela imagem empoeirada do Garrincha – no quarto embaçado de um bar de “Saint Pauli”, onde o DJ toca música country. Naquele momento nada parecia combinar, mas talvez os “Satyros” sintam-se à vontade assim, pois a própria Praça Roosevelt é uma terra de ninguém no meio de uma cidade enorme. E naquela noite “Saint Pauli” era literalmente como São Paulo. </P>
<P>E quem sabe seja possível fazer esta troca de talentos na própria companhia – e levar os convidados da estréia de “Inocência” a festejar num canto escuro da Praça Roosevelt; a&nbsp; “Saint Pauli” brasileira. Mesmo se lá não tiver nenhuma foto de Beckenbauer ou de Müller pendurada. </P>
<P>*Michael Laages é crítico de teatro da revista alemã Humboldt</P>
<P>traduzido por Nathalia Fari</P>]]></Texto>

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