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 <DataGeracaoArquivo>Qua, 21 Jun 2006 23:59:38 -0300</DataGeracaoArquivo>

 <Titulo><![CDATA[Crítica: Deflora-Te: feche os olhos para enxergar melhor]]></Titulo>
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 <NomeCredito>Washington Calegari, especial para o Aplauso Brasi</NomeCredito>
 <EmailCredito>mailto:wocalegari@superig.com.br</EmailCredito>
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 <Olho><![CDATA[<P>SÃO PAULO - Está chegando ao fim. Na madrugada de domingo para segunda, pela última vez em São Paulo, o enigmático e perfumado Amor nascido de Jean Genet fará o convite para que os clientes entrem na Casa das Ilusões. As portas da Casa das Rosas, na avenida Paulista, se abrirão para que eles bebam do próprio teatro como ilusão e, ao mesmo tempo, aquilo que há de mais verdadeiro no jogo de desejos e sensações que revolve camadas férteis da alma humana.</P>
<UL>
<LI>Leia mais no <A href="http://www.aplausobrasil.com.br/">Aplauso Brasil</A><BR></LI></UL>]]></Olho>
 <Texto><![CDATA[<P>Em "Deflora-Te" - da companhia carioca Duplô, que faz suas três últimas apresentações neste fim de semana - estão em cena os participantes de um 'prostíbulo intelectual', prontos a expor seus próprios conflitos e desejos e promover nos clientes esse mesmo movimento, de dentro para fora. As personagens são filhas da inspiração em "O Balcão", peça do dramaturgo francês Jean Genet. Algumas, assim como o gato que ronda a casa, são fiéis seguidores da Madame, a comandante das ilusões. Outras cumprem seu papel, mas desejam libertar-se, por desacreditarem do jogo. Esperam para si o próprio amor que evocam e que têm por função estimular nos clientes. Dentro da casa, o Amor é anfitrião e guia. </P>
<P>As regras são claras: ande descalço pelo espaço; aceite passivamente as propostas que lhe forem lançadas; não tire a venda dos olhos antes do comando. Nenhum receio é bem vindo, e tampouco necessário.&nbsp;&nbsp; Um cheiro, um gosto, um som, cada estímulo nessa teia sinestésica é capaz de conduzir o cliente no escuro e fazê-lo ver muito mais do que se pode à luz do dia. Cada pêlo, cada parte da pele, cada narina ficam em constante alerta para suprir e recompor com seus respectivos sentidos a carência da visão. De olhos vendados, todo o corpo enxerga muito melhor. </P>
<P>Logo na entrada, o jogo do olho no olho, a casa iluminada de rosa e o visual das personagens são um atraente convite. Mas a convocação maior que o espetáculo faz é o da criação de significados pessoais e estímulos sensoriais, para a qual a participação dos clientes – o público - é indispensável. Não porque a ação dependa irrevogavelmente do público faça ou deixe de fazer, mas porque a experiência só se manifesta quando ele partilha do que é possível nessa experiência, para além do que é visível. A confiança se potencializa no escuro, em que não se sabe quem, de olhos abertos, está nos olhando. Pelo cheiro ou pela voz, aí sim, pode-se suspeitar quem está nos conduzindo. </P>
<P>O processo criativo da Cia. Duplô se ancora nas idéias de Antonin Artaud e sugere a concepção de um teatro que, "assim como a peste, refaz o elo entre o que é e o que não é, entre a virtualidade do possível e o que existe na natureza materializada", como escreve o teatrólogo em "O Teatro e Seu Duplo". Para Artaud, o "incêndio espontâneo" do teatro é "uma formidável convocação de forças que reconduzem o espírito, pelo exemplo, à origem de seus conflitos".&nbsp;&nbsp; Uma verdadeira peça de teatro, assim, "perturba os sentidos, libera o inconsciente reprimido, leva a uma espécie de revolta virtual".</P>
<P>A revolta proposta pela Cia. Duplô pode ter seus efeitos no real. Na Casa das Ilusões, deflagrar os próprios conflitos vai depender de quão aberto se está para encontrar alguma luz na perturbação do teatro, que reconduz, com novos olhos, à perturbação da vida. E assim, quem sabe, os clientes cheguem ao ponto de questionar até onde podem ou devem ir no que lhes é proposto no escuro. A Casa das Ilusões é, afinal, um prostíbulo de verdade? Até onde vai o diálogo de sensações e desejos? </P>
<P>A casa tem suas regras para conduzir esse jogo, real, como todas as ilusões. Carnal, como o desejo. Terno, como o afeto. Chocante, feito a prisão. Uma prisão para satisfazer a vontade dos clientes e a do próprio mandante. E para isso é essencial que essas duas vontades concordem entre si. Essa é a regra subliminar, e é preciso aceitá-la. </P>
<P>O acordo que aparentemente aprisiona o indivíduo e banaliza as fantasias tem por caminho algum tipo de libertação, e cada um tem a chance de descobrir sua via particular pela qual a submissão liberta. Não se surpreenda se quiser, de fato, aceitar as regras, submeter-se à ilusão e descobrir sua rosa apunhalada. Tampouco se, ao sair da Casa das Ilusões, quiser novamente fechar os olhos e enxergar-se por dentro – e, portanto, enxergar muito melhor. </P>
<P><STRONG>Deflora-Te</STRONG></P>
<P>Livre adaptação da peça "O Balcão", de Jean Genet.<BR>Adaptação e direção: Gabriela Linhares. <BR>Madrugadas de sexta para sábado e de sábado para domingo, 0h30, e de domingo para segunda, 0h. Até 25 de junho.<BR>Casa das Rosas - Avenida Paulista, 37.<BR>30 lugares.<BR>R$ 30 (ingressos à venda no próprio dia, das 19h às 22h30). <BR>Informações: (21) 7823-4145.</P>
<P>%FOTODIREITA%</P>
<P>A Cia. Duplô permanece em cartaz na capital com outra peça, "Traição", de Nelson Rodrigues, até o final de julho. Leia abaixo a entrevista da diretora dos espetáculos ao Aplauso Brasil. </P>
<P><STRONG>Aplauso Brasil – Por que Jean Genet? Por que Artaud?</STRONG></P>
<P><STRONG>Gabriela Linhares –</STRONG> Com Artaud eu me identifiquei logo nos primeiros contatos na universidade, mas foi uma indicação de uma professora e comecei meio autodidata fazendo processos. Depois, quando fui de Porto Alegre para o Rio, conheci uma professora doutora em Artaud que tinha uma disciplina de teatro da crueldade. Me apaixonei pelo trabalho dela e comecei a fazer uma pesquisa mais aprofundada sobre os ensinamentos de Artaud. Eu comecei minha pesquisa com Nelson Rodrigues e depois Genet, e sempre me perguntam minha preferência pelos malditos. Eu acho que eles estão sempre à frente do seu tempo, eram malditos porque eram mal entendidos no seu tempo. Eu já tinha lido as peças de Genet, ele estava sempre na minha lista de espera para montar, até que uns franceses foram ver "Traição"no Rio e começamos a conversar sobre Artaud, Genet, e então veio a idéia. Pensei&nbsp; em resgatar esse universo meio subsolo, de prostituição, de bandidos, ladrões, o Genet mesmo ficou na cadeia, foi michê. Mas eu não queria nada escrachado, clichê, uma comicidade que fizesse perder a dramaticidade do texto. Eu queria um Jean Genet sem o clichê, mas com a poesia. O Artaud também, eu queria trabalhar a crueldade de outro jeito, pela poesia. Trabalhar a morte pelo renascimento, pelo recomeço. A crueldade para tirar o espectador da passividade, para que ele seja tomado por uma peste. </P>
<P><STRONG>Aplauso Brasil - Além de " O Balcão", de Jean Genet, você se inspirou em outras fontes e situações para criar "Deflora-Te"?</STRONG> </P>
<P><STRONG>Gabriela Linhares –</STRONG> Eu li "Diário de Um Ladrão", do próprio Genet, todas as peças dele, e parti mesmo para a observação na Vila Mimosa, no Rio, Copacabana, conversas com travestis, prostitutas. A peça surgiu de uma oficina, fiz uma seleção de 5 pessoas a dedo para uma oficina de estudos sobre Genet. Elas foram muito disciplinadas, foi um trabalho muito intenso, e daí surgiu a peça, dessa disciplina. Em quase todo o processo eles estavam vendados. E eu só consegui montar o espetáculo no escuro. </P>
<P><STRONG>Aplauso Brasil&nbsp; - Que significados e sensações você quis explorar no público ao vendar os olhos da platéia?</STRONG> </P>
<P><STRONG>Gabriela Linhares –</STRONG> Quando a gente vê, a gente limita muito as outras sensações físicas. Ao vendar os olhos, até a sensação de atmosfera, de energia, fica muito mais aguçada. Eu queria que eles provassem o espetáculo, que a coisa do prostíbulo, do sexual, que cada um fizesse a sua história disso, imaginasse o seu próprio prostíbulo.&nbsp;&nbsp; </P>
<P><STRONG>Aplauso Brasil&nbsp; - De modo geral, você acha que esse objetivo é alcançado? De quê esse objetivo depende para ser alcançado? </STRONG></P>
<P><STRONG>Gabriela Linhares –</STRONG> Sim. Percebo que cada um vive um "Deflora-Te" diferente, cada um tem uma idéia. Eu tive inúmeros depoimentos interessantíssimos, uns dizem que a vida deles mudou. Um professor de filosofia assistiu e disse que nunca tinha pensando no corpo dele, e quando vendou os olhos ele passou a sentir. As pessoas dizem que passam a sentir outras coisas no dia-a-dia, que o gosto mudou, que a vida sexual se transformou. Acho interessante que o espetáculo tenha proporcionado isso. E o meu processo é esse: trabalho primeiro o corpo, depois o texto. Primeiro tem muitas pesquisa, claro, mas a montagem em si, depois, é muito intuitiva. </P>
<P><STRONG>Aplauso Brasil - Até que ponto os estímulos dos atores no público podem ir? O que pode e o que não pode na proposta que vocês pensaram?</STRONG> </P>
<P><STRONG>Gabriela Linhares –</STRONG> O espetáculo é dionisíaco quando a platéia está de olhos abertos. Quando os olhos são vendados, ele fica apolíneo, ou seja, cheio de regras. A gente tem que ficar cuidando pra ver se o público não se encosta demais, se não acaba passando a mão em todo mundo. Tem que tomar cuidado pra não se machucar, abusar do outro, agredir o público. Essa mudança que acontece quando os olhos são vendados mostra a idéia do duplo: o público vira personagem, e o ator vira espectador. </P>
<P><STRONG>Aplauso Brasil - Alguém da platéia, por exemplo, se entusiasmou com algum ator ou atriz enquanto estava de olhos vendados? Qual a reação nesse caso?</STRONG>&nbsp; </P>
<P><STRONG>Gabriela Linhares –</STRONG> No Rio eu tive o caso de um cara que colocou o pênis para fora e começou a se masturbar com outra espectadora, achando que talvez fosse uma atriz. Eu tive que tirar a venda dos olhos dele e dizer: "casa da madame tem olhos e ouvidos e certas coisas não são permitidas". Ele ficou bravo, a menina, encabulada, e os dois tiveram que ser retirados da platéia. Poucas pessoas saem do espetáculo. Algumas têm medo do escuro, outras têm nojo, mas em geral elas ficam. O público não é forçado a nada. </P>
<P><STRONG>Aplauso Brasil - Você vê alguma identidade entre "Traição" e "Deflora-te"? O modo como concebeu os espetáculos revela essa identidade de alguma forma?</STRONG>&nbsp; </P>
<P><STRONG>Gabriela Linhares –</STRONG> Sim, a precisão corporal, a idéia do duplo. A platéia é o duplo do palco, o teatro é o duplo da vida, o personagem é o duplo do ator, o homem é duplo se Deus.&nbsp;&nbsp; Em "Deflora-Te" o duplo não é tão visível, é mais sutil e metafísico.</P>
<P><STRONG>Aplauso Brasil – Qual a próxima parada de "Deflora-Te"? </STRONG></P>
<P><STRONG>Gabriela Linhares –</STRONG> Acho que voltamos para o Rio e começar a pesquisa do próximo espetáculo, "Subsolo das Almas", que vai ter várias passagens bíblicas, muita filosofia, mitologia, e os malditos, claro.</P>]]></Texto>

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 <LegendaFotoCorpoMateriaDireita>Deflora-te está em cartaz na Casa das Rosas, na avenida Paulista, em São Paulo</LegendaFotoCorpoMateriaDireita>
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