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 <DataGeracaoArquivo>Seg, 20 Fev 2006 12:14:28 -0300</DataGeracaoArquivo>

 <Titulo><![CDATA[Artigo: "Os 120 dias de Sodoma" e o segundo gume do iluminismo]]></Titulo>
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 <NomeCredito>Del Candeias, especial para o Aplauso Brasil</NomeCredito>
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 <Olho><![CDATA[SÃO PAULO - Sade elaborou sua obra na passagem da Idade Média para Moderna, quando a expansão dos burgos e a competição entre poder econômico e político ensejaram uma mudança de postura do homem diante da realidade. Se antes as leis divinas determinavam o funcionamento do mundo e da sociedade regulada por um sistema governamental estático, nesse momento, tal rigidez tornava-se objeto de crítica, porque o espírito moderno ascendente partia da crença na autonomia do sujeito. Um dos índices dessa transformação foi o dinheiro, que passou a ter mesmo ou maior valor que o sangue azul - títulos de nobreza começam a ser vendidos -, o que fez com que, progressivamente, a rigidez do sistema de governo monárquico se tornasse cada vez mais frágil e sem sentido. Esse último, aliás, ia sendo cada vez mais contestado pela nova filosofia. ]]></Olho>
 <Texto><![CDATA[<P>Os grupos de comensais, que se reuniam para beber, comer e, principalmente, debater, exerceram papel fundamental nessa contestação. O próprio estabelecimento da discussão em conjunto era um princípio moderno, na medida em que a razão servia como mediadora para instaurar a universalidade. Antes, as prescrições, interdições e verdades eram postuladas por Deus e a mediação só podia ser feita pelos escolhidos, que faziam parte do Clero e da Nobreza. Além disso, tal reflexão sobre o mundo, instaurado em reuniões, - e que se não originou o Iluminismo (ou Ilustração), o fez ao menos com as revoluções inspiradas por ele - tinha ainda outro aspecto novo, fundamentos democráticos, que seriam o princípio básico da organização política moderna e da crítica à organização medieval. Afinal, o Absolutismo não tem mais sentido de ser no momento em que os indivíduos se vêem iguais entre si, livres de Deus ou detentores da mesma competência para conhecer as verdades divinas. Em outras palavras: donos de seus atos num Mundo, cuja natureza pode ser dominada por meio do descobrimento de suas leis. </P>
<P>Com o mesmo espírito, surgiram os preceitos de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, que só podem ser atingidos democraticamente, por meio da Razão. E as instituições que deram início à publicidade, os grupos de debate, é que se encarregavam de firmar esse processo, prefigurando o que seria a mídia atual. Seus modos de pensar acabavam interferindo nas relações entre os integrantes, de modo a formar pequenas sociedades, com leis e organização própria, como se fossem maquetes de burgos ideais. Dentre esses grupos, havia os dos libertinos, que ficaram famosos por práticas e princípios que destoavam dos da maioria. São eles os personagens de Sade - são eles, mas não são (dialética que se explica adiante). </P>
<P>Isso quer dizer que podemos considerar os personagens de Sade iluministas e, portanto, críticos do sistema vigente, em nome de uma outra proposta de organização social, baseada numa filosofia. Fato importante é que essa proposta é uma anti-proposta do que se depreende do Iluminismo oficial. Veja-se o exemplo da pequena sociedade montada em “120 dias”. Dentre as diferenças entre os diversos “contratos sociais” sistematizados por tantos pensadores, talvez seja possível encontrar o fundamento comum da igualdade, ou democracia. Os libertinos de Sade não chegam a falar em contrato social, mas instauram uma espécie sua, na qual detêm o poder sobre os outros participantes. O acordo se faz apenas entre os ilustrados, enquanto o resto - que na verdade são vítimas – deve obedecer incondicionalmente sob a força física ou do dinheiro. Eis o princípio constituinte dos personagens sadianos principais: ir contra o Iluminismo oficial, com o uso do mesmo princípio, a Razão. </P>
<P>Os novos valores erigidos pela filosofia burguesa - como igualdade, liberdade, fraternidade; família e saúde - são completamente desvalorizados pela dos libertinos, que se limitam a prescrever o censurável e destruir o estabelecido – mecanismo que lembra a máxima sofística: “O que se faz com palavras se desfaz com palavras”. A subversão maior está no fato de que a libertinagem sadiana é o tesão pela Razão, corporificação do espírito, desvirtuando a dicotomia clássica de razão x sensibilidade/paixão/instinto. Como se lê em “Os 120 dias de Sodoma”: /// “Entre os maiores libertinos é ponto assente que as sensações comunicadas pelo órgão do ouvido são as que mais deleite causam e, portanto, as que mais vivamente impressionam.” </P>
<P>Essa literatura de personagens iluministas tão fervorosos, que acabam voltando-se contra o próprio movimento ao qual pertencem, numa dialética violenta, não é mero virtuosismo técnico-filosófico. Ela flagra contradições, que se não se mostram claramente antes da revolução francesa, surgem explicitamente alguns anos depois, para se repetirem até os dias de hoje – por isso, há algo de profético em Sade. Logo quando a burguesia sobe ao poder, o povo é terrivelmente massacrado pelo menos duas vezes: na comuna de Paris e em 1848. O sistema capitalista transforma “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” em “Opressão, Desigualdade e Indiferença”. A filosofia racionalista de Kant e Hegel, associada à “irracionalista” de Nietzsche, é subvertida no nazismo. E hoje em dia, o presidente dos EUA mantém um discurso civilizado e democrático como justificativa para seus atos de barbárie imperialista. </P>
<P>Ou seja, como mostrou Sade, a Razão, ao contrário de ser um instrumento neutro e preciso – como o Iluminismo inculcou –, é algo que pode ser definido acima de tudo como volátil, podendo explicar e organizar a realidade da maneira que for apropriada ao seu manipulador. Também por isso, ela pode se apresentar por um nome e ser seu oposto, se dizer libertária e ser opressiva; do mesmo modo como os libertinos sadianos, que afirmam ser natural a relação entre dominantes e dominados, ao mesmo tempo em que é necessária uma formação ao libertino, acompanhada da censura aos valores vigentes logo na infância. Note-se que a maior justificativa para o pensamento desses libertinos está justamente na “Natureza”, conceito que serve e serviu de fundamento a tantas teorias que o tomaram como ponto indiscutível, dando-lhe, porém, as mais diversas formas. Até hoje não se deu uma definição incontestável do que seja natural. </P>
<P>Apresentada essa característica constituinte dos heróis de Sade, por meio da qual sua obra revela as contradições da ascensão do pensamento iluminista, que desembocou na ideologia oficial das nações burguesas até os dias atuais, nos detenhamos sobre alguns aspectos importantes.</P>
<P><STRONG>Sexualidade</STRONG></P>
<P>A preocupação em sistematizar as paixões segundo a psicologia e a fisiologia, apesar de não se configurar nesses termos, vem de longa data. Entretanto, é só a partir da filosofia iluminista que ela está mais próxima à forma que conhecemos – Foucault aponta muito bem essa transição em sua História da Sexualidade. No âmbito da monarquia, era o sangue azul que regulava as relações sexuais. Os burgueses, porém, tinham de assumir outro modo de controle: a prole saudável, pois nesse momento, a única garantia de longevidade para o poder conquistado pela nova classe social era a possível continuidade dada por seus filhos. A questão burguesa não é mais com a ascendência, mas sim com a descendência, e a sexualidade se une à higiene e à saúde sexual, para efetivar uma boa reprodução. A negação dessa última é um dos principais atrativos sexuais para os libertinos sadianos. A vagina é descartada e as relações que envolvem pulsões de morte são tanto mais bem vistas quanto mais assassinas. Em “Os 120 dias de Sodoma”, encontramos justamente uma tentativa de sistematização até esgotamento desses fetiches. Com isso, um dos principais recursos metodológicos do Iluminismo vai contra seus fins, atacando a classe social que o defendeu.</P>
<P>Como as outras, essa contradição só se mostra mais evidente em momentos posteriores da História. A passagem da restrição católica do sexo para a prescrição científica promoveu o alastramento de inúmeras doenças venéreas, o descontrole da natalidade e os meios anticonceptivos. De modo que a prerrogativa da vida se faz morte. Os vírus matam pais e filhos, a natalidade descontrolada constitui regiões pobres e superpopulosas e os métodos anticoncepcionais ajudam principalmente as classes mais abastadas a se manterem estéreis.</P>
<P><STRONG>Fisiologia </STRONG></P>
<P>O que ocorre com a fisiologia é muito semelhante ao que se dá com a sexualidade. Os estudos sobre o corpo humano, vinculados à ideologia burguesa, possuem o objetivo de manter a saúde; saúde esta que se fundamenta em disponibilidade para o trabalho e procriação. Em “120 dias de Sodoma”, o primeiro aspecto é exagerado, na medida em que o entendimento da anatomia serve a fetiches e um total aproveitamento sexual do corpo humano nos jogos de libertinagem. O segundo, como já foi apontado acima, é completamente anulado. A gravidez só aparece para que a grávida seja sodomizada e/ou o bebê torturado e/ou morto. </P>
<P>Outra vez, contradições do mundo moderno se apresentam de antemão. O estudo da anatomia e da fisiologia acabou culminando na eugenia e no nazismo, que selecionou a raça ariana por meio da regressão sofística do conceito de sangue biológico no “sangue azul” aristocrático. Hoje em dia, esses mesmos ramos da Ciência dão parâmetros para cirurgias plásticas, manipulação para remédios e tratamentos de estética nocivos ao próprio conceito de saúde, além da elaboração de drogas cheias de efeitos colaterais para diversão e melhor desempenho sexual e social. Por último, ainda há o esporte, que tal qual os treinamentos sadianos, levam o corpo ao seu limite, rompendo ligamentos e diminuindo expectativa de vida, para que a execução do exercício seja perfeita. </P>
<P><STRONG>Família</STRONG></P>
<P>Apesar das controvérsias teóricas, a família talvez seja a célula da sociedade burguesa; principalmente no começo, pois o legado e os ensinamentos de pai para filho eram fundamentais à longevidade da propriedade privada geradora de capital, seja ela fábrica, manufatura, etc... Uma grande parte dos fetiches sexuais sadianos é justamente romper com os tabus familiares. Se a localização social de um indivíduo fora do trabalho se dá por meio das relações de parentesco (Aqui no Brasil, além do número, e da cidade de nascimento, o que nos identifica no RG são o nome com sobrenome e os pais), os incestos de “120 dias de Sodoma” embaralham a rede de inserção oficial: </P>
<P>“Curval conta outra de um irmão e de uma irmã que fizeram a combinação de ofertarem mutuamente um ao outro os filhos de cada um; a irmã tinha um rapaz e uma rapariga e ele também. Misturaram tudo com tal arte que ora fodiam os sobrinhos, ora os próprios filhos, e às vezes eram os primos direitos ou os irmãos e irmãs que se fodiam uns aos outros, ao mesmo tempo que os pais e as mães, ou seja irmão e irmã, se fodiam da mesma maneira.”</P>
<P>Desenvolvimento da filosofia libertina da negação da reprodução é o ódio contra os progenitores. Pois se ambas as posturas fossem levadas às últimas instâncias, por motivos lógicos, a raça humana chegaria ao seu fim. Razão vai contra razão e a fragilidade da célula familiar é ostentada. </P>
<P>Evidentemente, não nos deparamos com um grande aumento nos casos de incesto ao longo da História até os dias atuais. O que podemos notar, todavia, é que o próprio sistema de legado financeiro e o fortalecimento do capitalismo – motivos da união familiar – provocaram uma dissolução dos laços familiares. Jovens ricos mandam em seus pais, filhos brigam por causa de herança, parentes se roubam; a divisão se faz entre pai e filho, mãe e filha, sogra e nora, e os inimigos dos homens são os de sua própria casa. </P>
<P><STRONG>Religião</STRONG></P>
<P>O Iluminismo se colocou muitas vezes contra a Religião, por causa de seu dogmatismo intrínseco. De modo que a censura aos preceitos religiosos tinha relação direta com o caráter democrático da Razão: encontrar uma verdade por meio do debate. Os libertinos de Sade, porém, não criticam o Cristianismo, tendo uma finalidade democrática. Pode-se dizer que, muito pelo contrário, seus ataques são tão dogmáticos quanto os preceitos da Igreja, limitando-se simplesmente à diversão da blasfêmia e ofensa pessoal do religioso. Outro dado a ser ressaltado é que os elementos ritualísticos, vistos como meros fetiches por uma mente iluminista, não são totalmente descartados, mas se transfiguram em novos: fetiches sexuais. Assim, em “Os 120 dias de Sodoma”, o casamento não é de fato rejeitado, e sim desvirtuado. A hóstia, batina, e os elementos religiosos também não são desprezados, mas prezados de outra forma, na medida em que a blasfêmia e o tesão dão força um ao outro. Ou melhor: a blasfêmia é que dá força ao tesão, porque, “nos 120 dias”, a filosofia é que molda o sexo, e não o contrário. </P>
<P>Outro dado importante é o ateísmo esclarecido dos heróis de Sade, que tem papel no mesmo processo que está sendo descrito aqui: um fundamento que negava o absolutismo e apoiava a democracia se reverte no oposto. O que quer dizer que se a não existência de Deus dava sustento à constituição da sociedade burguesa, nesse caso, ela o faz com a opressão sadiana.</P>
<P>Traçando um paralelo com os dias de hoje, talvez possamos identificar essa reutilização de “fetiches” religiosos com o poder de verdade da Ciência, o respeito exagerado (mitológico) ao Estado – como foi o caso da Alemanha nazista e dos EUA atual - e a hipnose coletiva que provoca a Indústria Cultural. Quanto ao discurso anti-religioso democrático que se reverte em dogma, podemos relacioná-lo com o total desrespeito às crenças deflagrado na modernidade – para usar os mesmos exemplos, a perseguição aos judeus pelo nazismo pagão e a violência americana contra o povo muçulmano.</P>
<P>Debruçando-nos sobre esses aspectos importantes, depreendemos o efeito de sentido da construção dos libertinos de Sade. A criação de personagens iluministas que levam a Razão – instrumento principal desse movimento filosófico – a tal ponto limite, que ela vai contra si mesma, revela contradições que já se manifestavam na época, de modo sutil, e que mais tarde, se tornaram evidentes. O caráter profético da obra do escritor francês está justamente no fato de que, levando esses personagens ao extremo, resultados futuros acabam aparecendo antes que a História permita a extrapolação que lhes dá oportunidade para se efetivarem de fato. Por isso, no início do ensaio, afirma-se que os libertinos de Sade são os iluministas da França, mas não o são. São, porque se referem evidentemente a esse tipo, mas não o são na medida em que o exagero os transforma em caricaturas, seres ideais. E o percurso da narração de “Os 120 dias de Sodoma” acompanha essa transformação. O texto inicia assim:</P>
<P>“As consideráveis guerras que Luís XIV teve de sustentar em todo o curso do seu reinado, esgotando as finanças do estado e as faculdades do povo, não deixaram de, ao mesmo tempo, trazer em si o segredo da riqueza para essas inúmeras sanguessugas que estão sempre à espreita das calamidades públicas, que elas próprias provocam em vez de minorarem, para daí retirarem lucros.”</P>
<P>Pouco adiante, os libertinos são identificados com essas figuras aproveitadoras, dando a impressão de que o livro será um romance histórico de denúncia. Linhas depois, a quebra da verossimilhança realista descarta tal possibilidade. Os quatro personagens principais fazem um acordo, segundo o qual suas filhas se casam com algum deles, ao mesmo tempo em que todos os homens possam desfrutar de quem quiser. Forma-se, portanto, um grupo onde há um quadrado (se é que existe esse termo) amoroso espelhado, fazendo com que cada libertino seja genro, sogro e “traidor” um do outro. A descrição do castelo longínquo, onde se passa a ação principal, também configura um imaginário completamente díspar do trecho da citação. Progressivamente, tudo se faz como um conto de fadas subversivo, no qual os algozes são figuras mitológicas – a descrição, principalmente física, dos personagens fogem explicitamente ao realismo – e o cenário também. As vítimas, seguindo a mesma lógica, são ideais em seus papéis. Só reagem, quando a reação pode servir de algum modo ao torturador. O jogo opressor-oprimido de Sade tem as cartas marcadas, pois o final está pré-determinado, tal qual se dava no enredo das epopéias. </P>
<P>Há ainda outra transformação que se dá na relação entre o narrador e os personagens. No início, como se percebe na citação acima, há censura aos libertinos e por isso o livro parece ser de denúncia. Entretanto, com o desenrolar da narrativa, o tratamento dos personagens principais se neutraliza até que o narrador toma partido de sua filosofia. Os “heróis” começam com um argumento e ele completa o raciocínio. Do que se pode afirmar que esse último tem certa volubilidade, que provoca falta de credibilidade, intensificada nos momentos pontuais em que aparece a primeira pessoa. Mas a quê ela se deve?</P>
<P>Para responder a esse pergunta temos que perceber que, nesse texto de Sade, encontramos narrativas dentro de narrativas, advindas da fala das contadoras de histórias. Outro ponto importante é o fato de que a ordem e o detalhamento que são exigidos a elas aparecem também no narrador principal. Decorre disso que tais exigências em ambos os discursos produzem o mesmo efeito. O primeiro deles, como já foi apontado, é o simples deleite (não é à toa que o texto é uma obra de arte e não de filosofia), o segundo é a inspiração para agir: </P>
<P>“- Ah, não – continuou o duque -, sabes bem que há coisas que prometemos não fazer antes da altura em que elas vão ser narradas; sermos fodidos, por exemplo: antes de tal perpetrarmos devíamos esperar que nos fosse relatado, pela ordem estabelecida, algum exemplo dessa paixão; e todavia, todos sois testemunhas, meus senhores, de que passamos por cima de tudo isso. Há muitos prazeres privados que igualmente deveríamos evitar até à altura de nos serem narrados, mas que, apesar de tudo, toleramos, contanto que sejam praticados nos nossos quartos e alcovas.”</P>
<P>Na instância pública, a ação dos personagens deve seguir a ordem do discurso, seja o regulamento estipulado por eles ou as histórias das contadoras, que inspiram a imitação das paixões. Com o narrador, o mesmo acontece. Seu próprio discurso o seduz. Á medida em que vai narrando, se aproxima dos libertinos, até assumir igual filosofia. Se a ordem e o detalhamento são preceitos que regulam a narração, pode-se dizer que é a Razão, instrumento do Iluminismo, que serve de guia ao narrador. E nesse sentido, conclui-se que esse último se coloca como iluminista, e tal qual os personagens, acaba indo contra o movimento do qual faz parte. O imperativo do uso da Razão faz com que ele transforme romance em epopéia, história em fantasia, denúncia em exaltação e literatura em filosofia. Contudo, a volubilidade do narrador é um recurso mimético para a rigidez de um resultado estético geral. “Os 120 dias de Sodoma” apresentam o segundo gume da faca do Iluminismo, que corta as mãos dos burgueses, ao mesmo tempo em que o primeiro decepa as cabeças dos reis. </P>
<P>Um dos valores desse feito é ter sido uma descoberta, porque a ideologia oficial sempre iluminou apenas o gume de cima. Sade, porém, o faz com o de baixo, fomentando um Iluminismo das trevas; mostrando por meio de sua arte que, no mundo cuja paixão é a Razão, “o que se faz com palavras se desfaz com palavras”. Portanto, a denúncia da introdução, que revela o proveito tirado da crise da França por pessoas endinheiradas, conscientes da filosofia pautada na crença da autonomia do sujeito, perde-se no final. Perde-se, e não se perde. Não somente, porque, como no caso dos libertinos, provavelmente, esses aproveitadores sejam referência a pessoas existentes, que se idealizam no decorrer da narração. Mas sim, porque a maior denúncia de “Os 120 dias de Sodoma” é a que antevê o irracionalismo da racionalidade burguesa ou a paixão pela razão. </P>
<P>*Del Candeias é articulista do Aplauso Brasil e dramaturgista do espetáculo de Rodolfo García Vázquez , cuja estréia será em abril, que trata-se da adaptação de “Os 120 Dias de Sodoma”, de Sade </P>]]></Texto>

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