Na cidade do vencedor da Mega-Sena, todo mundo é suspeito

Todas as conversas em Fontoura Xavier transformaram-se em especulações e brincadeiras sobre o ganhador de quase R$ 120 milhões

Alexandre Haubrich, enviado a Fontoura Xavier |

Cidades pequenas costumam ter suas lendas, suas fofocas e seus causos. Fontoura Xavier teve na manhã desta quinta-feira seu repertório renovado. As histórias sobre o ganhador da Mega-Sena, que levou o maior prêmio único da história, quase R$ 120 milhões, se multiplicam pela cidade de 11 mil habitantes no interior do Rio Grande do Sul.

Um desconhecido homem de São Paulo que passou esta quarta-feira pela cidade em uma caminhonete Saveiro é uma das especulações. Segundo essa lenda, ele teria prometido enviar parte do prêmio aos funcionários da Lotérica Boa Sorte, única da cidade, onde o bilhete foi registrado. Mas é mais uma lenda, contada em rodas de bar ou de carteado. Pelo menos é uma lenda até que se confirme, como as outras.

Outro causo que as ruas contam diz que foi o irmão de um rapaz que vende bilhetes. Ou um pequeno agricultor da região, ou um comerciante. Segundo um funcionário de um posto de gasolina, a cada hora o favorito muda, e toda a cidade logo fica sabendo e cochichando.

Os olhares são de desconfiança, “todo mundo é suspeito”, diz Taffarel, frequentador de um pequeno mercado tocado por Nelci e Lucas. Taffarel lembra o goleiro campeão do mundo em 1994, e diz que é primo do ex-jogador. “Assim como boa parte da cidade, aqui é cheio de Taffarel”, explica rindo. Lucas diz que o vencedor já deve estar longe, mas ressalta que a criminalidade na cidade é quase nenhuma.

O começo de conversa é apenas com Lucas, mas vai chegando gente e todos vão opinando. O assunto interessa a todos, assim como a presença de um repórter de fora da cidade. O alvoroço com diversos veículos de comunicação chegando ao local é grande. Nelci diz que “dá pra comprar toda a cidade com o dinheiro”, e todos concordam que a pessoa já deve estar longe, mas se unem também na torcida para que a cidade inteira ganhe com o fato: “tomara que daqui a uns cinco anos quem ganhou volte e invista um pouco aqui”, diz Lucas, ao que todos assentem esperançosos.

A possibilidade de que o vencedor seja alguém que mora na zona rural e ainda não saiba que está rico também é levantada. Boa parte da população de Fontoura Xavier mora nessas regiões e, segundo Lucas, recebe Bolsa Família. “Tem muita gente que recebe Bolsa Família e, com um troquinho que sobra, joga na loteria”, diz.

A cidade é feita em grande parte de pequenas casas de comércio. Um bar na rua principal tem uma mesa de sinuca no centro, deixada sozinha por oito homens que jogam canastra com apostas altas. Notas de cinquenta circulam livremente em uma mesa encolhida num canto do boteco. Ali as conversas também trazem histórias sobre a Mega-Sena. O causo do paulista da Saveiro surgiu ali. Cada um que chega ao bar é recebido com a saudação “taí o cara que ganhou o dinheiro” e suas variações.

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O telefone do dono do bar toca, e ele diz que “não, não fui eu quem ganhei”. Aparecem comentários na mesa de canastra sobre os parentes que ligaram durante o dia para saber das novidades. Parentes sumidos reapareceram.

Outro boato que circula na cidade é de que o prefeito teria orientado os secretários a tentarem descobrir quem é o novo milionário, que ganhou mais do que PIB da cidade, que é de R$ 81 milhões, e oito vezes e meia a arrecadação anual da Prefeitura, de R$ 14 milhões. O interesse do prefeito, que para alguns pode parecer prova de que ele não sabe quem ganhou, para outros parece despiste. Há quem diga que foi algum familiar seu.

“Há quem diga”, “diz-se por aí”, “especula-se”... Essas são as expressões adequadas. Tudo na cidade cochicha. As paredes olham desconfiadas, quase há histórias para vender nas prateleiras dos mercados. Os bares suspiram de dúvida a cada vivente que cruza a porta. É possível que ninguém na cidade jamais fique sabendo quem é o novo milionário. Mas as lendas sobreviverão.

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