Xerife do Arizona ama publicidade e é alvo de processos nos EUA

Amante da controvérsia, Joe Arpaio diverte-se com humilhações a presos e personifica o ditado 'Falem mal, mas falem de mim'

Leda Balbino, enviada a Phoenix, EUA |

O xerife Joe Arpaio, de 78 anos, ama a própria imagem. E é por isso que estampa sem pudor fotos suas com cães de estimação e em frente de Tent City, prisão montada em barracas ao ar livre , nos cartões-postais que os detentos usam para se comunicar com as famílias.

“Tirei deles as cartas. Se querem escrever para os parentes, dou cartões-postais”, disse ao iG em seu escritório no centro de Phoenix, dando as costas para remexer em um armário. “Tive essa ideia há dois anos. E, veja, pus minhas fotos, para que quando os presos os enviem às famílias eu seja visto”, afirmou, mostrando finalmente o que havia buscado atrás da mesa.

A imagem que criou como autopromoção, nos 17 anos à frente do policiamento no Condado de Maricopa (que inclui Phoenix), é de o “xerife mais durão da América”, nada tolerante em relação ao crime e de nenhuma maneira afeito a imigrantes ilegais vivendo impunes no Estado do Arizona.

Arpaio gosta de controvérsia e personifica o ditado “Falem mal, mas falem de mim”. De volta de uma viagem a Las Vegas, Nevada, onde foi promover uma candidata republicana ao Senado cujo nome teve dificuldade de puxar pela memória – “não Sharron Palin, mas Sharron Eagle... Sharron Angle, Angle" –, Arpaio lamenta que não tenham se repetido as manifestações de oposição de quando visitou a capital do jogo há cinco meses.

“Foi muito triste. Antes costumava haver 200 pessoas que me odiavam, gritavam contra mim. Em qualquer lugar dos EUA que eu fosse era assim. Aqui, na frente deste prédio houve protestos por dois anos, com os manifestantes me chamando de nazista, Hitler. Mas não houve nada disso ontem à noite.”

A falta de quórum pode talvez ser explicada por um desgaste da sua imagem. Apesar de ainda ser temido por migrantes sem documentos que o veem como uma ameaça ao seu livre trânsito em Maricopa, Arpaio virou uma espécie de piada para alguns.

“Ih, talvez seja uma batida do xerife”, ironizou James Garcia, diretor de comunicações da Câmara Hispânica de Comércio do Arizona, ao ouvir o som ensurdecedor de helicópteros enquanto tomava um café. “Você sabe, né? Joe Arpaio acha que é o John Wayne”, disse, referindo-se ao ganhador do Oscar que virou símbolo de masculinidade e um ícone americano por suas atuações em filmes de caubóis de Hollywood.

A megalomania se aplica a ações contra ilegais, algumas com um quê cinematográfico. Em uma operação no El Gran Mercado – feira em Phoenix onde latinos vendem de sapatos a alimentos nos fins de semana –, ele usou 30 vans e 100 policiais para prender, bem... cinco hispânicos. Destes, segundo o gerente Hector Padilla, só dois eram ilegais, enquanto outros dois eram menores de idade.

Outros em Phoenix reviram os olhos quando ouvem o nome Arpaio, como se ele fosse o exemplo da intolerância travestida de lei no Estado. “Ele não é tão popular assim”, disse a educadora Noemi Cortes, quando questionada sobre se ele teria chances se tivesse concorrido ao governo do Arizona.

O xerife discorda. “Eu poderia ser, mas não quero.” Mas em março o senhor não disse que tinha a intenção de concorrer ao governo? “Não quero. Se quisesse, seria eleito.” E em 2012? Será reeleito para seu cargo? “Pela sexta vez? Claro que sim. Já arrecadei mais de US$ 4 milhões e sou apenas um pequeno xerife, não concorro para um alto cargo. Todos me conhecem ao redor do mundo.” E, para provar que suas fronteiras não se limitam ao inglês, disse em espanhol: “Todo mundo, hãããã...”

nullA reputação mundial foi construída com base em projetos como Tent City, onde os presos ficam em barracas do Exército faça chuva ou o sol de 45ºC do verão do Deserto de Sonora. Segundo Arpaio, a ideia para a cadeia foi lançada em 1992, na campanha para seu primeiro mandado como xerife. “Eu mesmo dormi duas vezes nas barracas, só para mostrar que, se consegui, os presos também conseguiriam”, afirmou. Mas ele faz uma ressalva: “Mas dormi no inverno, porque no verão é muito quente.”

Para quem pensa que a ideia para Tent City surgiu por causa da superlotação das cadeias, o xerife esclareceu: “A maioria das pessoas pensa isso, mas quando concorri não sabia se as prisões estavam lotadas.” Depois, acendeu um pequeno luminoso rosa colado em uma placa de promoção de Tent City. “Com as tendas queria que todos soubessem que haveria vagas independentemente de as prisões estarem lotadas. Então pus o sinal de ‘Vancancy’ há 14 anos, 24 horas por dia.”

Os prisioneiros nas seis prisões sob comando de Arpaio – incluindo Tent City - são “desestimulados a roubar as roupas quando libertados” ao ter como única opção meias, cuecas, toalhas e lençóis cor de rosa. “Ninguém veste pink. Se virem essas cuecas à venda nas ruas, saberão que são nossas. Mas minha verdadeira razão é: os presos odeiam pink”, afirmou rindo, retirando da gaveta uma algema da mesma cor.

Outra coisa que o faz cair na risada é contar quais refeições há por dia em seu sistema prisional. A primeira é o brunch, uma mistura de café da manhã com almoço em que são servidos sanduíches, manteiga de amendoim, laranjas, cookies e biscoitos salgados. À noite, a janta. “Refeições duas vezes por dia, não três”, enfatizou.

A comida que serve em suas cadeias é uma espécie de punição? “Claro que sim. Mesmo nas prisões do Brasil há esse tipo de punição, não?”, disse, lembrando que os detentos também não têm acesso a sal e café, e são proibidos de ler revistas masculinas e de fumar.

Por causa das condições de seu sistema prisional, em meados de outubro uma corte retomou uma ação de 2008 e afirmou que Arpaio violava os direitos constitucionais de detentos à espera de julgamento ao abrigá-los em cadeias lotadas, sob “temperaturas perigosamente altas” e por alimentá-los de forma inadequada. O xerife apelou da decisão.

Mas esse não é a única ação judicial que Arpaio, acusado por ativistas de usar critérios raciais para conduzir batidas anti-imigrantes em bairros latinos, enfrenta. Em 2 de setembro, o Departamento de Justiça dos EUA o acusou de não cooperar com uma investigação sobre alegações de discriminação e de buscas e apreensões ilegais feitas por seu escritório. Além disso, o xerife é alvo de outra investigação criminal - também federal – sobre potencial abuso de poder.

Arpaio dá de ombros para as acusações. “Você me vê tremendo?”, indagou, ao perceber que haveria uma pergunta sobre os processos.

Quando questionado se ficava tentado a quebrar a lei para combater o crime e a imigração ilegal, respondeu: “Não desrespeito a lei." No fim, usou a fama que tanto buscou como última justificativa para a suposta perseguição. “Quando você tem muita projeção, e faz as coisas um pouco diferentes, torna-se alvo dos tiros.”

    Leia tudo sobre: euaarizonaimigraçãojoe arpaio

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG