Reforma de imigração deve continuar só como promessa nos EUA

Presidente Obama retoma tema de olho no voto latino, mas divisão política impede mudança no sistema, dizem especialistas

Leda Balbino, iG São Paulo |

Em meio à polêmica causada pela lei de imigração do Arizona , que entrou parcialmente em vigor na quinta-feira, o presidente americano, Barack Obama, pareceu dar sinais de que buscaria uma reforma integral de imigração nos EUA. Mas, segundo especialistas ouvidos pelo iG , são praticamente nulas as chances de que essa promessa – feita primeiramente na campanha eleitoral de 2008 – saia do papel.

Apesar de haver consenso entre os partidos Democrata e Republicano sobre a necessidade de mudar as leis federais de imigração, os EUA não conseguem alcançar um consenso sobre como levá-la adiante. Durante três anos, o ex-presidente George W. Bush (2001-2009) pressionou por um projeto de lei bipartidário, mas desistiu em 2007 depois de os eleitores rejeitarem qualquer caminho para legalizar os imigrantes sem documentos. O assunto foi ressuscitado em abril, quando o Arizona aprovou sua lei .

Um dos principais motivos para a impossibilidade de avanço da reforma são as chamadas “eleições de meio de mandato” de novembro. Com o fim da euforia que acompanhou Obama na campanha de 2008, quando os democratas confirmaram uma ampla maioria legislativa, há indicações de que o descontentamento populacional em relação à recessão econômica e ao desemprego quase em 10% devem impulsionar o oposicionista Partido Republicano a obter grandes avanços no Congresso neste ano.

Segundo média de pesquisas publicada pelo site Real Clear Politics na quinta-feira, os democratas podem perder 7 de suas 59 cadeiras no Senado de 100 membros, com os republicanos ficando com 47. A cadeira restante ficaria para um candidato independente da Flórida. O Senado tem um terço de suas cadeiras em disputa em novembro.

Na Câmara dos Representantes de 435 membros, que é renovada totalmente a cada dois anos, a possibilidade de conquistar a maioria de 218 cadeiras é incerta. De acordo com o Real Clear Politics, os democratas obteriam 202 e republicanos 201, com a disputa pelos outros 32 assentos estando em empate técnico.

Se isso se confirmar, Obama deve encontrar ainda mais dificuldades para implementar o resto de sua agenda, incluindo a reforma de imigração, até o fim de seu mandato, em 2012.

“Como os republicanos conquistarão várias cadeiras no Congresso, há poucas chances de que uma reforma migratória seja adotada nos próximos dois anos”, afirmou ao iG o acadêmico Joseph Figueroa, do Centro de Política da Universidade da Virgínia.

A opinião é compartilhada por Jan C. Ting, da Faculdade de Direito Beasley da Temple University, na Filadélfia. “Obama não tem apoio entre os republicanos nem apoio unânime de sua própria base democrata”, disse. “Não haverá reforma da imigração neste ano, que é eleitoral, nem em 2011 – por causa do avanço republicano no Congresso – nem em 2012, ano de eleições presidenciais. A partir de 2013 dependerá de quem for eleito”, afirmou.

Segundo Ting, quando Obama defendeu uma reforma integral do sistema durante discurso em 1º de julho, cinco dias antes de o Departamento de Justiça processar o Arizona por sua controvertida lei de imigração, queria mobilizar os eleitores hispânicos para as eleições ao perceber que seu apoio nesse grupo está em queda.

Segundo pesquisa da Associated Press-Univision publicada na terça-feira, a situação econômica dos EUA e a promessa não cumprida de reformar o sistema migratório fazem 43% dos latinos acreditar que Obama não está respondendo a suas necessidades.

“Obama espera conseguir transferir para os democratas os votos que conseguiu em 2008”, afirmou Ting, referindo-se ao fato de Obama ter conseguido 67% do voto latino na disputa presidencial.

Figueroa, da Universidade da Virgínia, vai mais longe. Para ele, os objetivos políticos do presidente americano não se restringem às eleições de meio de mandato. “Obama reconhece que precisará de um grande comparecimento eleitoral dos hispânicos em 2012 para conseguir ser reeleito”, afirmou.

Mas nem todos são tão céticos em relação às motivações do presidente americano. Para o especialista em imigração Motomura Hiroshi, professor da Faculdade de Direito da Universidade da Califórnia (UCLA), o discurso de 1º de julho é só mais um exemplo da “profunda compreensão” de Obama em relação aos assuntos que importam para a sociedade americana. “O discurso é consistente com sua abordagem geral para questões como a reforma da saúde e a regulação financeira, que foram aprovadas neste ano no Congresso”, afirmou.

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