Com militarização da fronteira, centenas de imigrantes ilegais morrem ao tentar entrar nos EUA por caminhos arriscados do Arizona

Ao tentar atravessar ilegalmente o deserto na fronteira entre o México e o Estado americano do Arizona sob um verão inclemente de 45ºC, alguns imigrantes podem ter a sorte de encontrar pequenos oásis fantasiados de garrafas d’água com mensagens como “Vá com Deus”, “Boa Sorte” ou “Água Limpa”.

Os galões de água, doados por residentes de Phoenix ou Tucson, são uma iniciativa da ONG No Más Muertes, que durante junho a setembro (verão no Hemisfério Norte) mantém um acampamento a 18 quilômetros da divisa mexicana para tentar evitar que morram de sede muitos dos que arriscam a travessia em busca de melhores condições econômicas nos EUA.

O grupo foi fundado por líderes religiosos e ativistas sociais de Tucson em 2004, após terem sido registradas, entre outubro de 2002 e setembro de 2003, 205 mortes na fronteira de 563,2 km do Arizona com o Estado mexicano de Sonora.

Segundo Laura Ilardo, voluntária da organização em Phoenix, o número representou um recorde em relação ao total de vítimas dos anos anteriores, o que incentivou diversos líderes a se unir “para fazer a diferença”.

De acordo com a Coalizão de Direitos Humanos, outra organização cuja base também é no Arizona, houve 253 mortes na fronteira do Estado entre outubro de 2009 e setembro deste ano, o segundo maior índice registrado na região – o recorde geral é do período 2004-2005, quando se contabilizaram 282 vítimas.

Mortes no deserto entre Arizona e Sonora

Veja variação do número de mortes de imigrantes que tentam atravessar a fronteira

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ONG Coalizão de Direitos Humanos

Para ambas as organizações, a causa do aumento das mortes, que em 1994 foi de apenas 14, deve-se à crescente militarização da fronteira entre os EUA e o México por meio da construção de uma barreira e do posicionamento de membros da Guarda Nacional.

Muro no Arizona

Desde 2005, o governo dos EUA gastou US$ 2,4 bilhões para construir o muro de quase 1.040 km, que cobre cerca de 30% dos 3.219 km entre os EUA e o México. Quase metade da barreira está no Arizona, que é o principal portão de entrada da imigração ilegal nos EUA.

Para escapar da vigilância, os imigrantes optam por percorrer áreas desérticas mais perigosas, onde podem morrer de calor no verão ou de frio no inverno. Uma dessas regiões fica perto da pequena comunidade de Arivaca, de 1 mil habitantes, onde o No Más Muertes, que começou suas atividades com patrulhas no Deserto de Sonora do Arizona, inaugurou um acampamento no verão de 2004.

O Deserto de Sonora cobre boa parte dos Estados do Arizona, nos EUA, e de Sonora, no México
Arte/iG
O Deserto de Sonora cobre boa parte dos Estados do Arizona, nos EUA, e de Sonora, no México

Segundo a voluntária Laura, a cidade foi escolhida por ser um corredor de passagem e por ser a região onde ocorre o maior número de mortes. “Outro local perigoso é a oeste de onde ficamos, mas não temos acesso”, disse.

Nos quatro meses do verão, os voluntários caminham a pé ou andam de carro por trilhas reconhecidamente usadas pelos imigrantes ilegais para procurá-los e ver se precisam de remédios ou assistência médica. Durante os percursos, também espalham os galões de água para evitar as mortes por sede no deserto. “Neste ano tivemos 500 voluntários em Arivaca. Eles vêm de todo o país e normalmente ficam conosco por uma semana”, afirmou Laura.

Além da atividade no acampamento, o No Más Muertes tem centros migratórios em Nogales e Agua Prieta, duas cidades de Sonora, onde os mexicanos deportados pelos EUA recebem tratamento médico, alimentos e água. Nesses locais eles também têm ajuda para recuperar seus pertences, no caso de terem ficado presos em centros de imigração americanos.

De acordo com Laura, as atividades do grupo se concentram no verão por causa das altas temperaturas, quando acontece a maioria das mortes. Mas, no inverno, o acampamento não fica abandonado, disse o também voluntário Christopher Martinez. Coordenadores do No Más Muertes em Tucson muitas vezes realizam atividades no local no fim de semana ou por um período de três dias.

Organização

Para financiar suas ações, o grupo conta com o auxílio de voluntários que atuam diretamente em Tucson e Phoenix, onde organizam eventos para receber doações de água e de dinheiro e para atrair um maior número de participantes para o movimento.

Em 19 de outubro, 14 deles se reuniram na Igreja Batista Unida da Avenida Central, em Phoenix, para organizar festas e outras atividades em prol do grupo. Em meio à maioria de partidários americanos do grupo, a imigrante ilegal Marta Patrícia, do México, sugeriu que os hispânicos pudessem auxiliar em uma festa de arrecadação de fundos por meio da preparação dos alimentos.

A salvadorenha legalizada Linda Herrera, do grupo Unidos no Arizona, apoiou a sugestão. “Como os hispânicos não têm muito dinheiro, é importante que possam contribuir com seu trabalho”, afirmou. Após a sugestão das duas, os participantes concordaram em desistir de fazer encomendas em um restaurante.

Para arrecadar fundos, Tony Herrera, marido de Linda nascido na Califórnia, sugeriu vender na internet por US$ 80 cruzes que esculpiu e nas quais propôs adicionar o nome da ONG. Do dinheiro arrecadado com a venda de cada cruz, US$ 60 iriam para o No Más Muertes e US$ 20 pagariam os custos dos materiais, disse.

Os voluntários se mobilizam por acreditar que as desigualdades econômicas e sociais entre EUA e México e a má concebida política de fronteira americana não conseguem impedir o contínuo fluxo de imigrantes no deserto. Além de querer reafirmar a necessidade de uma reforma migratória que possibilite a legalização de parte dos 10,8 milhões de imigrantes sem documentos dos EUA, os voluntários também buscam contribuir com ações humanitárias e com a conscientização dos outros.

Um exemplo disso é uma mensagem deixada nos galões de água que não se dirige aos imigrantes. Segundo Martinez, o recado vai para proprietários de ranchos e para grupos de supremacia branca que vigiam a divisa e às vezes cometem ações para dificultar ou impedir a travessia dos imigrantes. “Por favor, não destruam esse recipiente de água”, diz a mensagem, que completa: “Ele pode salvar uma vida.”

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