Leis migratórias e crise econômica expulsam hispânicos do Arizona

Cerco a ilegais começou em 2000 e teve ápice com lei deste ano, que é contestada na Justiça e vem prejudicando economia do Estado

Leda Balbino, enviada a Phoenix, EUA |

No Gran Mercado da capital do Arizona, Phoenix, as boas-vindas são dadas por corredores vazios e estandes sem compradores. Em uma rápida caminhada pela feira hispânica, que funciona nos fins de semana para a venda de produtos que vão de chapéus típicos, calçados e roupas a alimentos e bebidas, fica claro que no local já houve um número bem maior de comerciantes. Os espaços vagos e a falta de público denunciam: muitos latino-americanos partiram.

Apresentado como “Um pedacinho do México em Phoenix”, o Gran Mercado tem atualmente 20% de sua capacidade utilizada, de acordo com o gerente-geral Hector Padilla, de 40 anos. “Antes havia 700 a 800 vendedores, mas atualmente trabalham aqui entre 100 e 200”, afirmou o guatematelco, que começou a gerenciar a feira em 1994, três anos depois da inauguração.

Com a queda na arrecadação de aluguéis dos estandes e no número de visitantes - de mais de 2 milhões para 520 mil por ano -, o proprietário americano do Gran Mercado demitiu 300 empregados, contou Padilla. Segundo ele, o prejuízo anual é de US$ 10 milhões desde 2008.

Recessão

O ano é sintomático por marcar o início da recessão americana e a entrada em vigor no Arizona da Lei de Sanções ao Empregador, que determinou a emissão de multas contra empresários que empregassem imigrantes ilegais.

Aprovada em 2007 para começar a ser aplicada em 1º de janeiro do ano seguinte, a legislação fez com que muitos migrantes, em sua maioria hispânicos, ficassem sem possibilidade de sustento. “Perto do Natal de 2007, conheci um eletricista que havia sido demitido com outros 89 colegas. Seu chefe resolveu pôr todos na rua ao saber da nova lei”, contou James Garcia, diretor de Comunicação da Câmara Hispânica de Comércio do Arizona.

A recessão que se seguiu à crise econômica de 2008 também foi outra causa de desemprego. Como um em cada três postos de trabalho no Arizona relacionava-se à construção civil e à habitação, com grande parte dessas vagas sendo ocupadas por hispânicos, o colapso do setor em todo o país atingiu desproporcionalmente o Estado. “Desde 2007, estima-se que o Arizona tenha perdido cerca de 350 mil empregos (equivalentes a 5,3% da população de 6,6 milhões). Destes, 20% a 22% provavelmente foram no setor de construção”, afirmou Garcia.

Sem muitas chances de conseguir emprego, pelo menos 100 mil imigrantes ilegais deixaram o Estado em 2008, segundo estimativa do Departamento de Segurança Interna dos EUA.

Vendas

A diminuição no número de latino-americanos foi sentida pelos vendedores do Gran Mercado, onde Padilla diz que só trabalham migrantes legalizados. “Há dois ou três anos, ganhávamos US$ 3 mil por fim de semana. Agora, são uns US$ 400”, afirmou o vendedor mexicano Manuel Soto, de 49 anos, que chegou aos EUA com 13 e teve seu status regularizado cinco anos depois.

Há 40 anos no país, Francisco Medina relata situação similar. “Em 2001, cheguei a faturar US$ 17 mil por fim de semana. Agora ganho US$ 300”, disse o mexicano de 67 anos, que comerciava CDs e passou a vender salgadinhos com a queda gradual de movimento. “Há até rumores de que vão fechar a feira.”

Segundo ele, que conseguiu a cidadania americana cinco anos depois de chegar aos EUA, o golpe definitivo contra a presença de hispânicos no Estado foi a controvertida lei de imigração SB1070, que propõe a apropriação de competências federais pelo Estado para prender ilegais. “Depois dessa legislação, tudo acabou”, afirmou.

Com medo, muitos voltaram ao México ou se mudaram para outros Estados antes de a medida entrar parcialmente em vigor , em 29 de julho. Sem números oficiais de quantos partiram por causa da lei, que será defendida pelo governo da republicana Jan Brewer em audiência de apelação prevista para este mês , o ex-deputado democrata Ben Miranda diz que um indicador são as escolas públicas. “Houve uma queda de 10% nas matrículas de Phoenix para o início do ano letivo, em agosto”, contou.

Cerco à imigração ilegal

Crescendo de 50% a 60% a cada dez anos, a proporção de hispânicos no Arizona passou de 12% a 14% há 20 anos para mais de 30% da população atualmente, disse James Garcia. Segundo o diretor de comunicação da Câmara Hispânica de Comércio do Arizona, estimativas conservadoras indicam que metade da população do Estado será hispânica até 2035.

Para ele, é essa transformação demográfica que vem estimulando um cerco aos imigrantes. “Os habitantes brancos e conservadores do Arizona, com uma visão específica do que significa ser americano, temem desnecessariamente uma tomada de controle do Estado por essa população e uma eventual mudança do sistema”, afirmou.

As medidas anti-imigração começaram em 2000, quando o Arizona tornou o inglês língua oficial, proibindo o ensino do espanhol nas escolas. Lei similar está em vigor na Califórnia e Minnesota e foi aprovada em Oklahoma paralelamente às eleições legislativas de terça-feira .

Em 2006, o Estado determinou que pessoas que não consigam comprovar serem americanos paguem três vezes mais para frequentar uma universidade. Dois anos depois, além da Lei de Sanções ao Empregador, limitou o acesso aos serviços públicos exclusivamente para cidadãos. E, neste ano, finalmente veio a SB1070, considerada a legislação mais dura contra a imigração ilegal nos EUA.

Com o propósito em parte de proteger os empregos do Estado contra a onda latino-americana, a medida vem tendo o efeito contrário. Por causa da má repercussão, o Estado enfrenta boicotes de cidades, grupos e mesmo de artistas de todo o país.

Perdas

Segundo a Associação de Hotéis e Acomodações do Arizona, até agora perderam-se ao menos 40 convenções e US$ 15 milhões. Os republicanos, por exemplo, ao avaliar qual melhor lugar para abrigar a convenção do partido para as eleições presidenciais de 2012, optaram pela Flórida.

“Só esse evento traria de US$ 6 milhões a US$ 8 milhões à economia local”, disse Garcia. “Mesmo que não entre totalmente em vigor, estou convencido de que o Estado deve perder pelo menos US$ 500 milhões no curso de três a cinco anos pelo dano causado pela lei.”

Apesar de mais difícil de aferir em números, a partida dos imigrantes sem documentos, que mesmo ilegais pagavam impostos ao consumir produtos e alugar um apartamento, também contribui para o atraso da eventual recuperação econômica do Estado.

“Em 2007, o poder de compra hispânico no Arizona era de US$ 31 bilhões. Agora deve ser de 38 bilhões”, afirmou o diretor da câmera de comércio. “Então, quando há a intenção de se livrar dessas pessoas, muda-se a dinâmica e o Estado abre mão de parte de sua economia”, disse Garcia, que defende uma reforma migratória que possibilite a legalização de parte dos imigrantes sem documentos .

Os efeitos das medidas anti-imigrantes e da crise econômica são explícitos na capital. Na motorizada Phoenix, o êxodo hispânico deixou calçadas, mercados, shoppings vazios. Negócios fechados ou por falir. Planejada para carros e não para pessoas, e com avenidas amplas, longas distâncias e escasso transporte público, a cidade parece espelhar a dificuldade do Arizona em integrar.

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