Famílias de imigrantes deixam o Arizona e sua nova lei

Comércios, escolas e mercado imobiliário são afetados pela fuga de imigrantes ilegais do Estado

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"Cuanto?" pergunta um jovem apontando para quatro garrafas de cera para carro em uma venda de garagem recente em um bairro na região leste de Phoenix.

A pergunta, espanhol para "Quanto custa?", faz com que Minerva Ruiz e Cláudia Suriano saiam atrás de sua amiga, Sílvia Arias, que está vendendo a cera. "Sílvia!"

Arias está fora do alcance da voz, assim Suriano improvisa.

"Cinco dólares", diz ela. "Cinco dólares". E outra venda é feita.

Enquanto as mulheres esperam por seus clientes sob o calor cada vez maior de uma manhã no Arizona, elas falam calmamente sobre comida e roupas, seus filhos e maridos. Elas são melhores amigas, mães que são vistas como exemplos de apoio na escola de ensino fundamental do bairro. Todas elas são imigrantes ilegais provenientes do México.

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Minerva Ruiz, imigrante ilegal, vende objetos pessoais para juntar dinheiro e deixar o Arizona

Elas estão vendendo tudo o que podem para juntar dinheiro para deixar o Arizona, como muitos outros, e escapar da nova rígida lei imigratória do Estado. A intenção da lei é inequívoca: ela pretende expulsar os imigrantes ilegais do Arizona e desencorajá-los de vir aqui.

Não há dados oficiais sobre quantos estão deixando o Estado por causa da nova lei. "É um dado realmente difícil de obter em números", disse Bill Schooling, demógrafo do Estado do Arizona. "Não é apenas a lei imigratória. Também há o problema de sanções aos empregadores e a economia. Como você separa os fatores de motivação?"

Mas evidências fornecidas por escolas e empresas em bairros fortemente latinos e por planos de saúde sugerem que um número considerável de imigrantes está partindo. Ignácio Rodriguez, diretor adjunto do Gabinete de Ministérios Hispânicos da diocese católica de Phoenix, disse que as igrejas da área também estão vendo muitas famílias partir.

Os sacerdotes estão "recebendo algumas pessoas que pedem uma benção, porque estão deixando o Estado para voltar a seu país de origem ou para seguir a outro Estado", ele disse. "A menos que se aproximem e peçam uma bênção, não saberíamos que estão partindo".

Ruiz, Suriano e Arias são como muitas famílias que enfrentam o que consideram um dilema cruel. Para se mudar, eles precisam tirar seus filhos da escola, desenraizar as suas vidas e procurar novos empregos em outros lugares. Mas permanecer significa estar sob o controle da lei imigratória mais rigorosa do país e correr o risco de ser capturado, preso e deportado. Eles também têm percebido uma crescente hostilidade em relação aos hispânicos em geral.

Na Rua Belleview Phoenix, de quase sete quilômetros, onde tanto Ruiz quanto Suriano moram, mais da metade dos apartamentos e casas já têm placas de "aluga-se".

Alan Langston, presidente da Associação de Proprietários de Imóveis do Arizona, disse que seu grupo não acompanha o número de imóveis vagos, mas que seus membros acreditam que serão afetados pela partida de pessoas por causa da nova lei.

As amigas dizem que a maioria das placas foram colocadas no final de abril. "Todo mundo está com medo", diz Arias.

As três amigas são as principais participantes de um grupo de pais na escola de seus filhos, disse Rosemarie Garcia, representante do Distrito Escolar Elementar Balsz. "Elas são o papel, a tesoura e a cola do grupo", disse Garcia. "Eu posso pedir qualquer coisa para elas". Com duas das mulheres se mudando, Garcia está preocupada com o futuro da escola. "Vai ser como um deserto aqui", ela disse. "É uma lacuna que nós teremos em todo o bairro, a comunidade e na nossa escola".

Ruiz, Suriano e Arias se conheceram três anos atrás em cafecitos, ou conversas de café, realizados na escola. Agora suas famílias se reúnem para churrascos e seus filhos brincam juntos. Arias, 49, e seu marido diarista, pagaram um coiote para chegar ao Arizona há 15 anos de Tepic, Nayarit, na costa centro-oeste do México. Seus filhos, com idades de 9, 11 e 13, são cidadãos americanos. "Eu não quero me mudar, mas não sabemos o que vai acontecer", ela diz.

Ruiz, 38, e seu marido, que fabrica móveis, vieram para os Estados Unidos de Los Mochis, no Estado mexicano de Sinaloa, cerca de seis anos atrás com vistos de turistas, que expiraram há muito tempo. Dois de seus filhos, com idades de 9 e 13 anos, estão aqui ilegalmente, enquanto o filho de 1 ano de idade nasceu nos EUA. A família está se mudando para Clóvis, Novo México, onde têm família. "É mais calmo lá", diz Ruiz.

Suriano, 28, e seu marido cruzaram o deserto há seis anos com seu filho bebê. O menino agora está com 9 anos e o casal tem um outro de 4 anos que nasceu nos EUA. Eles estão indo para Albuquerque, Novo México, onde não conhecem ninguém, mas já alugaram um apartamento e conseguiram um trabalho de carpintaria para ele. "Eu não quero ir", diz Suriano, enxugando as lágrimas. "Estamos deixando tudo para trás. Mas eu estou com medo que a polícia vai me pegar e me mandar de volta para o México."

Algumas pessoas no bairro não simpatizam. "Tchau, tchau. Vejo vocês mais tarde", diz Sarah Williams, 28, que mora a duas quadras de Ruiz e Suriano com sua tia e filhos de 5 e 7 anos. "Eles estão tirando as oportunidades dos americanos e cidadãos legais".

No entanto, Williams, diz que não apoia a nova lei do Arizona porque ela acredita que vai gerar discriminação racial. A lei ainda enfrenta vários desafios pendentes na justiça. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos também está revendo o estatuto das possíveis violações dos direitos civis, com possibilidade de um desafio judicial.

Os defensores da lei dizem que o Congresso não está fazendo nada de significativo a respeito da imigração ilegal e, por isso, é dever do Estado tomar uma atitude. Eles lamentam os custos sociais e a violência que dizem estar associados com a imigração ilegal. Os críticos da lei dizem que ela vai gerar discriminação racial e discriminação contra os hispânicos, além de prejudicar os laços entre a polícia e as comunidades minoritárias.

À medida que o debate se desenrola, dezenas de postos de saúde no Arizona dizem que muitos de seus clientes latinos não estão aparecendo para consultas agendadas. Eles dizem ter medo de sair de casa ou estão se mudando, disse Tara McCollum Plese, porta-voz da Associação de Centros Comunitários de Saúde do Arizona, que supervisiona 132 postos.

"Alguns chegam a ligar para os postos de saúde e perguntar se é seguro ir na consulta e se precisam de documentos", por causa da nova lei, ela disse. Pessoas doentes que evitam tratamento podem se tornar um problema de saúde pública, ela disse. "Estamos realmente preocupados com as doenças transmissíveis".

Se muitas pessoas deixarem de ir aos postos de saúde, ela disse, alguns serviços poderão ser cortados e os próprios postos, especialmente em áreas rurais, serão forçados a fechar. Escolas podem ter de demitir professores e cortar programas por causa de um número menor de alunos, dizem os educadores.

Pais tiraram 39 crianças da escola Balsz, cujo corpo discente é 75% formado por hispânicos, desde 23 de abril, dia em que a lei foi assinada pelo governador republicano Jan Brewer. No pequeno distrito de cinco escolas, os pais retiraram 111 crianças no total, disse o superintendente distrital Jeffrey Smith, que cita a nova lei como o fator principal para isso. Smith disse que cada aluno representa cerca de US$ 5 mil no financiamento anual para o distrito e uma queda de 111 estudantes representam um corte de financiamento US$ 555 mil.

Muitas escolas do Arizona observaram um declínio constante no número de estudantes latinos nos últimos anos, embora alguns superintendentes distritais digam que a queda atual é mais dramática. As escolas atribuem o número decrescente à recessão e as sanções impostas aos empregadores pelo Estado, estabelecidas em uma lei aprovada em 2007 que leva a suspensão e revogação de licenças de empresas que conscientemente contratam imigrantes ilegais. As empresas da área também dizem que estão sentindo o impacto das pessoas deixando o Estado.

Steve Salvato, gerente da empresa familiar Lavadora World Class, na esquina da rua Belleview, disse que os negócios caíram 30%. Salvato disse que a lavagem de carros, principalmente de clientes latinos, caiu e culpa a nova lei pelo recente declínio.

"Muitas pessoas fizeram as malas e foram embora", ele disse, acrescentando que um shopping center na rua costumava ser movimentado nos finais de semana. "Agora é como uma cidade fantasma". O supermercado Food City relata uma queda de 20% e 30% nos negócios.

Na venda de garagem, as três amigas colocaram mesas enfileiradas com bonecas Barbie, capacetes, filmes antigos e vídeos. A cesta da lavanderia está transbordando de brinquedos para crianças e um carrinho de compras está cheio de roupas. Elas estão vendendo pedaços de suas vidas.

As brincadeiras fáceis, principalmente em espanhol, logo se transformam em lágrimas quando são questionadas sobre a separação iminente. Ruiz e Suriano pedem que Arias siga com elas para o Novo México. "Elas são minhas companheiras", diz Suriano sobre as outras duas. "Nós fazemos tudo juntas".

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