Cerco a hispânicos tem reflexos na educação do Arizona

Estado tornou inglês língua oficial e determinou que imigrantes ilegais paguem três vezes mais para ir à universidade

Leda Balbino, enviada a Phoenix, EUA |

Na campanha presidencial de 2008, o candidato republicano John McCain visitou em 25 de agosto a Central High School, onde sua mulher Cindy havia completado o ensino médio. Mas o colégio antes “branco” e de classe alta agora era em sua maioria hispânico, o que fez o presidenciável perguntar, segundo Craig Pletenik: “Mas aqui ainda é uma escola normal?” Ao que ouviu de um professor: “Sim, continua uma escola normal. A única diferença é que são estudantes mais pobres e latinos.”

AP
A estrela de reggaeton porto-riquenha (à dir.) Daddy Yankee anuncia apoio ao então candidato presidencial republicano, John McCain, na Central High School, Phoenix
Juntamente com as outras 16 escolas que compõem o Distrito de Ensino Médio de Phoenix, a Central High School é um exemplo da mudança demográfica por que passou o Estado americano do Arizona nos últimos 15 anos – de majoritariamente branco para um número crescente de hispânicos.

De acordo com Pletenik, que é gerente de Relações Comunitárias do distrito escolar, enquanto em 1985 mais de 50% dos alunos eram anglo-saxões e o número de latino-americanos não chegava a 30%, atualmente 78% dos 25 mil estudantes das 17 escolas são hispânicos.

“Hoje apenas 6% dos nossos estudantes são brancos. Ou seja, 94% são hispânicos, negros, asiáticos, indígenas”, afirmou. “De todos os nossos estudantes, 60% vêm de casas onde a primeira língua é o espanhol”, disse.

Com o mesmo fenômeno acontecendo em outros distritos escolares do Estado, a reação à ascensão dos imigrantes e seus descendentes veio em uma série de medidas , incluindo uma aprovada em 2000, quando se estabeleceu o inglês como língua oficial do Estado. Lei similar está em vigor na Califórnia e Minnesota e foi aprovada em Oklahoma paralelamente às eleições legislativas de 2 de novembro.

“Na educação, isso significou que não poderíamos ensinar em outra língua que não o inglês. Tudo que oferecêssemos aos estudantes - livros, instruções, materiais nas classes – tinha de ser em inglês”, explicou a educadora Noemi Cortes.

Para a especialista em Aquisição de Idiomas do Distrito Escolar de Osborn, enquanto a medida foi justificada como a forma de fazer com que todas as crianças e jovens do Estado se tornassem adultos fluentes em inglês, haveria na verdade um desconforto de parte da população em ouvir nas ruas um idioma que não compreendem e ver anúncios escritos nessa língua. “Há o temor de que os hispânicos estejam tomando o Estado”, disse a porto-riquenha.

Imersão no inglês

Para acelerar a aprendizagem do inglês na categoria de English Language Learning (ELL, Aprendizagem da Língua Inglesa, em tradução livre), os alunos no ensino médio têm de cumprir quatro horas diárias de classes que incluam conversação, leitura, redação e gramática. “Se os estudantes serão submetidos a essa imersão no ELL, quando vão estudar matemática, ciências, arte? Eles não serão capazes de se graduar em quatro anos. É injusto segregá-los”, disse Pletenik.

O objetivo da intensidade do programa, afirmou o gerente de Relações Comunitárias, seria acelerar o processo para retirar os estudantes dessa categoria em curto prazo – e economizar dinheiro. “Cada distrito escolar do Arizona recebe anualmente US$ 6 mil por estudante. Para ensinar inglês, gastamos uns US$ 500 a mais”, calculou, acrescentando que muitos educadores avaliam que esse adicional não é suficiente para tornar alguém fluente no idioma.

Segundo Pletenik, o Estado também tornou os testes mais fáceis para garantir um maior índice de aprovação e limitou a um ano o financiamento do programa para cada aluno. “Apesar de os especialistas nunca dizerem isso, essas medidas são anti-imigração”, disse.

Outra ação que teve como alvo os imigrantes ou seus descendentes foi aprovada em 2006, obrigando-os a comprovar a cidadania para cursar uma universidade. Se não conseguirem, têm de pagar a mensalidade cobrada de quem vem de outro Estado – três vezes mais. “Em vez de desembolsar US$ 8 mil por ano, os que não têm documentos pagam US$ 22 mil”, afirmou.

Por conta disso, segundo Pletenik, há casos de estudantes promissores que tentam conseguir bolsas para estudar em outros Estados. “Estamos tendo uma fuga de cérebros. Os melhores estão deixando o Arizona para que tenham melhores oportunidades em outros lugares”, disse.

Curso bilíngue

Aproveitando-se de três brechas na legislação que estabeleceu o inglês como língua oficial do Arizona, o distrito de Osborn conseguiu manter um programa bilíngue para crianças do ensino fundamental, que neste ano completou 15 anos, contou a educadora Noemi.

A primeira brecha para matricular crianças cujo primeiro idioma não seja o inglês é a permissão para um ensino bilíngue se houver confirmação de que os alunos são oralmente proficientes na língua inglesa. “Então aplicamos um teste e, se as crianças se qualificam, podem ser matriculadas”, disse.

A segunda lacuna é o fato de que qualquer criança com pelo menos 10 anos pode participar do programa, independentemente de sua proficiência em inglês. “Por que 10 anos se tornaram a idade crítica? Suponho que seja porque alunos nessa faixa etária escrevem em sua língua materna, o que facilitaria a transição para o inglês”, afirmou Noemi.

De acordo com a educadora, a última brecha é usada raramente e refere-se a casos extremos de estudantes que não conseguem se adaptar a um ensino exclusivo em língua inglesa.

Dos 3 mil alunos do Distrito Escolar de Osborn, composto por seis unidades de ensino, 30% fazem parte do programa de ensino bilíngue de inglês e espanhol, cujo objetivo é alfabetizar as crianças e torná-las fluentes nos dois idiomas. Em todo o distrito, segundo Noemi, 64% dos estudantes são latino-americanos.

Para Pletenik, o modelo educacional bilíngue mantido pela Osborn é uma exceção. “Tudo é imersão no inglês por quatro horas; nunca se fala a língua materna.”

No entanto, considerando-se que os hispânicos representam mais de 30% da população do Arizona, com estimativas de que eles corresponderão a 29% dos habitantes dos EUA em 2050 , o sistema de ensino dos dois idiomas seria o mais adequado, segundo o gerente de Relações Comunitárias. “Por que não ser bilíngue, bicultural? O país se encaminha para isso de qualquer forma”, concluiu.

    Leia tudo sobre: euaimigraçãoarizonaphoenixeducação

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG