Brasileiras no Arizona comemoram decisão sobre lei de imigração

Moradoras do Estado relatam clima de tensão, apesar de mexicanos serem ¿alvo principal¿ da polêmica legislação

Luísa Pécora, iG São Paulo |

Brasileiras que vivem no Arizona comemoraram a decisão da juíza federal Susan Bolton , que na quarta-feira bloqueou as partes mais polêmicas da lei de imigração que entra em vigor no Estado nesta quinta-feira.

“A lei é racista, nazista, horrível”, afirmou ao iG a chef Patricia Ribeiro, que vive no Arizona desde 2001. “A juíza determinou que ninguém pode ser abordado apenas por sua aparência e isso já vai melhorar muito a situação por aqui.”

A legislação assinada pela governadora Jan Brewer em abril não assustou Patricia, que deixou São Paulo rumo aos Estados Unidos em 1993 com um visto de estudante, mas se tornou cidadã do país ao se casar com um brasileiro que já possuía dupla cidadania. Ela contou, porém, que o clima na região em que vive, Scottsdale, é de tensão.

“Até quem está em situação legal ficou com medo, principalmente quem tem pele morena e aparência latina”, contou. “Muita gente começou a andar com green card (residência permanente regularizada por lei) e passaporte na bolsa, para poder comprovar que está tudo regularizado.”

Pela legislação aprovada em abril, a polícia tinha autorização para abordar e exigir os documentos de qualquer pessoa considerada suspeita de estar nos EUA ilegalmente. Esse ponto do texto - um dos vetados pela juíza Bolton nesta quarta-feira – estimulou imigrantes ilegais a deixar o Arizona .

Em entrevista ao iG , a funcionária de uma clínica de saúde do Estado vizinho, o Novo México, afirmou que o número de pacientes vindos do Arizona aumentou desde a aprovação da lei. “Muitos imigrantes ilegais dizem ter mudado para o Novo México porque já não conseguem emprego no Arizona e porque se sentem mais seguros aqui”, contou a funcionária, que pediu para não ser identificada. “Eles estão com medo até de ir ao parque ou ao mercado.”

Novos tempos

A comunidade brasileira é pouco representativa no Arizona: entre 6 mil e 7 mil moradores, sendo 25% em situação irregular, de acordo com o cônsul honorário do Brasil, Brad Brados, em estimativa feita para a BBC. No total o Estado, cujos latinos correspondem a mais de 30% da população, tem 460 mil imigrantes ilegais.

Moradora do Arizona há mais de três décadas, a piauiense Josefa Oelfke, de 80 anos, afirma que a lei de imigração levou muitos amigos de volta ao Brasil. “Eu nem vejo mais brasileiros ilegais”, disse. “Todos estão indo embora.”

A brasileira, que nasceu em Angical, a 120 km de Teresina, diverte-se ao contar que há 32 anos conseguiu o green card rapidamente – e antes mesmo de chegar aos Estados Unidos. Após o casamento com o americano Charles Oelfke, Josefa pôde escolher qualquer lugar do país para viver e optou pelo Arizona. “Aqui é que nem o Piauí: quente e cheio de cacto”, justificou.

Apesar de gostar de viver em Scottsdale, Josefa lamenta a crescente rigidez nas leis imigratórias. Na década de 1990, quando Charles era cônsul honorário do Brasil no Arizona, Josefa “fazia o que podia” para ajudar brasileiros presos por estar nos EUA ilegalmente. Segundo ela, na época era possível pagar fiança e permanecer no Estado por alguns meses até que a situação fosse regularizada - e nesse período Josefa abrigava os imigrantes em sua própria casa. “Hoje não posso fazer isso, porque as pessoas são logo deportadas. Mas morro de pena, porque não são criminosos, é gente decente procurando emprego”, afirmou.

Mexicanos na mira

ARQUIVO PESSOAL
Elisabete de Souza viveu como imigrante ilegal na Flórida e no Arizona
Apesar de ter “cara de brasileira e sotaque forte”, Josefa diz que nunca foi discriminada no Arizona, nem mesmo depois da nova lei. “As pessoas notam que não sou americana, mas a atitude muda quando percebem que não falo espanhol”, afirmou. “O maior preconceito é contra os mexicanos. Para os brasileiros eles sorriem.”

A acupunturista Elisabete de Souza, de 56 anos, concorda. Curitibana, ela viveu 22 anos em situação ilegal nos EUA, sendo 12 deles na Flórida e 10 no Arizona, onde reside atualmente. “Aqui não sinto pressão, porque tenho aparência caucasiana e os principais alvos são os mexicanos”, afirmou. “Na Flórida vivia em pânico, porque eles buscam qualquer imigrante.”

Para passar pelos postos de controle nas ruas de Orlando, Elisabete contava com dois documentos conseguidos logo que chegou aos EUA, quando as normas não eram tão rígidas: um registro previdenciário e uma carteira de motorista. Sua situação só foi regularizada há dois anos, quando a filha americana completou 21 anos, o que automaticamente tornou seus pais aptos para receber o green card.

Elisabete lamenta que a lei de imigração, à qual se opõe, tenha estimulado amigos a voltar para o Brasil, fechando bares e lojas que mantinham no Arizona. Ela não tem receio de sofrer discriminação por causa da nova legislação, mas teme que uma guerra ou “um novo 11 de Setembro” provoque uma onda anti-imigração em todo o país. “Quando as Torres Gêmeas caíram, percebi que existe muito extremismo, muitos americanos que só confiam neles mesmos”, afirmou. “E o Arizona, infelizmente, expressa muito bem esse extremismo."

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