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Os Okubo, criatividade para ganhar a vida

14/06 - 10:48 - Ana Freitas, repórter do Último Segundo

Aos 87 anos, Tereza Okubo tenta colocar no papel toda história que lembra de sua família. Foi a ela que sua mãe, Rosa Okubo, contou segredos e repassou oralmente o que viveu no Japão e no Brasil em seus 102 anos de vida. Incentivada pelo filho, Tereza agora transpõe estas memórias para cadernos e folhas soltas que encontra pela frente quando as lembranças afloram.

Ana Freitas/Último Segundo
Tereza
Tereza Okubo, dona de segredos de família 
“Minha mãe foi uma mulher muito inteligente. Ainda no Japão, ela estudou mesmo quando se falava que mulher com estudos não conseguia casar. Quando era adolescente ela quis ir para um internato e fizeram até uma reunião familiar para decidir se ela poderia ir ou não. Lá, ela aprendeu costura, ikebana, técnicas de massagens, até inglês.

Já quando ela e meu pai decidiram vir para o Brasil, a família não gostou muito. Para garantir que eles iam voltar, meus avós ficaram com meus dois irmãos mais velhos - só meu irmão mais novo e eu, que tinha 4 anos, viemos com eles. Meus pais falaram que voltariam em 2 anos, mas minha mãe só voltou mais de 20 anos depois.

Lembro que na hora de embarcar no navio em Kobe, eu me agarrei a minha avó porque não queria me separar dela. A viagem demorou muito e todo mundo reclamava que não tinha o que fazer. A minha mãe não, ela dizia era que não tinha era tempo para fazer tudo, que estava sempre muito ocupada. Como sabia costurar, ela consertava os quimonos e até ensinava o alfabeto do português para os outros passageiros.

Aqui, meus pais foram trabalhar em uma fazenda perto de Bauru. No começo, a gente só comia arroz e feijão, não tinha verdura nem frutas. A minha mãe até aprendeu a montar cavalo para fazer compras nas fazendas vizinhas.

Dois anos depois de chegarmos, meu pai ficou doente e deixou a fazenda. Ele alugou uma terra na mesma região e começou a cultivar algodão. A minha mãe plantava mandioca, alfafa, arroz, tudo dava bem na terra. Mas um dia roubaram a fazenda e meus pais decidiram vir para São Paulo.

Eles pensaram, ‘a gente tem que fazer algo que ninguém faça’. Então fizeram uma casa de câmbio e de penhor. Mas muita gente penhorava coisas e não voltava pra buscar. Assim começamos a juntar em casa máquinas de costura, relógios e até jóias que não eram resgatados.

Foi assim que minha mãe passou a vender as mercadorias, depois suas próprias jóias. As pérolas, principalmente, chamavam muita atenção das pessoas mais ricas. Ela fez um negócio com um cultivador de pérolas lá do Japão para poder revender as peças aqui. Deu tudo certo e no começo da década de 30 ela abriu uma joalheria com seu nome, Rosa Okubo.

Todos os filhos daqui do Brasil acabaram se envolvendo com o negócio. Além de mim e do Júlio, meus pais tiveram mais quatro meninas, sendo que uma morreu ainda criança. Só depois da guerra que minha mãe voltou ao Japão. No aeroporto, ela nem reconheceu meu tio e chegou a dar uma cotovelada nele quando ele tentou ajudá-la a carregar as malas.

Depois eu também fui algumas vezes ao Japão, conheci meus irmãos, mas eles nunca vieram. Por aqui eu casei, tive filhos e agora vejo meus netos se formarem. Minha mãe viveu muito e pôde acompanhar a gente por muito tempo. A minha família é muito bonita, garças a Deus.”

Eles fizeram história no Brasil:

 

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