14/06 - 10:50 - Roberto Maxwell, do Japão, especial para o iG
Se alguém perguntar por Roberto Ishikawa em eventos relacionados com a cultura brasileira, em Tóquio, é bem provável que ninguém saiba de quem se trata. Porém, para muitos japoneses, o nome MC Beto é cheio de significados.
| Roberto Maxwell |
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| MC Beto, sucesso no Japão |
Nihongô umai desu ne (ele fala bem japonês, né?) é apenas um deles e vem de um fã que estava na fila para assistir ao Beto em ação com sua banda de rap, Tensais MCs. Ele é o líder da banda que é reconhecida como o primeiro grupo de rap formado por brasileiros migrantes e japoneses a gravar um álbum no Japão.
Como Ricardo Yamamoto, o MC Beto veio jovem para o Japão. Ele é mestiço, ou seja, no linguajar da comunidade nipo-brasileira, um de seus pais não tem origem japonesa. No caso do MC é a mãe, natural do estado de Pernambuco.
Beto tinha 17 anos quando desembarcou na pátria de seu pai, o qual viera alguns meses antes. Seis meses depois vieram as duas irmãs. A mãe, só alguns anos mais tarde.
"Nós viemos como dekasseguis mesmo. O objetivo era juntar um dinheiro e voltar pro Brasil. Mas, minhas irmãs entraram na escola, se adaptaram bem", conta ele. Sem a mesma oportunidade de estudar, Beto se tornou auto-didata no aprendizado da língua japonesa.
Ele procurava ouvir os colegas de fábrica e, sempre com um dicionário a tira-colo, tentava memorizava as palavras e seus significados. Foi na fábrica, também, que Beto conheceu os parceiros com quem formou os Tensais MC's. O MC era chefe da linha de produção onde trabalhava o colega que veio a se tornar um dos membros do grupo.
Certo dia, Beto faltou ao trabalho e, no retorno, foi se desculpar com o colega que teria ficado sobrecarregado. "Eu fui sincero. Eu disse para ele que tinha faltado porque fui a uma balada de rap e não consegui acordar a tempo", confessa o rapper. Sem saber, Beto usou a palavra mágica para conquistar a amizade do colega japonês. "Eu não sabia mas ele tinha uma dupla de rap", conta.
Não demorou para que Beto e um companheiro brasileiro com quem ele já estava produzindo alguns sons se encontrassem com o japonês da fábrica e o parceiro dele. Já no primeiro encontro, os quatro começaram a compor e formaram a base do que seria o Tensais MC's.
| Roberto Maxwell |
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| MC Beto com seus cds |
O CD e os shows trouxeram fãs e reconhecimento para o trabalho dos Tensais, mas isso não é o suficiente para que Beto e seus parceiros deixem o cotidiano das fábricas e possam viver de música. Tanto Beto quanto os outros membros do grupo têm outras atividades e, muitas vezes, a banda não pode fazer shows porque algum dos membros está trabalhando.
Mesmo assim, o Tensais MCs lançou um EP este ano, no qual as raízes brasileiras são ressaltadas nas letras e na mistura de samba com rap. "Eu queria ter feito essa mistura há muito tempo. Mas, naquela época, não tinha Marcelo D2 para provar que ela era viável" conta Beto.
E tudo acaba em... samba
A primeira vez que Everson Ottani veio ao Japão em 1992 foi marcada por grandes frustrações. "Fui para uma cidade na província de Saitama e não conseguia juntar dinheiro. Não havia muitas horas extras e o custo de vida era muito alto. Eu acabei desanimando", conta ele, que também não conseguiu fazer amigos porque não falava japonês.
"Eu falava inglês e achava que os japoneses também entendiam a língua", explica o que levava um balde de água fria toda vez que tentava se comunicar na língua de Shakespeare no país.
Totalmente decepcionado, Ottani decidiu voltar para o Brasil antes mesmo de completar um ano no Japão. Porém, a peripécia econômica que acabou com a paridade entre o dólar e o real acabou trazendo o rapaz de volta para o Japão. "Eu trabalhava com importados e o preço dos produtos subiu demais", lembra ele.
Com a queda das vendas, seu salário também foi pro ralo e a vinda para o Japão se tornou, novamente, uma alternativa atraente. "Com quatro meses de trabalho aqui [no Japão], eu podia comprar um carro popular no Brasil", explica Ottani, que embarcou para a Terra do Sol Nascente com a resolução de, além de ganhar dinheiro, aprender japonês e fazer amigos.
Apesar da longa jornada de trabalho, o rapaz se matriculou num curso de japonês na Associação de Intercâmbio Internacional da cidade de Hamamatsu. Por incentivo da professora, Ottani começou a tentar ler cartazes e outros avisos na rua. Foi num desses escritos que ele encontrou o que estava procurando.
"Eu vi na parede um cartaz escrito 'samba Brasil' e decidi ver do que se tratava", lembra ele. Ottani telefonou o número de contato escrito no cartaz e descobriu que era um convite para o primeiro desfile de carnaval que um grupo formado por brasileiros e japoneses estava organizando na cidade.
"Eu decidi participar", relembra ele, que, meses antes, havia mandado trazer do Brasil a fantasia de um dos Cavaleiros do Zodíaco com a qual participara de um baile carnavalesco pouco antes de se mudar pro Japão. "Eu queria participar de um concurso de Halloween que dava como prêmio um computador, mas a fantasia não chegou a tempo", explica Ottani, a existência de tal item em seu guarda-roupas. Vestido como um personagem de animê, ele acabou chamando a atenção dos membros do bloco.
"Sou do interior de São Paulo, não tinha samba no pé, mas fui cheio de alegria", relembra ele. "Eu sei que o pessoal gostou de mim e eu vi a chance de fazer amizade", prossegue, cheio de alegria ao recordar sua própria trajetória.
Empolgado com o novo grupo de amigos, Ottani decidiu aprender a sambar. Ele começou a fazer aulas com uma professora brasileira que mora na cidade e, em pouco tempo, já estava fazendo shows, encarnando a figura do malandro.
Três anos depois, o rapaz decidiu arriscar-se mais e começou a fazer aulas de mestre-sala. No carnaval seguinte, Ottani assumiu a função de segundo mestre-sala da Escola de Samba Hamamatsu Alegria Independente, cortejando uma porta-bandeira japonesa.
O ano seguinte veio com a promoção e ele passou a primeiro mestre-sala, posto que ocupa até os dias de hoje. "Tudo o que eu fiz aqui é graças ao samba", exagera Ottani. Mas, de fato, o rapaz pode creditar ao estilo o fato de ter descoberto uma nova forma de se relacionar com os japoneses e de aprendeu a língua e mais sobre sua cultura.
Tem sido um intercâmbio que, garante ele, não tem preço. "O samba me deu duas oportunidades no Japão: a primeira, e mais importante, foi de fazer amigos; a segunda, foi poder mostrar aos japoneses que o brasileiro é alegre, que está aqui para fazer o bem", conclui Ottani com a autoridade de um verdadeiro bamba.
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