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Dendê na Liberdade? Tome um chazinho que te explico já

14/06 - 10:48 - Ana Freitas, repórter do Último Segundo

A Liberdade é esquisita. Sempre ouvi dizer que o bairro era um pequeno Japão no Brasil. Eu nunca nem cheguei perto do arquipélago do outro lado do mundo e, quando estive na Liberdade pela primeira vez, nem sequer tinha saído do País.

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    Mas, de alguma forma, pelo que conhecia por meio da imprensa sobre o Japão e, pelos amigos, sobre a Liberdade, esperava encontrar ali uma certa organização, uma decoração harmônica, como é a fama da japonesa, limpeza e, sobretudo, japoneses.

    Mas não foi nem de perto isso que vi quando estive lá pela primeira vez. Naquele dia, há uns três anos, abandonei a idéia de que me sentiria no Japão menos de cinco minutos depois de sair do Metrô.

    Ana Freitas/Último Segundo
    O acarajé do seu Domingos
    O acarajé do seu Domingos
    Antes mesmo de subir a escada da estação, na principal praça do bairro, um cheiro familiar já me causou estranheza. Não era shoyu nem peixe, era dendê mesmo que pairava no ar. Segundos depois, dei de cara com uma baiana de acarajé ao lado de barraquinhas de artesanato em couro.

    Era um acarajé na Liberdade, o tal bairro tradicionalmente japonês de São Paulo. Qualquer coisa que encontrasse dali para frente não me surpreenderia mais, pois já tinha acabado toda idealização que eu fazia do lugar.

    As lanternas “suzuranto” que eu sabia que existiam estavam mesmo ali na Galvão Bueno, mas sujas e algumas quebradas; da mesma maneira, os letreiros bilíngües em algumas lojas tentavam ditar o clima japonês. Entrei em três lojas, fui atendida por chineses e coreanos e fui embora.

    Demorei a voltar por vontade própria. Por anos, fui apenas contrariada, acompanhando amigos turistas que não esperavam chegar ao Japão como eu, mas insistiam em conhecer o bairro. Mas a Liberdade me deu mais uma rasteira, e me obrigou a rever a segunda imagem que tinha feito dela, ao visitá-la pela primeira vez.

    Na verdade, resolvi dar uma segunda chance ao bairro após ver em janeiro o documentário “Liberdade”, dos cineastas Maurício Osaki e Miriam Ou. Nele, a história do bairro é narrada por personagens que fizeram do local um reduto inicialmente japonês e hoje oriental.

    O filme foi produzido através do projeto “História dos Bairros”, das secretarias de Cultura e Educação de São Paulo e lançado no ano passado (assista a um trecho do documentário). São apenas 26 minutos e algumas histórias, mas que me convenceram a rever meu preconceito e zerar minha relação com o bairro, dando-lhe uma nova chance para me conquistar.

    Tome um chazinho que te explico já

    Voltando à Liberdade diversas vezes nos últimos seis meses, percebi como o encontro de japoneses, chineses e coreanos deu ao bairro uma cara brasileira. Da mistura de culturas brotou um espírito receptivo que o diferencia de bairros tipicamente orientais de outros países. Já não procurava o Japão na Liberdade quando comecei a entrar em seus cantinhos e a abordar seus “personagens” para entender sua real história.

    Um dos primeiros lugares onde passei foi na barraquinha da baiana que tinha desencadeado todo o meu mal entendido há alguns anos. Lá encontrei o seu José Domingos, que hoje administra o “negócio” que era de sua mãe. Segundo ele, há 35 anos eles estão por ali, sempre nas feirinhas de sábado e domingo, que trazem uma multidão de visitantes para o bairro.

    Nem ele nem sua mãe são baianos, muito menos japoneses. Mas buscaram no bairro uma oportunidade para ganhar a vida e encontraram, como muitos outros.

    Ana Freitas/Último Segundo
    Barbearia
    Barbearia da senhora Mitsuko Kimura
    Sobre a senhora Mitsuko Kimura, dona de uma barbearia na rua Álvaro Campos, eu já conhecia um pouco porque ela é uma das personagens do documentário de Maurício Osaki e Miriam Ou. No salão, a simpatia do atendimento não vem apenas dela, mas também de suas funcionárias, que cortam cabelos, limpam ouvidos e fazem massagem nas costas de seus clientes.

    Quando perguntei se ela podia me contar mais sobre o bairro, Mitsuko me ofereceu um chá verde e falou da Liberdade com um notável carinho.

    Enquanto isso, as mãos não pararam para não atrasar o cliente, que tinha apenas aproveitado a hora do almoço para aparar a barba. “Tem gente que vem aqui só para tomar um chazinho e ler o jornal”, disse a primeira japonesa que conheci na Liberdade.

    Há mais de 40 anos que ela mora no Brasil e há 15 tem a barbearia, que já passou por dois endereços, mas sempre no bairro. “Já mudou tanta coisa por aqui. Antes era um lugar calmo, com muitos japoneses. Agora não, tem gente de muitos lugares e é esta movimentação a semana inteira”, comentou com seu português enrolado.

    Assim como ela, a dona Shizue Arai é uma das poucas comerciantes ainda japonesas do bairro. Proprietária de uma farmácia na rua Galvão Bueno, ela é de uma das famílias nipônicas que está há mais tempo no bairro. “Os chineses e os coreanos que tomaram conta do comércio por aqui. Mas se você procurar direitinho, ainda encontra muito japonês, principalmente os mais velhos”, disse.

    Ana Freitas/Último Segundo
    Família Arai, tradição na Liberdade
    Família Arai, tradição na Liberdade
    Dona Arai é uma das pessoas que se encontra na Liberdade dispostas a falar sobre o bairro e sua vida por ali. Quem tem a sorte de encontrá-la em um dia de pouco movimento na farmácia pode ter a oportunidade de convencê-la até a mostrar um álbum de fotos da família e da região mesmo antes da Segunda Guerra, quando os japoneses tiveram que deixar o centro da cidade.

    Não só Arai e Mitsuko estão ali sempre dispostas a um bom papo com quem se mostre interessado. Várias outras figuras podem contar com um pouco de esforço por causa da dificuldade com o português muito sobre a história do bairro.

    Mais do que as lanternas, que dizem que vão trocar um dia, que os templos budistas ou que o jardim japonês, são estas figuras o real patrimônio da Liberdade.





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