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Dekasseguis? Brasileiros no Japão não são mais temporários

14/06 - 10:49 - Roberto Maxwell, do Japão, especial para o iG

Dekassegui é uma palavra japonesa que não tem tradução para o português. Significa "trabalhar provisoriamente fora de seu local de nascimento". A palavra foi adotada pela colônia nipo-brasileira para designar aqueles que tomaram o rumo da Terra do Sol Nascente em busca de trabalho.

 

1990 é considerado o ano zero do que veio a se chamar movimento dekassegui. Foi o ano em que o Japão, o país com uma das mais duras leis de imigração do mundo desenvolvido, decidiu permitir a entrada de descendentes de japoneses com o fim de reunificar famílias e apresentar o país para os filhos dos antigos emigrantes.

Isso, na verdade, era o que dizia o governo. Na prática, a chegada de nipo-brasileiros (e de outros nipo-latino-americanos) buscava suprir de mão-de-obra a indústria do país e se apresentou como uma solução aos migrantes ilegais oriundos de países empobrecidos da Ásia.

Quase vinte anos depois, o número de brasileiros vivendo no Japão chegou a 312 mil, o equivalente a cerca de 1/3 dos descendentes de japoneses registrados nas estatísticas brasileiras. A grande maioria deles é formada por portadores do visto especial para descendentes de japoneses, seus cônjuges e filhos. Eles se concentram em regiões industriais nas províncias de Aichi, Shizuoka, Gunma, Shiga e Mie.

Porém, podem ser vistos em outras áreas do país, quase sempre associados a trabalhos de baixo status social, os quais receberam a denoninação de 5k (kitanai, ou sujo; kiken, ou perigoso; kitsui, ou penoso; kirai, ou algo do qual não se gosta; kibishi, ou algo que exige muito de alguém).

Dekasseguis?

Se, inicialmente, o objetivo desses brasileiros era vir para o Japão, juntar dinheiro e voltar para o Brasil depois de 2 ou três anos,  a situação hoje é diferente.

Pesquisa realizada por duas universidades da província de Shizuoka, com brasileiros residentes na cidade de Hamamatsu, aponta que, apesar de apenas cerca de 6% dos entrevistados afirmarem que pretendem viver no Japão em definitivo, pouco mais de 54% já estão no país há mais de cinco anos e quase 28% são portadores do visto de residência permanente.

Considerando que Hamamatsu é a cidade que possui a maior população de brasileiros no Japão e que, por conta disso, é considerada um pequeno universo deste grupo de imigrantes, os dados dizem muito sobre a situação atual dos chamados dekasseguis.

"Muitos ainda têm em mente que vão voltar em dois ou três anos, mas a tendência é a permanência", explica a professora Eunice Akemi Ishikawa, uma das envolvidas na pesquisa.

Hamilton Oshiro, de 44 anos, é de São Paulo e está em sua segunda estadia no Japão. A primeira vez foi em 1990, logo no início do movimento dekassegui. Ele ficou dois anos e só pensava na hora de retornar ao Brasil. A experiência não foi boa e Oshiro voltou ao lar com a intenção de nunca mais por os pés nas terras de seus antepassados. Catorze anos depois, porém, estava de passagem marcada para o Japão.

"O que eu ganhava [no Brasil] dava apenas para o meu sustento. Não conseguia ajudar meus pais, muito menos economizar", conta ele.

Mais amadurecido, segundo sua própria avaliação, Oshiro voltou com a idéia de juntar dinheiro, ajudar os pais e, de quebra, comprar uma casa. Desta vez, não estabeleceu prazos de retorno. "A idéia era trabalhar sem exagero, respeitando meus limites e aproveitar o máximo dessa oportunidade de trabalho que o Japão me oferece", diz ele. Porém, Oshiro reconhece que a estabilidade e o conforto trazidos pelo bom salário e pelo atual emprego o fizeram perder o foco.

Essa "perda de foco" ocorre com muitos dos migrantes brasileiros no Japão. "Muitos adotam um estilo de vida que não condiz com o de quem pensa em voltar em curto prazo", explica a professora Eunice.

Para ela, aquele perfil de migrante que junta dinheiro e volta capitalizado para o Brasil está em extinção. "As pessoas viram e viveram fracassos no retorno ao Brasil", mostra a pesquisadora, que destaca este como um dos pontos que ajuda a entender a fixação do dekassegui no Japão.

Há, também, a questão do emprego. "Apesar de a grande maioria dos brasileiros trabalharem sob contratos temporários, a existência de trabalho é permanente", explica ela. Outra situação é a daqueles que vieram para o Japão muito jovens, sem ter vivido experiências de trabalho e estudos no Brasil. "Esses jovens não conhecem outra realidade, senão as fábricas no Japão. Como vão conseguir empregos no Brasil?", questiona Eunice.

Família

"A outra grande diferença entre o início do movimento dekassegui e os dias atuais é a estrutura familiar, a presença de crianças aqui", explica a professora.

Os dados disponibilizados pelo governo japonês não informam a porcentagem de crianças entre os imigrantes. Porém, cidades com alta concentração de brasileiros, como a já citada Hamamatsu vêm sendo palco de uma série de projetos com o objetivo de integrar os filhos de brasileiros às escolas locais.

A tarefa não tem sido fácil. Muitos pais são reticentes em matricular seus filhos em escolas públicas no Japão. Pesquisas apontam que pais que pretendem retornar ao Brasil (mesmo que não tenham um prazo definido de estadia no Japão) preferem optar por matricular seus filhos nas chamadas escolas brasileiras, onde se leciona de acordo com o currículo do Brasil e os professores são, em grande parte, brasileiros.

Porém, com a estadia das famílias se tornando cada vez mais longa e indefinida, parte desses jovens estão passando anos no Japão e sendo educados como se fossem voltar um dia para o Brasil.

Esse é o caso de Daniel Oshiro, 20, vivendo no Japão há 12 anos. Seu pai também foi um dos pioneiros do movimento, tendo chegado no Japão em 1990. Ele permaneceu 3 anos no país, o suficiente para comprar uma casa.

Porém, o imóvel não foi suficiente para segurar a família no Brasil. No mesmo ano, Daniel e o pai embarcaram para o outro lado de mundo, desta vez com toda a família. Durante a primeira estadia do pai, Daniel veio e voltou ao Brasil por duas vezes. Sua vida escolar conta com uma escola japonesa e três escolas brasileiras, no Brasil e no Japão.

"Até os 14 anos era difícil eu ficar num lugar por muito tempo. Por isso, era difícil ter amizades e freqüentar escola", relembra o rapaz. Daniel cursou apenas dois anos letivos completos: a antiga primeira série do ensino fundamental (atual segundo ano), quando ainda vivia no Brasil, e o sexto ano, este numa escola brasileira no Japão. O diploma do ensino fundamental, ele conseguiu por meiro de provas do supletivo que são realizadas anualmente, com apoio do consulado brasileiro. O rapaz não tem nenhum certificado de instrução expedido pelo governo japonês.

Daniel começou a trabalhar, com 15 anos, numa fábrica. "Foi a melhor época da minha vida", surpreende ele. "Pela primeira vez eu fiquei mais de um ano num lugar e puder fazer amigos", explica. No entanto, ele está desempregado no momento e não consegue encontrar um serviço no qual trabalhe mais que 12 meses.

"Nos últimos três trabalhos fiquei, em média, 10 meses", lamenta o rapaz, que chegou a mudar de cidade em busca de oportunidades de trabalho. Em vão. "Trabalho nessa região tá meio difícil. A grande maioria é temporário", justifica ele.

Porém, sem instrução formal reconhecida pelo governo japonês, sem conhecimento da língua local e com um histórico de trabalhos de curta duração, Daniel está num grupo de trabalhadores que cada vez menos consegue vagas no Japão. Ele sonha, porém, em  fazer parte da equipe de voluntários de uma ONG que atua em Moçambique e voltar para o Japão com dinheiro suficiente para cursar uma faculdade de Desenho Industrial.

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