14/06 - 10:37 - Ana Freitas, repórter do Último Segundo
De Kobe a Santos, a viagem durou 52 dias. Antes de chegar ao destino final, foram feitas apenas duas paradas, uma em Cingapura e outra na Cidade do Cabo. Em ambas, os passageiros ficaram a bordo. Apesar dos enjôos por conta dos fortes ventos e ondas que agitavam o navio e da tristeza de deixar a terra natal para trás, algumas festas e jogos entreteriam imigrantes e tripulantes.
O presidente da Companhia de Emigração Imperial do Japão, Ryu Mizuno, participou da primeira vigem a bordo do Kasato Maru e relatou em seu diário todos os percalços dos quase dois meses no navio. Segundo ele, o único incidente ocorreu quando um dos tripulantes tentou matá-lo com uma faca. Ao ser contido pelos marinheiros, o rapaz acabou ferido e morreu poucos dias após desembarcarem em Santos.
Sobre os demais imigrantes, Mizuno diz: “os passageiros usam trajes ocidentais confeccionados na Europa. Os homens deixam de lado o quimono e vêm de terno e gravata, chapéu e bota. Alguns trazem no peito condecorações de guerra com a Rússia”. “Agora todos são ’soldados da fortuna’ querem enriquecer e voltar dentro de cinco anos”, conclui.
18 de junho
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Ainda sobre o desembarque, o jornal publica indícios do bom caráter dos novos imigrantes. “Nas 1100 malas que trouxeram, a alfândega não encontrou um único objeto nas condições de pagar imposto, embora a conferência tenha sido feita com tanto rigor e durado quase dois dias”, retrata e complementa: “os empregados da alfândega declaram que nunca viram gente que tenha, com tanta ordem e com tanta calma, assistido à conferência de suas bagagens, e nem uma só vez foram apanhados em mentiras”.
A realidade
Imediatamente após deixarem o Kasato Maru, os japoneses embarcaram em um trem que os levaria à Hospedaria dos Imigrantes, na capital paulista. Sob o céu azul do inverno brasileiros, os imigrantes foram recepcionados por intérpretes e apresentados à casa com aparência de quartel onde passariam poucos dias. Às 17h, um jantar com pão, sopa e bacalhau e batatas foi servido.
A mesma reportagem do "Correio Paulistano" relata a surpresa dos funcionários da hospedaria com a limpeza dos recém-chegados. “Depois de estarem uma hora no refeitório, tiveram de abandoná-lo para saberem quais eram as suas camas e os quartos, e surpreendeu a todos o estado de limpeza absoluta em que ficou o salão: nem uma ponta de cigarro, nem um cuspo, perfeito contraste com as cuspinheiras repugnantes e pontas de cigarro esmagadas com os pés dos outros imigrantes”.
Nos quartos, os japoneses começaram a se deparar com a vida dura que teriam pela frente. Não havia cama para todos e a prioridade de uso deles era de casais. O restante dormiria sobre estrados de madeira estendidos no assoalho, segundo Tomoo Handa.
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Superação e perseverança
Para muitos deles, começava uma seqüência de decepções que os faria abandonar em poucos meses o trabalho para se aventurar em outras atividades. A frutificação do café foi menor do que a esperada. Também por não estarem acostumados ao trabalho no campo, os ganhos não chegavam nem a 25% do que esperavam. Resultado, seis meses depois, 430 japoneses já tinham deixado as fazendas. Em 13 meses, apenas 191 permaneciam no trabalho para o qual vieram contratados.
Diante de uma cultura totalmente desconhecida, de uma língua estranha e de hábitos alimentares diferentes, os imigrantes japoneses tiveram que se reinventar para enfrentar a realidade que lhes foi exposta. Se o sonho de prosperidade dos primeiros imigrantes não se concretizou, a história que eles começaram a traçar há 100 anos no Brasil virou um exemplo de superação e perseverança.
De um lado, eles adotaram a maleabilidade do brasileiro e adaptaram, por exemplo, sua comida aos nossos ingredientes. De outro, muito nos ensinaram e por aqui deixaram sua marca seja na culinária e na decoração como na indústria e nas artes.
Cem anos depois, ainda temos muito que aprender com a cultura japonesa. A história de superação do país, que 20 anos depois de sair derrotado de uma grande guerra, tornou-se uma das grandes potências mundiais, não nos deixa mentir.
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