14/06 - 10:50 - Roberto Maxwell, do Japão, especial para o iG
No Brasil, domingo é dia sagrado. Quem é de reza, vai para a igreja. Quem é de bola, para o futebol. De manhã, a famosa pelada. À tarde, é ver o time de futebol do coração arrebentar no campo. Roupa para a ocasião? É especial: a camisa oficial, o chamado “manto sagrado” que representa não apenas o amor pela equipe, mas o pertencimento a um grupo exclusivo, formado por gente que teve a sorte de amar o melhor time de todos.
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Todo este amor e admiração atravessam fronteiras. Nesse texto, você vai ver como é o universo das torcidas organizadas brasileiras no Japão e como os torcedores, mesmo tendo cruzado o mundo, preservam as tradições e o amor incondicional por seus times de coração.
Amor que atravessa o oceano
Muitos brasileiros aportam no Japão com sonhos nas malas e uma enorme esperança de retorno ao Brasil. Alguns deles incluem na bagagem a camisa de seu time de futebol preferido.
Apesar de muitos de nós não terem a mínima intimidade com a bola, não se pode negar que o futebol é, doa a quem doer, uma paixão nacional. E muita gente aprende a amar o esporte porque, antes de tudo, aprendeu a amar um time.
A vinda para o Japão não diminui o interesse dos brasileiros pelo futebol. Mesmo com a rotina estafante do trabalho nas fábricas, os dekasseguis (nipo-brasileiros migrantes) acompanham seu time de coração como podem.
Pela internet, é possível ler notícias e participar de fóruns. Ninguém fica desinformado. E foi a rede que tornou possível algo que muitos sequer imaginaram quando se mudaram para cá: formar uma torcida organizada.
Partindo de fóruns e comunidades on line torcedores apaixonados organizaram sub-sedes no Japão de três das maiores torcidas organizadas brasileiras: Gaviões da Fiel (Corinthians), Mancha Verde (Palmeiras) e Torcida Independente (São Paulo).
E era uma vez a internet...
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Porém, como torcida organizada é coisa séria, entre o sonho e a realidade, o processo foi longo. Os integrantes da Torcida Independente Japão, por exemplo, só se viram reconhecidos como uma sub-sede oficial no final de março, apesar de terem começado a se organizar em 2005, ano em que ofereceram todo seu suporte na campanha em que o São Paulo faturou a taça no Mundial de Clubes.
Os gaviões no Japão também tiveram que mostrar muito empenho para provar para a Fiel que eram capazes de representar o Corinthians no Japão. Para isso, eles contaram com uma embaixadora no Brasil, Miriam Aiko Yokomizo, que atuou como elo entre os torcedores no Japão e a diretoria no Brasil.
A oficialização permite às torcidas não apenas representar seus clubes, mas também a venda de produtos oficiais dos times bem como o reconhecimento por parte dos torcedores e das diretorias das equipes e, ainda, o direito de organizar eventos comemorativos e beneficentes e cadastrar novos associados.
Os diretores locais fazem contatos diretos com as lideranças no Brasil, de quem recebem as instruções e os produtos oficiais que são vendidos no Japão.
Redes de amigos
As torcidas costumam organizar atividades sazonais para reunir seus integrantes. São festas, torneios e encontros que ganham contornos especiais quando se vive longe de casa. Enquanto no Brasil, as maiorias das sedes e sub-sedes concentram torcedores de uma mesma cidade ou região, os encontros realizados no Japão atraem gente de todo o país, alguns viajando mais de cinco horas para confraternizar com seus pares.
A família Hayakawa é um exemplo. Ricardo Takao, a filha Rebeka e a esposa Graciede viajaram da província de Tochigi até Daito (província de Shizuoka) para participar do encontro da Gaviões da Fiel que ocorreu em março.
“Foram cinco horas de viagem”, conta ele. A participação nas torcidas amplia a rede social dos torcedores, algo que é uma vantagem para quem vive como imigrante e precisa de contatos para encontrar trabalho em outras regiões, por exemplo.
Os encontros também são uma forma de ensinar aos mais novos, principalmente àqueles que nunca foram ao estádio no Brasil, um pouco da cultura do clube.
As lideranças sabem que o amor ao time é algo que passa pela educação dos novatos nas coisas próprias de cada equipe, em sua história e, principalmente, em suas glórias. “Mostramos que fazer parte da Gaviões não é moda”, conta Cristiano Minoru, um dos membros mais ativos da torcida do Corínthians no Japão. Ele explica que a cada encontro são feitas reuniões com os novos membros para explicar as normas da torcida e para ensinar a cultura da Fiel.
Bateria, alegorias e adereços
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A torcida do Corinthians criou, ainda, a Escolinha de Bateria que se reúne 2 vezes por mês em Hamamatsu (província de Shizuoka) para ensinar as técnicas aos corinthianos interessados. A Mancha tem instrumentos mas, por falta de tempo dos ritmistas, não faz ensaios. As baterias não apenas servem para para levantar a torcida na hora dos cantos de guerra nas partidas mas, também, para animar os eventos onde vale a máxima de que tudo acaba em samba.
Outro orgulho das torcidas organizadas são as faixas e bandeiras. Neste caso, o quanto maior, melhor. No caso do Japão, onde raramente é possível ver os times do coração jogar, as flâmulas são usadas nos eventos e, em alguns casos, são levadas ao Brasil por algum torcedor para que sejam vistas nos estádios durante algum jogo. Ver a bandeira ou a faixa da torcida numa partida televisionada, por exemplo, pode significar para muitos torcedores a glória de ter sido visto em pessoa na partida. É mostrar para os outros torcedores do Brasil que, mesmo estando longe, quem está no Japão não se esquece do time.
“Um membro levou uma faixa nossa e ela apareceu uma vez num jogo”, conta Leandro Henrique Pereira Leite, da diretoria da Mancha Verde - Japão. “Ela nos representa. Para a gente que está aqui, isso é bastante coisa”, diz ele.
No ninho dos Gaviões
Somente um total desinformado pagaria essa. “Tira a camisa”, dizem. “De camisa verde, não entra”, surge outra voz vinda sabe-se de onde. De repente, o repórter está cercado de gente insistente no pedido. Por uma brecha, ele olha um aviso enorme na porta: era proibida a entrada de homens de brinco e de quaisquer um vestindo roupas... verdes.
Alguns minutos de negociação e o repórter tenta usar seu casaco para esconder a blusa verde com a qual ele exibia, orgulhosamente, sua brasilidade. Mas, não cola. Diante da regra (e da superstição), entrar de verde não vale. Alguns minutos mais e, pronto, o repórter, para desespero dos passantes, mostra seus quilinhos mais e atende aos pedidos dos torcedores. Ele está iniciado e, agora sim, é bem-vindo no mundo da torcida Gaviões da Fiel, sucursal japonesa.
Não permitir a entrada de pessoas vestidas de verde é parte da tradição da torcida. Verde é a cor do Palmeiras, time que é, talvez, o maior adversário do Corinthians. Mas, o cabelo comprido e o brinco ainda ficam na cabeça do repórter, enquanto ele começa a explorar o ninho dos Gaviões.
Como num filme das antigas, tudo é em preto-e-branco. O local do encontro, um restaurante brasileiro na cidade de Kakegawa (província de Shizuoka, região de Tokai), apinhado de gente e todo coberto por bandeiras e faixas que demonstram o amor pelo Timão. A maioria é formada por homens jovens. Mesmo assim, mulheres e crianças também marcam presença. Por todos os lados, o que se vê é gente confraternizando, trocando idéias. Amigos que não se vêem há um bom tempo, gente que se fala todo dia pela internet. Prato do dia: a tradicional feijoada.
Maurício Okabayashi, de 23 anos, é um dos fundadores da Gaviões da Fiel - sub-sede Japão. Ele conta que o primeiro encontro oficial dos Gaviões ocorreu em 2002. “Foram umas 30 pessoas”, conta ele. A idéia de formar uma sub-sede já estava presente em alguns integrantes do grupo inicial.
Porém, a empreitada foi árdua até que o grupo conquistasse a confiança da diretoria da primeira torcida organizada independente do Brasil e ganhasse o direito de representa-lá e atuar em seu nome do outro lado do mundo.
Maurício conta que, mesmo com toda a dedicação foi necessária a intervenção mais que especial de uma corintiana apaixonada que se identificou com os “meninos do Japão” e decidiu interceder por eles na diretoria do clube e da Gaviões da Fiel.
Miriam Aiko Yokomizo teve seu primeiro contato com os Gaviões do Japão por causa da grafia de uma bandeira feita pelos torcedores daqui. Depois deste contato, Miriam foi solicitada a buscar informações sobre os procedimentos para abrir uma sub-sede e, mais que isso, acabou sendo o canal que liga os Gaviões dos dois lados do mundo. O trabalho de Miriam não foi simples.
“Tentei por várias vezes, exaustivamente, contato com a diretoria”, conta ela que se encantou com a força de vontade dos corintianos do Japão e, atualmente, é considerada a madrinha torcida. Em 2006, Miriam veio ao País apenas para conhecer a Gaviões daqui. Além disso, ela presta suporte aos corintianos que vão ao Brasil e querem conhecer a quadra e assistir aos jogos.
O som certeiro da bateria e a excitação do ambiente corintiano alivia o repórter depois da entrada pouco amistosa. Mas, não tira de sua cabeça as outras restrições da entrada no evento. Afinal, por que brinco não pode entrar na festa? Quem explica é Cristiano Minoru. “A torcida tem 38 anos e foi fundada numa época em que homem de brinco e cabelo comprido era considerado... Então, nós entendemos que essa proibição faz parte de nossa história”, diz ele.
Independentes e... reconhecidos
Depois do périplo para visitar os Gaviões, o repórter seguiu para Toyohashi (província de Aichi) onde a Independente fazia a festa para comemorar sua oficialização como sub-sede da maior torcida do São Paulo.
Das três grandes torcidas, a Independente foi a única que teve o prazer de ver seu time de futebol ganhar um título internacional em terras japonesas. Aliás, foi a possibilidade de ter o São Paulo jogando por aqui que fez com que os integrantes da Independente sonhassem com uma sub-sede no Japão.
O ano foi 2005 e o São Paulo estava prestes a conquistar uma de suas maiores glórias quando o grupo que se reunia pela internet para discutir os jogos decidiu se reunir. O objetivo era prestar suporte ao time na empreitada que estava por vir. “A gente começou a se organizar pela internet e fizemos um encontro para arranjar a ida aos jogos”, conta Joel da Silva Fineza Junior, um dos líderes da Independente - Japão.
A torcida organiza eventos de 3 em 3 meses para confraternização de sócios e simpatizantes do time. Além disso, a diretoria se reúne sempre que necessário para discutir sobre os eventos e outros tópicos. Os independentes sãopaulinos exibem com orgulho a flâmula gigante do time, confeccionada no Brasil. Mas, parece que a menina dos olhos do time é mesmo a bateria. “Quase todos os domingos fazemos ensaios”, conta Joel.
Lucas Sato, de 25 anos, faz parte da torcida desde o começo. “Depois do mundial, nunca mais deixei de comparecer a nenhum evento”, conta ele provando o efeito poderoso da vitória do time nas terras japonesas. Lucas é o típico torcedor, daqueles que pensam no time a maior parte do tempo.
“O São Paulo faz parte da minha família. Meu dia-a-dia é pensando no time”, conta ele que é casado, mas já conquistou a esposa para a torcida. “Mas, ela gosta”, defende-se ele. Sato conta que a sua entrada na torcida aumentou sua rede social. “Fizemos muitos amigos. Gente que, se não fosse pela torcida, a gente não iria conhecer”, diz ele.
Orgulho alvi-verde
Leandro Henrique Pereira Leite é o escudeiro da Mancha Verde no Japão. Um dos membros fundadores da torcida, ele conta que foi nos idos de 2004 que a Mancha foi fundada. “Deixei mensagem no fórum da torcida na internet e começou a aparecer gente”, conta ele.
O primeiro encontro tinha 8 pessoas. Foi esse grupo que decidiu fazer um primeiro evento com o objetivo de vender artigos e mostrar para os palmeirenses que a torcida estava se organizando no Japão. “Fizemos um luau em Kosai e, depois disso, cadastramos mais ou menos 350 pessoas”, conta ele.
Diferentemente da maioria dos líderes de torcidas brasileiras no país, Leandro já era parte da Mancha antes de chegar ao Japão. “São 18 anos de torcida”, diz. Ele tem uma consciência bastante apurada da sua função com líder, função para a qual dedica de 3 a 4 horas do seu dia. “Tem que ter muita vontade”, diz ele destacando, porém, que não está sozinho. “Sozinho, não se faz nada. Tem a diretoria e trabalhamos em conjunto”, afirma.
Como as demais torcidas, a Mancha Verde Japão organiza eventos ao longo do ano. “A cada dois meses fazemos encontros”, conta Leandro. A Mancha organiza também torneios de truco, de futebol de salão e outros eventos que são abertos, também, a pessoas que não são palmeirenses. “No nosso torneio de futebol, vai gente de outros times, de outras torcidas e não há brigas”, garante.
Leandro se preocupa com a imagem das torcidas aqui no Japão. Ainda mais depois do episódio ocorrido em Hamamatsu, que envolveu a palmeirenses e a sãopaulinos. “Brincadeiras, provocações há”, conta ele. “Mas, não podem partir pro lado pessoal”, prossegue, citando como exemplo as provocações que pipocavam no Orkut antes da Mancha decidir fechar a comunidade para não-membros. Leandro critica aqueles que vão para os eventos ou jogos com o intuito de brigar. “Tem gente que acha que camisa de torcida é capa de Super Homem”, compara o diretor. Por isso, ele afirma se empenhar pessoalmente para evitar confrontos. “Temos que mudar a imagem que as pessoas têm da gente”, afirma o líder.
A rotina de Leandro inclui, também, assistir aos jogos do Palmeiras pela TV Mancha Japão, um canal na internet que exibe as partidas ao vivo. “A galera toda entra no MSN e a gente acompanha os jogos, vai comentando”, conta ele que lamenta a má-fase do Palmeiras. “Mas, estamos confiantes. A função da torcida é essa: ter confiança e dar apoio ao time”, afirma ele. Como todo torcedor mais engajado, Leandro acabou envolvendo a família nas questões da torcida. “Minha esposa virou palmeirense por livre e espontânea pressão”, brinca ele, que educou o filho na mais genuína cultura alvi-verde. “Ela pensou que, com a minha vinda para o Japão, tudo ia acabar. Mas não adianta, não tem jeito”, confessa ele. Realmente, o sentimento de um torcedor pelo seu time de coração parece ser o exemplo perfeito daquilo que as pessoas chamam de amor.
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