14/06 - 10:49 - Roberto Maxwell, do Japão, especial para o iG
Prestes a completar 20 anos, o movimento dekassegui (movimento migratório de latino-americanos descendentes de japoneses para o Japão) começa a tomar novas formas.
Até bem pouco tempo, os brasileiros que tomavam o rumo das terras de seus ancestrais japoneses tinham nas fábricas sua única oportunidade de trabalho e inserção na sociedade local. No entanto, a decisão de se estabelecer no país por um prazo mais longo aponta para uma tendência de mudança no perfil do trabalhador brasileiro no Japão.
Já existe um número ainda reduzido, mas nem por isso pouco expressivo, de migrantes que estão buscando novos ares e atividades de profissionais, em busca de outra forma de reconhecimento no Japão.
| Ricardo Yamamoto |
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| Ricardo Yamamoto mora no Japão desde os 17 |
"Tranquei a matrícula da escola na intenção de voltar no ano seguinte e continuar os estudos normalmente”, conta ele. O prazo de um ano foi sendo estendido e, em 2008, completam-se 16 anos que Ricardo está no Japão.
Da família, só um irmão está atualmente no Brasil. Há cerca de 2 anos, Ricardo e sua namorada decidiram trocar Hamamatsu, a cidade com a maior população brasileira do Japão, por Tóquio. Após anos trabalhando em fábrica, ele cultiva um novo sonho: quer ser reconhecido como fotógrafo profissional. A namorada, por sua vez, quer investir na carreira de cantora. Ambos acreditam que, vivendo na capital, as oportunidades são muito maiores.
Yamamoto já começa a obter retorno do seu trabalho. Em um grupo de comunicação voltado para a comunidade brasileira no Japão, começou na TV, como câmera, e agora trabalha numa revista, onde suas fotos vêm sendo cada vez mais valorizadas pelos editores.
Antes disso, porém, Ricardo fotografou eventos da comunidade brasileira e juntou um acervo que acabou se tornando o projeto Partida, no qual o artista mostra a vida dos brasileiros dekasseguis fora das fábricas.
Reconhecimento
Suas fotos abriram não somente as portas do grupo de comunicação em que trabalha, mas também estão o tornando conhecido. O fotógrafo tem sido convidado para mostrar seu trabalho em universidades, um reconhecimento que aquele menino que abandonou o colegial para trabalhar em fábrica talvez não esperasse.
Fã de Sebastião Salgado, Ricardo Yamamoto conta um momento em que encontrou com o mestre, de passagem pelo Japão. Na ocasião, ele perguntara a Salgado o que ele estava achando do Japão e dos japoneses. “Muito bom. O pessoal me trata muito bem”, ouviu Yamamoto como resposta. “Mas isso porque você vem como fotógrafo famoso”, replicou ele, mostrando a Salgado a realidade de discriminação enfrentada por muitos estrangeiros no Japão e que o atingia diretamente.
Ele, apesar de nunca ter sentido raiva do Japão ou dos japoneses, confessa que mudou seu ponto-de-vista sobre o país e seus nativos. “Eu ainda trabalho para a comunidade brasileira, mas conheci mais pessoas, fora da realidade das fábricas e, mesmo achando que o país é fechado para os estrangeiros, tem muito a oferecer”, explica ele.
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