14/06 - 10:39 - Ana Freitas, repórter do Último Segundo
Há pouco mais de 100 anos, os interesses econômicos de dois países em pontos contrários do planeta se cruzaram. O Brasil precisava de mão-de-obra para sua lavoura cafeeira. O Japão buscava uma solução para o desemprego que avançava com o crescimento demográfico.
O desembarque de 781 imigrantes japoneses no porto de Santos, em 1908, concretizou finalmente uma aliança acordada 13 anos antes, por meio do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação entre os dois países.
Nem tudo deu tão certo quanto se esperava - nem para os japoneses, que vieram para o Brasil, nem para o comércio entre as duas nações. Uma guerra mundial em lados opostos, uma moratória brasileira e uma década considerada perdida no Japão, nos anos 90, por causa de problemas financeiros, dificultaram a sobrevivência dos negócios e dos imigrantes.
De olho no consumidor brasileiro
Mas, um século depois dos primeiros acordos, Brasil e Japão voltam manifestar interesses em um diálogo comercial. Em abril, por exemplo, um grupo de 200 representantes de áreas diversas da economia brasileira participou de uma missão empresarial da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) no Japão. O objetivo do grupo era fazer contatos com empresários de setores de alimentos, moda, agronegócios, móveis, software, autopeças, têxtil, entre outros.
“Depois de anos conturbados, a economia brasileira está muito estável e volta a atrair o interesse dos investidores japoneses. O Brasil não é visto como um lugar para se montar uma fábrica apenas para exportar. O País tem sido encarado como consumidor, como mercado para se vender”, explica Rei Oiwa, diretor de pesquisa da Jetro (Japan External Trade Organization), órgão vinculado ao ministério da indústria e comércio do Japão para promover o comércio exterior do País.
O perfil consumidor do Brasil o diferencia do mexicano, por exemplo, onde indústrias japonesas se fixam visando uma produção voltada para o mercado americano. Por aqui, segundo Oiwa, empresas de tecnologias e montadoras de veículos visam também o mercado interno.
Por outro lado, empresários brasileiros reclamam que não há reciprocidade comercial com o Japão. Segundo a Fiesp, os produtos que ainda dominam as exportações brasileiras para o mercado japonês são de baixo valor agregado, como café, ferro e carne.
“Esse padrão de comércio não reflete a competitividade brasileira. Queremos vender aviões, frutas, softwares, carne, produtos manufaturados, e aproveitar o fluxo e comércio japonês de US$ 1,3 trilhão, agregando valor às nossas exportações”, disse o presidente da entidade, Paulo Skaf, durante a missão no Japão.
Técnica japonesa e criatividade brasileira
Se o Japão ainda faz algumas restrições para importar produtos manufaturados brasileiros, para outro setor, que também rende frutos comerciais, o país oriental está de portas abertas - o de estilo. Segundo o economista e ex-diretor do Banco Central do Brasil, Paulo Yokota, o Japão é um dos maiores importadores de moda brasileira. “Exportamos modelos, não apenas roupas”, diz.
De acordo com Yokota, os japoneses consomem muito da cultura brasileira e admiram a criatividade tupiniquim. “Lá o país é muito homogêneo, já o Brasil é mestiço e, com toda a mistura étnica que houve, tornou-se um País também mais criativo”, conclui.
Para o economista, o casamento econômico entre os dois países vai dar certo quando a mistura entre a técnica japonesa e a criatividade brasileira se consolidarem em outros setores. “Enquanto importamos hardwares japoneses, exportamos softwares brasileiros, que tendem a ser mais bem desenvolvidos graças a nossos programadores mais criativos”, exemplifica.
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