Cientistas perdem o sono para pesquisar comportamento do Aedes aegypti

Só em 2015, o mosquito infectou 73.872 pessoas no Brasil com dengue; inseto também é vetor do zika vírus e chikungunya
Foto: Bruna Fantti/O Dia
Rafaela Bruno (à direita) coordena a equipe do Laboratório de Biologia Molecular da Fiocruz

Aos 17 anos, Rafaela Bruno tinha o sonho de fazer bebês de proveta. Optou por cursar Biologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde escutou a sentença do professor: “O mais próximo que vai conseguir fazer é bebê de mosca.”

Passados 20 anos, atua como coordenadora do laboratório de Biologia Molecular da Fiocruz, no bairro de Manguinhos, no Rio de Janeiro, realizando mutações em insetos, principalmente no Aedes aegypti , transmissor da dengue, zika vírus e chikungunya. “Sou a moça da agulha, aquela que infecta os mosquitos”, brinca.

Rafaela, assim como outros pesquisadores, enfrenta rotinas agitadas, anos de estudo e até perigos para investigar as doenças causadas por um inseto que só em 2015 infectou 73.872 pessoas no Brasil com dengue. Os especialistas formam uma tropa de choque contra o mosquito que amedronta todo o País.

Na mesa de Rafaela, ao lado de fotos da filha de 6 anos, há uma escultura em bronze de uma mosca e desenhos de insetos. Da sua sala, de quatro metros quadrados, ela coordena 12 pessoas que pesquisam o comportamento do Aedes. Há dez anos estudando a dengue, já participou da divulgação de dois estudos inéditos sobre o tema — um que prova que fêmeas com o vírus picam mais pessoas e outro que relaciona a atividade do mosquito com a temperatura. “Se a noite for quente, ele vai querer picar”.

Os anos de pesquisa, no entanto, têm um preço. “Já perdi a conta de quantas vezes dormi em um colchonete, aqui no chão do laboratório, para alimentar os mosquitos ou recolher material para pesquisa”, conta.

A mesma rotina enfrenta Fernando Bozza, de 51 anos, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, localizado dentro do campus da Fiocruz. Quando fazia mestrado em Medicina, em 2003, o pesquisador tinha de levar amostras científicas para a Fiocruz. “Eram horas de experimento com tubos de ensaio, às vezes terminava de madrugada. E tinha de levar para a Fiocruz analisar, na mesma hora. Uma vez ocorreu um tiroteio e tive de ficar debaixo do carro. Perdi todas as amostras”, lamentou.

Apesar da adversidade, nunca quis parar de trabalhar na área. “Só me matando para me convencerem a deixar de ser pesquisador.” Com 30 anos de estudo e dormindo até hoje quatro horas diárias, Bozza mapeou a alteração provocada pelo vírus que provoca sangramento em pacientes infectados com o tipo grave da dengue. 

Cientista está prestes a descobrir se alguém que teve zika pode ser reinfectado

Para reunir os diferentes estudos, no início do ano, Fernando Bozza fez um site com pesquisadores internacionais para debater o zika. “Todos estão muito otimistas com os estudos. Há pesquisas que serão concluídas em breve. Trabalho em uma que vai confirmar ou não se uma pessoa que já teve zika pode ser infectada novamente.”

O médico Carlos Brito, de 47 anos, da Universidade Federal de Pernambuco, não recebeu o mesmo otimismo da comunidade científica ao dizer, pela primeira vez, que o zika provocava a microcefalia. “Alguns me chamaram de leviano, precipitado, cientista maluco. Sou até hoje uma ‘persona non grata’ em alguns meios. Mas a hipótese se confirmou e ainda falta muito para estudar”, afirma.

Casado com uma pediatra e pai de três filhas, ele diz que a ciência não endureceu seu coração. “Chorei muito quando vi as mães segurando filhos com microcefalia, assustadas. Foi um dos piores momentos que enfrentei, assim como o surto da cólera, em 1993.” Recém-formado, Brito coordenou uma unidade intensiva de tratamento com 60 pacientes infectados.

Foto: Bruna Fantti/O Dia
Carlos Brito constatou ligação entre zika e microcefalia; Rafael Freitas iniciou método pioneiro

Rafael Freitas, de 34 anos, já coordena um dos principais estudos na área. Com uma equipe do Laboratório de Transmissões de Hematozoários da Fiocruz, começou neste ano um projeto pioneiro no Brasil: espalhar a bactéria wolbachia para reduzir o tempo de vida do mosquito.

“O método é desenvolvido na Austrália, Indonésia, Colômbia e Vietnã. Espalhamos em dois bairros do Rio e, em breve, vamos confirmar a redução do mosquito nas regiões.” A ação consiste em infectar mosquitos com essa bactéria. Durante a cópula, ela é transmitida e torna as fêmeas estéreis.

Em 2012, teve sua tese de doutorado premiada pelo Capes, o maior prêmio da área no Brasil para pesquisas. “Investiguei como o mosquito reage infectado e em diferentes temperaturas. Ele sofre também com a doença, come menos, voa menos. É doloroso para o mosquito também.”

Rafael diz que o maior trabalho deve ser da população. “Acredito que um dia todos tenham a real consciência da transmissão do mosquito e não deixem água parada. Se todos fizerem isso, as epidemias cessam.” 

Fonte:  O Dia

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