19/04 - 15:51 - Harvard Business Review
Mergen Reddy e Boetie Swanepoel Uma empresa que atua em certos países em desenvolvimento precisa enfrentar o estarrecedor custo, humano e financeiro, da infecção pelo HIV - e a maioria concordaria que abordagens convencionais ao controle da epidemia não vêm dando certo. Nossa experiência num setor de intenso uso de mão-de-obra, o de mineração na Rússia, África do Sul e Botsuana, revelou que o índice de infecção entre trabalhadores chega a mais de 90% em casos extremos, com perda de produtividade de até 30%. Já que iniciativas para con ter o alastramento do vírus têm resultados modestos, o tratamento é de importância vital. Só que o uso de antiretrovirais e programas de saúde correlatos custam caríssimo. Em nosso trabalho com as maio res mineradoras do mundo, constatamos que poucas podem arcar com o custo total de tal tratamento - que pode variar de US$ 400 mil a US$ 900 mil por indivíduo - por toda a vida de um trabalhador.
A nosso ver, o maior obstáculo à empresa que tenta administrar o HIV não é a falta de terapias ou orientação adequadas, mas o custo. Logo, decidimos abordar a epidemia como um problema puramente financeiro, e não médico. Em programas-piloto em minas na Rússia e em Botsuana, derrubamos custos e absenteísmo, ampliamos o tratamento e aumentamos a produtividade com a aplicação de princípios de simulação de carteiras de ativos de capital a programas de tratamento e com a criação de contratos que permitam à empresa negociar o custo financeiro remanescente do HIV sobre os negócios (ou se proteger com um seguro).
Fizemos o seguinte: em primeiro lugar, criamos modelos financeiros com milhares de possíveis programas de gestão do HIV, cada um com distintas permutações dos elementos que constituem um programa completo: de medicamentos ao tratamento oferecidos até a infra-estrutura de saúde e planos contínuos de manutenção. Cada programa desses é uma possível carteira de tratamento. A carteira A, digamos, incluiria a importação de duas mil cápsulas do comprimido A da Índia, a preço fixo; a importação de mil cápsulas do medicamento B da Bélgica a preço de mercado; a construção de cinco clínicas de HIV/AIDS controladas e operadas pela mineradora; o emprego de enfermeiros da empresa X; e a administra ção diária a cada paciente de cada medicamento desses. A carteira B poderia ser parecida, mas exigir a construção de menos clínicas, sendo as demais terceirizadas. A carteira C poderia implicar a ter ceirização do tratamento para a empresa de saúde Y, a um custo total de US$ 10 milhões - e assim por diante (as carteiras reais que simulamos têm muito mais variáveis do que as aqui descritas, e fazem projeções futuras).
Ao simular no computador inúmeras combinações de medicamentos e serviços, instalações de tratamento, custos e diversos outros fatores ao longo do tempo, estimamos custos e benefícios totais (em ter mos de produtividade e receita) para cada carteira. Em seguida, traçamos o desvio padrão dos custos (ou seja, o risco) versus o custo mediano do tratamento do pessoal (“retorno”) de cada carteira. Para isso, tiramos a média dos resultados de milhares de simulações possíveis de cada uma delas.
A melhor carteira para uma empresa seria, portanto, a que gerasse o maior retorno provável a um nível de risco aceitável (esse trabalho exige computadores possantes; cada carteira consumiria pelo menos oito horas de processamento em um laptop).
Embora a princípio nosso método tenha sido recebido com ceticismo, a técnica gerou resultados positivos consideráveis, financeiros e de saúde, nos dois projetos-piloto. Num período de dois anos, o custo total do tratamento para as empresas caiu cerca de 30% a 40% - mais do que o previsto na simulação. Nos dois projetos o custo total do tratamento caiu de US$ 1,2 bilhão para US$ 800 milhões. Ao mesmo tempo, o absenteísmo caiu 7% e 15%, o total do pessoal inscrito nos programas de tratamento subiu 24% e 36% e a contagem de células T-CD4 entre infectados pelo HIV (indicador da saúde do sistema imunológico) subiu 25% e 34%. Embora a localização e a modalidade de mineração influenciem o custo total (devido à variação no custo da mão-de-obra), as variáveis de maior peso no nosso modelo de custos são fonte e preço de medicamentos.
No segundo passo do programa, criamos instrumentos para a negociação de riscos. Concebemos um derivativo de saúde - uma espécie de apólice de seguro - que uma firma de investimentos poderia vender à mineradora para protegê-las de possível queda na produtividade devido ao HIV. À luz do contrato, se o absenteísmo e lesões ligados ao HIV afetassem a produtividade de modo específico, a firma de investimentos - que recebe um prêmio da empresa segurada - pagaria à mineradora uma cifra predeterminada. Se não houvesse danos à produtividade, o prêmio ficaria com a firma de investimentos, como ganho. Na prática, o contrato permite à mineradora repassar o risco dos custos do HIV a um especulador (a firma de investimento). A aposta desse investidor é que uma determinada carteira manterá o custo da perda de produtividade associada ao HIV abaixo do valor do prêmio. Empresas como a Harmony Gold estão levando o conceito mais além e investigando a viabilidade de contratos vinculados a minas específicas.
Os resultados positivos aqui descritos são baseados em testes feitos em um único setor. Contudo, esses projetos poderiam inspirar dirigentes empresariais de outros setores em busca de maneiras acessíveis e eficientes de atender o pessoal afetado pelo HIV e de limitar o impacto negativo do vírus sobre os negócios.
- Mergen Reddy (mereddy@deloitte.co.za) é especialista em estratégia da Deloitte em Johannesburgo, na África do Sul. Boetie Swanepoel (boetie. swanepoel@harmony.co.za) é o executivo encarregado de operações financeiras da Harmony Gold, empresa de mineração de Johannesburgo.
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