Haiti: estrela do hip-hop Wyclef Jean é ferido por disparo na mão

Incidente acontece em meio ao segundo turno das eleições presidenciais no país; Jean apoia o músico Michel Martelly

iG São Paulo |

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Wyclef Jean (esquerda) durante a campanha presidencial do candidato Michel Martelly pela presidência do Haiti
O porta-voz de Wyclef Jean disse que a estrela do hip-hop do Haiti recebeu alta de um hospital depois de ter sido tratado por um ferimento causado por um disparo em sua mão.

Joe Mignon, diretor graduado de programa da Fundação Yele, de Jean, disse que ele foi ferido às 11 horas locais de sábado em cidade Delmas, nos arredores de Porto Príncipe.

O irmão de Jean, Samuel, confirmou que o músico foi ferido por uma disparo. Nenhum dos dois tinha mais detalhes.

O incidente aconteceu na véspera do segundo turno das eleições presidencias no Haiti. Jean apoia o também músico Michel Martelly.

Segundo turno das eleições

Quatro milhões de haitianos estão sendo convocados neste domingo (20) a escolher o sucessor do atual presidente René Préval.

Culminando um processo eleitoral fora do comum, após meses de acontecimentos fora do comum para o país, o segundo turno das eleições haitianas opõe a esposa de um ex-presidente a um conhecido cantor de música pop.

O processo eleitoral teve todas as tramas e intrigas de uma telenovela, mas a ex-primeira-dama Mirlande Manigat e o cantor Michel Martelly representam papéis muito diferentes nela.

Manigat, 71, esposa do ex-presidente Leslie Manigat, é uma acadêmica com credenciais obtidas na universidade francesa de Sorbonne e uma política com considerável experiência.

Michel Martelly, 50, é mais conhecido pelos seus fãs pelo nome artístico de Sweet Micky, uma estrela da música dance haitiana, a kompa. Ao longo da campanha, os mesmos jovens que vão à loucura em seus shows demonstraram a paixão de igual intensidade em seus comícios.

"Não acho que qualquer dos candidatos tenham propostas concretas na realidade", disse Andrew Leak, da organização Haiti Support Group.

"A diferença entre Manigat e Martelly é que ela faz parte da classe política tradicional do Haiti, enquanto Martelly definitivamente não faz."

Coincidências

As políticas dos dois candidatos parecem, de fato, assemelhar-se mais que suas personalidades.

Ambos se comprometeram a aumentar o acesso à educação, melhorar a saúde pública, reorganizar o sector agrícola e criar empregos.

Tanto um quanto outro também prometem restaurar a ordem pública e dar os haitianos que vivem no exterior mais participação nos assuntos nacionais.

"Independente de quem vença resultado, não fará um pingo de diferença para 85% dos haitianos vivem na pobreza absoluta", afirmou Leak.

No fim das contas, ele diz, o governo haitiano simplesmente não tem dinheiro para implementar muitas das políticas defendidas pelos candidatos.

Os limitados recursos do país foram canalizados para o enorme esforço de reconstrução após o terremoto em janeiro de 2010, que reduziu a escombros a maior parte da capital, Porto Príncipe.

Logo após a tragédia, impôs-se um outro problema que requer urgência: o surto de cólera que começou no ano passado e ainda não está sob controle.

Fator Aristide

Para muitos, o único político capaz de representar os interesses dos pobres haitianos é Jean-Bertrand Aristide, primeiro presidente democraticamente eleito no país, em 1990.

Aristide, um ex-padre que abraçou a Teologia da Libertação nos anos 1980, governou poucos meses até ser deposto por um golpe militar e forçado a deixar o país.

Depois de sete anos em exílio na África do Sul, o ex-presidente desembarcou de volta no Haiti neste fim-de-semana e expressou preocupação pela exclusão de seu partido, o Famni Lavalas, da disputa.

A sigla foi excluída antes mesmo do primeiro turno eleitoral, em novembro, por um detalhe técnico: supostamente devido a erros técnicos na ficha de inscrição.

"Aristide ainda goza de amplo apoio popular entre as massas, especialmente nas favelas de Porto Príncipe. Seu retorno pode levar a manifestações, queixas de que ele não está na disputa e agitação civil suficiente para tirar as eleições do trilho", avaliou o historiador Philippe Girard, autor de diversos livros sobre o Haiti, incluindo um sobre a carreira de Aristide.

Essa foi a razão pela qual os Estados Unidos haviam pedido ao ex-presidente que regressasse ao Haiti depois destas eleições, indicando que a sua presença poderia "desestabilizar" o processo.

Ingerência

Não faltaram vozes considerando a posição dos EUA como uma interferência externa no processo democrático no Haiti.

Intelectuais, académicos e organizações assinaram no início deste mês uma carta aberta no jornal britânico The Guardian acusando as potências estrangeiras de botar o dedo indevidamente nas eleições.

Os autores da carta pediam ainda que a votação deste domingo fosse cancelada.

"Os haitianos se referem a esta eleição como uma 'seleção'", diz Leak. "Para eles, os candidatos que estão disputando o segundo turno foram escolhidos segundo turno de antemão pela comunidade internacional."

O primeiro turno foi amplamente denunciado com acusações de fraude. A ex-primeira dama Manigat terminou em primeiro lugar, seguida Jude Célestin, o candidato apoiado pelo atual presidente Préval. As autoridades haitianas haviam dito que Martelly terminou em terceiro na disputa.

Porém, observadores internacionais questionaram essa informação, e sustentaram que Martelly terminara em segundo lugar e o resultado oficial fora fraudado. O candidato da situação foi obrigado a se retirar do pleito.

"Uma transferência do poder tranquila para uma pessoa eleita seria a maior prioridade dos EUA", disse Philippe Girard.

Sendo a reconstrução do Haiti uma prioridade inevitável do novo governo, é necessário que o próximo presidente tenha um bom relacionamento com os doadores estrangeiros que estão pagando a conta, afirma o historiador.

Tantas variáveis apenas elevam as incertezas sobre o processo eleitoral haitiano.

*Com BBC e AFP

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