Publicidade
Publicidade - Super banner
Especiais
enhanced by Google
 

Política externa foi marcada por polêmicas

Diplomacia da era Lula trouxe ascensão do Brasil no cenário mundial mas aproximou-se de regimes que não valorizam a liberdade

iG São Paulo |

Não foi uma escolha aleatória a escala que o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, fez em Moçambique antes de dirigir-se a Seul, na Coreia do Sul, para a reunião das economias desenvolvidas e emergentes do G20, em novembro. A viagem, sua última como presidente a um país da África, representou o reforço de uma política externa de oito anos que teve como prioridades o continente africano e a parceria principalmente econômica entre os países do Hemisfério Sul.

“Queremos construir juntos um futuro em que o Sul não seja mais fraco do que o Norte, não dependente do Norte, um futuro em que podemos ser tão importantes e inteligentes quanto eles”, afirmou Lula em discurso durante a visita de dois dias.

O desejo de ascensão do Sul e de maior peso político mundial para economias emergentes, exemplificada pela reivindicação de reforma do Conselho de Segurança da ONU para incluir países como o Brasil, guiou a diplomacia brasileira durante os dois mandatos de Lula.

A tentativa de descartar o papel de mero coadjuvante no cenário mundial foi demonstrada pela tentativa de atuar como mediador no controvertido programa nuclear do Irã e no processo de paz entre Israel e palestinos.

Nas Américas, houve a busca pela reafirmação da liderança brasileira, chefiando a missão de paz da ONU no Haiti e atuando ativamente em impasses como a deposição do ex-presidente de Honduras Manuel Zelaya.

Além disso, o governo Lula e outros países tentaram marcar sua autonomia em relação a Washington com a criação de órgãos regionais sem a presença dos EUA, como a Unasul (União de Nações Sul-Americanas). Leia a seguir os principais fatos que marcaram a política externa de Lula.

Reuters
Presidente Lula é saudado pela guarda de honra no Union Buildings, em Pretoria, durante viagem à África do Sul
Estados Unidos

Durante os oito anos em que governou o Brasil, Lula assistiu a duas eleições presidenciais americanas: a de 2004, quando o republicano George W. Bush se reelegeu, e a de 2008, quando o democrata Barack Obama se tornou o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. A relação com Bush foi mais longa (seis anos, enquanto dois no caso de Obama), mas também menos relevante.

Concentrado nas guerras do Afeganistão e do Iraque, Bush deu pouca atenção à América Latina e ao Brasil. Quando Obama chegou ao poder, o Brasil já era considerado uma liderança na América Latina e entre os emergentes. A nomeação de Thomas Shannon, homem de peso da diplomacia americana, para embaixador em Brasília foi vista como símbolo do reconhecimento dos EUA sobre a importância do país.
Em março de 2009, o clima foi de euforia: a visita de Lula à Casa Branca foi cheia de sorrisos, elogios e promessas de parceria. Um mês depois, durante a reunião do G20 em Londres, os líderes tiveram outro animado encontro. “Esse é o cara”, disse Obama, apontando para Lula. “Adoro esse cara.”

No segundo semestre, começaram as discordâncias. Em agosto, o governo da Colômbia anunciou a assinatura de um acordo militar que permitiu o uso de sete bases colombianas pelos EUA. O anúncio incomodou Brasil, Equador e

Venezuela, e obrigou o então presidente colombiano, Álvaro Uribe, a dar garantias de que o tratado se limitaria ao território de seu país.

Outras questões foram motivo de discordância entre Brasil e EUA, como o golpe de Estado em Honduras e a aproximação brasileira com o Irã.

Irã

A questão mais polêmica da política externa do governo Lula foi a aproximação com o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, que fez visita oficial a Brasília em novembro de 2009, atraindo críticas.
Em maio deste ano, durante visita a Teerã, Lula e o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, anunciaram um acordo de troca de combustível nuclear com o Irã, suspeito por EUA e União Europeia de desenvolver um programa nuclear com fins bélicos.

As potências mundiais, porém, consideraram o documento insuficiente e o governo americano aumentou a pressão pela aprovação de uma nova rodada de sanções contra o país persa. A ONU aprovou as novas sanções em junho e Lula, dizendo-se “contrariado”, assinou o documento em agosto.

Caso Sakineh

Apesar das boas relações, Brasil e Irã estiveram em desacordo por causa da iraniana Sakineh Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento. O caso ganhou repercussão internacional em julho de 2010, quando ativistas lançaram uma campanha em defesa da iraniana, que foi sentenciada à morte por suposto adultério. Em setembro, o Irã anunciou a suspensão da execução por apedrejamento, mas indicou que Sakineh poderia ser enforcada ao acusá-la de “conspirar para assassinar o marido”.

O presidente Lula ofereceu asilo à iraniana, proposta que foi rejeitada pelo Irã. Ahmadinejad disse que não havia necessidade de “criar problemas” para o líder brasileiro, enquanto outras autoridades criticaram a intromissão do Brasil em assuntos internos. O porta-voz do Ministério do Exterior iraniano, por exemplo, afirmou que Lula tem “personalidade emotiva” e fez a oferta sem “informação suficiente” sobre o caso.

Honduras

Expulso de Honduras por um golpe de Estado em 28 de junho, o presidente Manuel Zelaya voltou à capital Tegucigalpa clandestinamente cerca de dois meses depois e se abrigou na embaixada brasileira.
Em apoio a Zelaya, o Brasil decidiu não negociar com o governo de facto e não reconhecer as eleições presidenciais de 29 de novembro, vencidas por Porfirio Lobo. Os EUA também condenaram o golpe, mas reconheceram a eleição.

Na época, o assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, disse que o governo Obama tinha sabor de decepção. Por sua vez, o presidente americano enviou uma carta a Lula defendendo a atuação dos EUA na crise.

Zelaya só deixou a embaixada brasileira em janeiro de 2010, após Porfirio Lobo tomar posse como presidente e conceder um salvo-conduto para que o líder deposto partisse para a República Dominicana.

Cuba

Caracterizada pelo entrosamento, a relação bilateral entre Cuba e Brasil teve a quarta viagem de Lula a Cuba, em fevereiro deste ano, marcada pela morte do preso político cubano Orlando Zapata, que fazia greve de fome havia mais de dois meses em protesto contra as péssimas condições carcerárias.

Durante a visita do presidente brasileiro, ao menos 50 presos políticos pediram, em carta aberta, que Lula interviesse em prol da liberdade dos dissidentes cubanos. Ao comentar a morte de Zapata, um pedreiro de 42 anos que havia sido sentenciado a 32 anos por desacato e desordem pública, Lula negou ter recebido a carta e comparou os prisioneiros políticos a criminosos comuns.

"Temos que respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos. A greve de fome não pode ser um pretexto para libertar as pessoas. Imaginem se todos os delinquentes presos em São Paulo fizessem um jejum para pedir libertação", disse.

Em setembro de 2010, depois de o regime cubano anunciar que permitiria a abertura de algumas atividades privadas, o chanceler Celso Amorim visitou a Ilha com o objetivo de negociar acordos que incentivem o trabalho autônomo e a criação de pequenas empresas.

Venezuela

Apesar de parte da imprensa internacional classificar a relação entre Lula e o presidente venezuelano, Hugo Chávez, como competitiva em uma suposta rivalidade pela hegemonia na América Latina, os dois líderes têm um relacionamento marcado pela cooperação.

Sob a Presidência de Lula, a Venezuela recebeu status de membro associado do Mercosul, depois de votação na Câmara e no Senado. O país, que vive uma crise em função da queda do preço do petróleo – um de seus principais produtos de exportação – mantém acordos com o Brasil, como exportação de alimentos, leite em pó, além de venda de energia elétrica.

Haiti

Com mais de 1,2 mil militares no Haiti, o Brasil comanda a missão de paz da ONU no país desde 2004. O governo Lula oferece treinamento e apoio financeiro (cerca de R$ 700 milhões desde o início da operação, segundo a ONG Contas Abertas) à missão, que se tornou ainda mais complexa após um forte terremoto em janeiro de 2010.

O tremor destruiu a capital Porto Príncipe e seus arredores e deixou cerca de 300 mil mortos – incluindo 18 militares brasileiros.

A experiência militar no Haiti é vista como capaz de reforçar a influência do Brasil na América Latina e como um ponto favorável à campanha do País por um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Conselho de Segurança

Atualmente, o Brasil é um dos dez integrantes rotativos do Conselho de Segurança da ONU, que possui cinco membros permanentes com direito a veto: Estados Unidos, China, França, Rússia e Grã-Bretanha.
 

Durante seu mandato, Lula fez intensa campanha por uma vaga permanente para o Brasil, defendendo a necessidade de uma reforma que permita a participação de mais países nas decisões do órgão. Índia, Alemanha, Japão e África do Sul também estão entre prováveis candidatos, embora nenhuma reforma esteja prevista.

Oriente Médio

O governo Lula tentou projetar o Brasil como possível mediador do conflito entre israelenses e palestinos. Em 2010, o presidente fez visita oficial a Israel, Jordânia e territórios palestinos – na primeira vez em que um chefe de Estado brasileiro visitou os três países. Autoridades da região saudaram os esforços brasileiros para promover a paz, mas o governo também foi criticado por querer mediar um conflito sobre o qual possui pouca experiência.

África e Ásia

Um dos principais continentes para a diplomacia do governo brasileiro, a África é vista como prioritária por Lula, que já esteve em 27 países africanos estabelecendo acordos comerciais e parcerias. Neste ano, o presidente declarou que o Brasil precisava dar prioridade ao continente africano, porque o país possui uma “dívida histórica com a África”.

Na política de Lula para o continente, há, por exemplo, iniciativas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em Gana, uma parceria entre a Universidade Pedagógica de Moçambique e a Universidade Aberta do Brasil (que capacita professores por meio de ensino à distância), e outros projetos nas áreas de saúde.

No total, o Brasil presta cooperação técnica para 34 nações do continente africano. Nos oito anos de governo Lula, o comércio entre o Brasil e países africanos cresceu consideravelmente. A balança comercial de US$ 5 bilhões com a África passou para US$ 26 bilhões.

Também dentro do continente africano, a África do Sul integra juntamente com o Brasil o grupo de cooperação e troca Ibas, que tem a Índia como parceira. A aproximação com o país asiático se deve, primeiramente, às semelhanças econômicas: ambos compõem a sigla dos emergentes Bric (ao lado da China e da Rússia), e possuem um mercado consumidor em ascensão.

Caso Battisti

Desde que o italiano Cesare Battisti, ex-integrante dos Proletários Armados Pelo Comunismo (PAC), considerado terrorista pela Itália, foi preso em Copacabana em 2007, o Brasil está em uma situação diplomática delicada com a Itália - que chegou a retirar seu embaixador de Brasília.

Condenado à prisão perpétua na Itália, sob acusação de ter cometido quatro assassinatos nos anos 70, Battisti pediu asilo ao Brasil, mas em 2009 o Supremo Tribunal (STF) autorizou sua extradição à Itália, depois de pedido do governo italiano.

Apesar de a decisão ter se dado por 5 votos a 4, os ministros deixaram claro que a palavra final caberia ao presidente da República. A previsão é de que Lula decida se vai extraditar o ex-ativista italiano antes da posse da sua sucessora, em 1º de janeiro.
 

Política externa do governo Lula

Países visitados e dias de viagem

Gerando gráfico...
Fonte: Presidência da República | *atualizado até agosto de 2010

Política externa do governo Lula

Países visitados por região

Gerando gráfico...
Fonte: Presidência da República

Política externa do governo Lula

Postos no exterior

Gerando gráfico...
Fonte: Ministério das Relações Exteriores
Leia tudo sobre: Governo Lulapolítica externadiplomacia

Notícias Relacionadas


Mais destaques

Destaques da home iG