Educação foi de ruim para poucos a ruim para muitos

Analfabetismo funcional ainda assombra o País; qualidade agora é maior desafio

Rodrigo de Almeida, especial para o iG |

Instituído em 1994, o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) mostra hoje que, na quarta série, mais da metade dos alunos pode ser considerada funcionalmente analfabeta. Dos que se formam no ensino médio, 24% não atingem resultados considerados mínimos para esse nível. Do resultado do Saeb, somado à taxa de rendimento escolar (aprovação e evasão) e ao desempenho dos alunos na Prova Brasil, resulta o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

Neste ano, o índice mostrou que, apesar de a distância que separa a rede pública e a particular ter caído de 2005 a 2009, um aluno que completa o ensino fundamental em colégio privado sabe, em média, mais que um formado no ensino médio público com três anos a mais de estudo.

Evolução do Ideb

Índice foi criado em 2007, para medir numa escala de zero a dez a aprovação e o desempenho dos estudantes

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Inep

O Programa Internacional de Avaliação dos Alunos (Pisa) monitora o desempenho do ensino em todo o mundo, avaliando alunos na faixa dos 15 anos. As pontuações das elites do Brasil são inferiores às dos filhos de operários da Europa. Dos alunos que chegam à quarta série do ensino fundamental, só 25% aprenderam matemática nos níveis mínimos esperados (padrão elaborado com base no desempenho, nesta disciplina, de alunos da Comunidade Europeia). Dos que chegam à oitava série, 14% apenas. Mas o porcentual piora na medida em que se avança na escolaridade: dos que chegam ao terceiro ano do ensino médio, apenas 10% aprenderam matemática nos níveis mínimos.

Na síntese de Claudio de Moura Castro: “Tínhamos uma educação muito ruim e muito estreita. Agora temos uma ampla educação, cobrindo uma boa faixa da população, com níveis cada vez maiores de escolaridade. Mas é uma educação ainda muito ruim. Passamos de ruim para poucos a ruim para muitos”.

Preparar o cidadão para o trabalho

O que fazer? – eis a pergunta a ser respondida a partir de 2011 pelo novo governo. Atenção à pré-escola, à educação técnica e científica, à inovação, ao destaque dado ao papel do professor, com formação contínua e remuneração adequada.

“Um país que tem ambições políticas, econômicas e mesmo de projeção internacional como o Brasil tem que contar com recursos humanos à altura disso”, lembrou o coordenador de Educação, no Brasil, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Paolo Fontani.

Duas tarefas revelam-se essenciais: melhorar a qualidade do gasto público em educação e preparar melhor o cidadão para o trabalho. O Brasil gasta cerca de 5% do PIB com educação, mais do que países como Austrália (4,7%) e Alemanha (4,4%). Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil destina cerca de 16% do total da despesa pública para a educação, taxa maior que a média da União Europeia (12,1%).

Evolução das matrículas nas escolas brasileiras

Dados consideram creches, pré-escolas, classes de alfabetização, ensino fundamental regular, ensino médio regular e educação especial

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Inpe

Na outra ponta, o País enfrenta uma armadilha: forma menos profissionais do que precisa, e muitos dos formados não têm as condições necessárias para assumir as vagas. Com o consumo interno aquecido, os setores de serviços precisam de gente bem treinada – falta, assim, mão de obra qualificada.

A saída passa pela combinação entre reforço do ensino superior, ampliação da rede de ensino técnico e melhoria da qualidade do ensino fundamental. A falta de trabalhadores qualificados diminui a eficiência das empresas e encarece produtos e serviços. Para resolver esse problema, no longo prazo a alternativa é investir no ensino fundamental. No curto prazo, adequar o ensino técnico às necessidades regionais e aproximar faculdades das empresas.

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