Presidente que nasceu pobre disputou sucessivas eleições até chegar ao cargo máximo do Executivo brasileiro

Meninos pobres como Lula não nascem no Brasil para ser presidente da República, nem para constar como um dos líderes mais influentes do planeta nas listas produzidas por organizações como o Fórum Econômico Mundial ou publicações internacionais, como os jornais Le Monde e El País . Antes dele, os mandatários brasileiros, mesmo aqueles que se apresentavam como políticos de esquerda, foram todos escolhidos entre marechais, generais, fazendeiros, advogados e empresários.

Veja algumas das imagens que marcaram os oito anos do governo Lula

Com escolaridade até a quinta série, o imigrante nordestino que desembarcou em São Paulo montado num pau de arara projetou-se como líder sindical e político radical, elegeu-se e governou com uma agenda moderada e sairá de Brasília consagrado por quase 80% de aprovação popular.

Greves da década de 80 projetaram Lula para a política sindical; na imagem acima, o então líder metalúrgico discursa em assembleia da Ford, em 1984
Agência Estado
Greves da década de 80 projetaram Lula para a política sindical; na imagem acima, o então líder metalúrgico discursa em assembleia da Ford, em 1984
Caçula da família Silva, Lula só foi conhecer o pai aos sete anos de idade. Quando Aristides Inácio da Silva saiu de Garanhuns para tentar a vida em São Paulo, deixou a esposa, Eurídice, grávida de Lula. Em 1952, Lindu, como era chamada, decidiu juntar-se ao marido. Reuniu os sete filhos e embarcou com eles num pau-de-arara, numa viagem que durou 13 dias.

Na chegada, descobriram que Aristides havia trazido consigo uma prima de Lindu, com quem, a essa altura, já tinha dois filhos. “Meu pai era um homem ignorante. Batia nos filhos, comprava pão doce só para ele e escondia da gente. Era um homem muito duro, talvez porque a vida tenha sido muita dura com ele”, disse o presidente, no livro Lula, O filho do Brasil , biografia assinada pela jornalista Denise Paraná e que serviu de base para o filme produzido por Luiz Carlos Barreto em 2009.

O pai morreu em 1978. Lula só soube do fato 12 dias depois, informado por carta. Aristides havia sido abandonado pela segunda mulher, vivia sozinho e foi enterrado como indigente.

Na infância e adolescência, Lula vendeu tapioca na rua, fez bicos de engraxate e entregou roupas de uma tinturaria. Ingressou no sindicalismo meio sem querer – conduzido pelo irmão José Ferreira da Silva, o “Frei Chico”, soldador e militante do Partido Comunista. Como o irmão lembraria mais tarde, antes “seu negócio era beber e namorar”.

Lula casou-se pela primeira vez em 1969, com a operária Maria de Lourdes da Silva, que morreu grávida do primeiro filho do casal, depois de contrair hepatite. Casado com a primeira-dama Marisa Letícia desde 1974, Lula tem cinco filhos.

Fruto do primeiro casamento de Marisa, Marcos Cláudio foi adotado pelo presidente. Da união com a primeira-dama, nasceram Fábio Luís, Sandro Luís e Luís Claudio. Lula é ainda pai de Lurian, que nasceu de seu romance com a enfermeira Miriam Cordeiro. O caso marcou a campanha de 1989, quando  o hoje presidente foi acusado pela campanha do adversário Fernando Collor de pedir à ex-namorada que fizesse um aborto.

A fábrica tornou-se a porta de entrada de Lula para a política. Mas, até chegar à Presidência, Lula nunca foi vereador nem administrou uma prefeitura ou um governo estadual, nem ocupou um cargo de destaque no Executivo, como um ministério.

A primeira tentativa eleitoral, para o governo de São Paulo, se deu em 1982. As viagens de campanha eram feitas de ônibus. Lula dormia em colchonetes espalhados nas casas de militantes, mas exibia três trunfos: liderava um partido que surgia como novidade no cenário político brasileiro, contava com o apoio de trabalhadores, de setores da Igreja progressista e já chamava a atenção de parte da intelectualidade da época, um grupo que incluía nomes como o sociólogo Fernando Henrique Cardoso e o crítico literário e professor Antonio Candido.

Lula terminou a eleição daquele ano em quarto lugar, com 11% dos votos. Sua única vitória nas urnas antes de chegar à Presidência da República ocorreu na disputa por uma cadeira na Câmara dos Deputados. Lula, entretanto, sempre se queixou da burocracia do Legislativo.

Veja os principais acontecimento que marcaram a trajetória do presidente Lula:

1945 – Luiz Inácio da Silva nasce em 27 de outubro, na cidade de Garanhuns, interior de Pernambuco. Sétimo de oito filhos do casal de lavradores Aristides e Eurídice, conhecida como Lindu, o menino logo receberia o apelido de Lula, muito comum na região.

Primeira esposa de Lula, Maria de Lourdes morreu grávida de 8 meses após contrair uma hepatite
Agência Estado
Primeira esposa de Lula, Maria de Lourdes morreu grávida de 8 meses após contrair uma hepatite
1952 – Eurídice e os filhos migram para o litoral paulista, viajando 13 dias num caminhão pau de arara. Viajaram para encontrar Aristides, que fora tentar a vida como estivador em Santos. Vão morar em Vicente de Carvalho, bairro pobre do Guarujá.

1956 – Lindu e seus filhos deixam a casa de Aristides e se mudam para São Paulo, no bairro do Ipiranga. Lula consegue seu primeiro emprego numa tinturaria. Também foi engraxate e office-boy.

1960 – Aos 14 anos, começa a trabalhar nos Armazéns Gerais Columbia, onde teve a Carteira de Trabalho pela primeira vez. Transfere-se em seguida para a Fábrica de Parafusos Marte e obtém uma vaga no curso de torneiro mecânico do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

1963 – Conclui o curso no Senai e se torna emprego da metalúrgica Independência, onde uma prensa hidráulica esmaga seu dedo mínimo da mão esquerda.

1964/1965 – A crise após o golpe militar de 1964 leva Lula a mudar de emprego, passando por várias fábricas, até ingressar nas Indústrias Villares, uma das principais metalúrgicas do País, localizada em São Bernardo do Campo, no ABC paulista.

1969 – Trabalhando na Villares, Lula começou a ter contato com o movimento sindical, por intermédio de seu irmão José Ferreira da Silva, mais conhecido por Frei Chico. É convidado a participar, como suplente da diretoria do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de São Bernardo do Campo e Diadema (ABCD paulista). Em 72, vira primeiro-secretário do sindicato.

1975 – É eleito presidente do sindicato e passa a representar cerca de 100 mil trabalhadores.

1978 – É reeleito presidente do sindicato e, após 10 anos sem greves operárias, ocorrem no País as primeiras paralisações. Morre seu pai, enterrado como indigente. Lula e seus irmãos só tomariam conhecimento alguns dias após o funeral.

1979 – Cerca de 170 mil metalúrgicos param o ABC paulista. A repressão policial ao movimento grevista e a quase inexistência de políticos que representassem os interesses dos trabalhadores no Congresso Nacional fez com que Lula pensasse pela primeira vez em criar um Partido dos Trabalhadores.

1980 – Nova greve dos metalúrgicos provoca a intervenção do governo federal no sindicato e a prisão de Lula e outros dirigentes sindicais, com base na Lei de Segurança Nacional. Foram 31 dias de prisão. No mesmo ano, participa da fundação do PT, junto com outros sindicalistas, intelectuais, políticos e representantes de movimentos sociais.

1982 – Candidato ao governo de São Paulo, perde a disputa, mas sai fortalecido politicamente.

1983 – Ao lado de outros sindicalistas, funda a Central Única dos Trabalhadores (CUT).

1986 – É eleito deputado federal, com votação recorde de 651 mil votos.

1989 – Concorre à Presidência da República pela primeira vez. Com 16 milhões de votos, perde para Fernando Collor de Mello (PRN), por uma diferença de 6%.

1992 – Na presidência do PT, é um dos líderes da mobilização nacional contra a corrupção que acabou no impeachment de Collor.

1994 – Volta a se candidatar a presidente da República e é derrotado por Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

1998 – FHC reelege-se presidente no primeiro turno. Lula amarga novamente a segunda colocação.

2002 – Na quarta tentativa é eleito presidente da República, aos 57 anos de idade, com o índice recorde de 61,3% dos votos válidos.

2005 – Enfrenta uma das maiores crises de seu governo, o escândalo do “mensalão”.

2006 – É reeleito presidente, com mais de 60% dos válidos, vencendo no segundo turno o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin.

2009 – É considerado a 33ª pessoa mais poderosa do mundo pela revista Forbes e classificado como o “homem do ano” pelos jornais Le Monde e El País .

2010 – No Fórum Econômico Mundial, é premiado com o título de Estadista Global. É condecorado pela ONU como Campeão Mundial na Luta contra a Fome e a Desnutrição Infantil. Às vésperas do fim do seu segundo mandato, atinge aprovação recorde de 76%, segundo pesquisa feita pelo instituto Vox Populi.

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