Discurso versátil e descontraído marcou gestão de Lula

Presidente acostumou-se a adaptar o jeito de falar de acordo com a plateia

Rodrigo de Almeida, especial para o iG |

Em seus quase oito anos de governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva transformou as frases de efeito e as falas descontraídas em marca de sua gestão. Nos discursos que chegavam a durar mais de uma hora em solenidades oficiais, Lula acostumou-se a adaptar o jeito de falar e até o vocabulário de acordo com a plateia.

Para falar a metalúrgicos numa porta de fábrica, por exemplo, Lula relembra os tempos em que escorregava no português. Recorre a piadas sobre futebol e conta sucessivamente que seu maior desejo é voltar para São Bernardo, tomar uma cerveja e assistir a um jogo do Corinthians. Se o público é formado por sindicalistas, o presidente sobe o volume, chega a gritar ao microfone, e não economiza nos ataques à elite.

Se a plateia é de empresários, Lula veste o terno e a gravata, fala em tom ameno e, dependendo da pompa do evento, segue à risca o discurso preparado por sua assessoria. Confira algumas frases que marcaram os oito anos de governo Lula: 

Diploma

“Eu sou filho de uma mulher analfabeta, que já morreu. E eu, de oito filhos, fui o primeiro a ter um diploma profissional. Por conta desse diploma profissional, eu fui o primeiro a ter uma casa, uma televisão, um carro. Eu fui virando ‘chique’, fui tendo as coisas. E tudo por causa de um diploma.”
23 de abril de 2003

“Não é mérito, mas, pela primeira vez na história da República, a República tem um presidente e um vice-presidente que não têm diploma universitário. Possivelmente, se nós tivéssemos, poderíamos fazer muito mais.”
13 de setembro de 2003

"Para governar este país, não se precisa ter os diplomas universitários que tanto preconceito jogaram contra mim. Para dirigir este país tem que ter, sobretudo, uma coisa chamada coração, porque é com o coração que a gente conserta um país com os problemas sociais de um país."
23 de julho de 2005

“Eu espero que a minha passagem pela Presidência tenha quebrado os preconceitos históricos que foram criados neste país, espero que ela quebre os tabus que foram criados neste país. Porque eu cansei. Foram três derrotas: ‘o Lula não pode governar porque ele não fala inglês, o Lula não pode governar porque ele não tem um dedo, o Lula não pode governar porque ele é retirante nordestino, o Lula não pode governar porque ele é quase analfabeto, o Lula não pode governar porque não sei das quantas. Burro é quem confunde inteligência com anos de escolaridade. Burro é quem pensa assim.”
09 de maio de 2008

“Educação é condição sine qua non. Estou falando sine qua non porque o Caetano Veloso fala. E se ele fala, o Lula também pode falar."
14 de novembro de 2009, após Caetano Veloso chamá-lo de analfabeto

Otimismo

“Não tem geada, não tem terremoto, não tem cara feia. Não tem Congresso Nacional, não tem um Poder Judiciário. Só Deus será capaz de impedir que a gente faça este país ocupar o lugar de
destaque que ele nunca deveria ter deixado de ocupar.”

24 de junho de 2003

É preciso que a gente acredite e redesenhe o Brasil que queremos, porque, se a gente ficar como um bando de madona chorona, que levanta todo dia achando que nada vai dar certo, é melhor nem sair de casa. É melhor levantar de bom humor. Se não acreditarem no presidente, pelo menos acreditem em vocês e façam o Brasil do tamanho que vocês esperam que ele seja.”
25 de janeiro de 2005

“Tem gente que não gosta do meu otimismo, mas eu sou corintiano, católico, brasileiro e ainda sou presidente do país. Como eu poderia não ser otimista?”
13 de janeiro de 2009

Autoelogio

“Não tem dificuldade que me assuste, que me acanhe (...) A história não é construída por covardes. Os covardes não aparecem nem no rodapé.”
30 de maio de 2003

“Um dia acordei invocado e telefonei para o Bush.”
28 de abril de 2004

“Ninguém neste país tem mais autoridade moral e ética do que eu para fazer o que precisa ser feito.”
Junho de 2005

Pobres

“Na hora em que o pobre conquista um milímetro de espaço, ele incomoda, mesmo que não tenha tirado um milímetro de espaço dos ricos, mas eles ficam incomodados.”
13 de janeiro de 2005

“Não tem coisa mais fácil do que cuidar de pobre, no Brasil. Com dez reais, o pobre se contenta; rico não, por mais que você libere, quer sempre mais, nunca se conforma.”
15 de julho de 2009

“Todo mundo quer feira, mas não na porta de casa. Todo mundo quer ponto de ônibus, mas não na porta de casa. (...) Pobre é bom para ver em filme.”
24 de dezembro de 2009

Sem direito de errar

“O Brasil estava quebrado, e alguém vai ter que salvar este país! Sabem por quê? Porque qualquer outro podia errar. Eu não posso. Porque qualquer outro que errasse e não desse certo, iria morar uns meses na França.”
17 de junho de 2003

“Aprendi a contar até dez, apesar de só ter nove dedos, que é para não cometer erros. Um erro em qualquer outro governo é mais um erro. No nosso, não pode acontecer.”
24 de julho de 2003

Piadas

A coisa que eu mais queria na minha vida era um filho. A galega (a primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva) engravidou logo no primeiro dia, porque pernambucano não deixa por menos.”
17 de junho de 2003

“Nós já conversamos muito sobre a rodada de Doha ao longo desses últimos meses e nós estamos andando com muita solidez para encontrar a possibilidade, com o chamado ponto G, de fazer um acordo.”
9 de março de 2007, em declaração à imprensa após almoço de trabalho sobre biocombustíveis com o presidente dos Estados Unidos

"Se eu pudesse viajar, eu viajava com uma picanha pendurada no pescoço, uma carne nobre, para chegar lá e assar. Porque, se nós não mostrarmos a nossa qualidade, não serão os adversários que vão mostrar."
4 de maio de 2007, durante uma visita a Uberaba (MG), para a campanha nacional contra a febre aftosa

“O homem tem a maldita mania de achar que ninguém pode botar a mão nele. Ele é todo machão, mas quando pega um câncer de próstata, é virado do avesso. Gente, na substitui o toque.”
10 de junho de 2008, defendendo a realização de exames de prevenção contra o câncer de próstata

“Imaginem vocês, se um de vocês fosse médico e atendesse um paciente doente, o que vocês falariam para ele? ‘Olha, companheiro, o senhor tem um problema, mas a medicina já avançou demais, a ciência avançou demais, nós vamos dar tal remédio e você vai se recuperar.’ Ou você diria ao paciente: ‘meu, sifu’. Vocês falariam isso para o paciente de vocês? Não falariam.”
4 de dezembro de 2008

"Inclusão digital é a palavra mais sexy do meu governo.”
26 de junho de 2009

Mensalão

“Diga ao Roberto Jefferson que sou solidário a ele. Parceria é parceria. Tem de ter solidariedade.”
17 de maio de 2005, antes de o aliado do PTB se tornar o homem-bomba de seu governo

“Olha para a minha cara para ver se eu estou preocupado.”
20 de maio de 2005, respondendo a pergunta de jornalistas sobre se a criação da CPI dos Correios o preocupava

“O PT fez, do ponto de vista eleitoral, o que é feito no Brasil sistematicamente.”
17 de Julho de 2005

“A desgraça da mentira é que, ao contar a primeira, você passa a vida inteira contando mentira para justificar a primeira que contou.”
17 de julho de 2005

“Eu me sinto traído. Traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento. Estou indignado pelas revelações que aparecem a cada dia e que chocam o país.”
12 de agosto de 2005

“O que houve foi que o PT, segundo o nosso Delúbio, fez acordos para que parte daquilo que a gente arrecadasse fosse dado proporcionalmente, em função da bancada dos partidos.”
Novembro de 2005, justificando o repasse de R$ 10 milhões que o PT fez ao PL em 2003

“Não posso admitir que companheiros, em nome da facilidade, comecem a terceirizar campanha financeira de um partido.”
8 de novembro de 2005

“A crise neste país já levou o presidente Getúlio a se matar… Jânio desistiu por causa do inimigo oculto… Jango foi obrigado a renunciar… Não farei como Getúlio, Jânio ou João Goulart. O meu comportamento será o de JK: paciência, paciência, paciência.”
25 de agosto de 2005

Congresso

“A única coisa que eu quero dizer, que todo mundo que conhece, é que com a democracia não se brinca. O que vem depois dela é sempre muito pior. E como eu já vivi o pior, quando eu vejo gente criticando o Congresso Nacional, com todos os defeitos que possa ter o Congresso Nacional, eu ponho a mão pro céu todo dia e agradeço a existência dele. Sem ele, esse país era muito pior.”
31 de julho de 2007

“Eu sou da tese de que o Congresso Nacional existe para legislar, existe para fazer CPI, existe para investigar, e o governo existe para trabalhar.”
19 de fevereiro de 2008

“Nem sempre o Congresso faz coisas piores do que o que entra lá. Muitas vezes eles melhoram as coisas do governo que entram lá.”
27 de fevereiro de 2008

“(José) Sarney tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum.”
17 de junho de 2009

Futebol

“Vocês todos já viram um jogo de futebol. Tem jogador que tem pressa, pega a bola, não olha para o lado, dá uma ‘bicuda’ e não marca o gol. Tem outro que olha para o lado, vê um companheiro livre, passa a bola e marca o gol. Nós não temos tempo de dar ‘bicuda’. Nós queremos é marcar todos os gols que achamos que temos o direito de marcar neste país.”
17 de junho de 2003

“Nós é que temos que ter coragem de brigar pelos nossos interesses sem imaginar que, pela nossa pobreza, alguém vai ter dó de nós e vai fazer concessão. No jogo internacional não é assim, nem no futebol é assim, cada jogador que entra em campo entra para ganhar e joga pesado, senão não ganha.”
27 de setembro de 2003

“Eu sei que ele está magro. Mas vira e mexe a gente lê na imprensa que ele está gordo... Afinal, ele está gordo ou não está gordo?”
8 de junho de 2006, conversando com o técnico Parreira, por meio de uma videconferência, sobre o peso de Ronaldo Fenômeno.

“(Como corintiano) Aprendi a ficar do lado dos fracos, dos oprimidos. Os vietnamitas eram baixinhos, magrinhos, contra os americanos fortes, alimentados com hambúrgeres.”
11 de julho de 2008

“Se colocar muita gente boa, jogando na mesma posição, dentro de um time, não dá certo.”
22 de dezembro de 2009, sobre a eventual chapa puro-sangue do PSDB, formada por José Serra e Aécio Neves, na pré-campanha presidencial

“O cara tem de ser bom de bola, mas primeiro tem de saber trabalhar em equipe, saber que jogo não se ganha sozinho, saber que os onze em campo, cada um tem uma tarefa e cada um tem de participar da vitória. Se uma pessoa acha que sozinha vai resolver, não resolve. A história do futebol está cheia disso. Então, o que nós precisamos é ter cada macaco no seu galho.”
22 de dezembro de 2009, sobre José Serra

Gafes diplomáticas

“Conheço o Panamá só de dormir. Até recentemente, sempre que eu ia a Cuba, tinha que
dormir uma noite lá.”

16 de maio de 2003, dirigindo-se ao embaixador do Panamá, no Palácio do Planalto, durante cerimônia de entrega de credenciais de embaixadores.

“Daqui a dois ou três anos possivelmente não estaremos aqui, talvez sejam outros. E nem será o Tony Blair que estará convidando, será outra pessoa.”
15 de julho de 2003, em reunião de chefes de Estado na Inglaterra, onde o regime é parlamentarista e o mandato do primeiro-ministro não tem prazo para acabar.

“Estou surpreso porque, quem chega a Windhoek, não parece que está na África. Poucas cidades no mundo são tão limpas, tão bonitas e têm um povo tão extraordinário como tem esta cidade.”

8 de novembro de 2003, em Winkhoek, capital da Namíbia, em discurso, ao lado do presidente Sam Nujoma

“Um país que constrói um monumento daquela magnitude tem tudo para ser mais desenvolvido do que é atualmente.”
29 de janeiro de 2004, na Índia, referindo-se ao Taj Mahal

Crise econômica nos EUA

“Daqui a alguns dias vou encontrar o meu amigo Bush e vou dizer a ele: ‘Bush, resolve aí o problema da crise, porque não vamos deixá-la atravessar o Atlântico e chegar ao Brasil.”
17 de setembro de 2007

“Bush, meu filho, resolve a sua crise.”
30 de março de 2008

“Que crise? Pergunta para o Bush.”
17 setembro 2008

“Lá, a crise é um tsunami. Aqui, se chegar, vai ser uma marolinha, que não dá nem para esquiar.”

4 de outubro de 2008

“Ninguém está a salvo e todos os países serão atingidos pela crise.”
8 de novembro de 2008

“Gente branca, loira, de olhos azuis”
26 de junho de 2009, apontando os culpados pela crise econômica, ao lado do primeiro-ministro britânico, Gordon Brown

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