Crescimento com distribuição de renda virou marca da era Lula

Próximo de encerrar seu mandato, presidente tem como principal trunfo a combinação entre bons resultados econômicos e sociais

Rodrigo de Almeida, especial para o iG |

Além de fechar 2010 com previsão de crescimento em torno de 7%, o País bateu recordes sucessivos na balança comercial, pagou a dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e acumulou reservas significativas. Um total de 35,7 milhões de brasileiros chegou à classe média e 20,5 milhões saíram da pobreza. Tudo com a inflação dentro das metas. Foi um dos últimos países a sentir o baque da crise financeira e um dos primeiros a retomar o crescimento.

Mas o governo da presidente eleita Dilma Rousseff terá de lidar com o desequilíbrio nas contas públicas e nas contas externas. Encarar o câmbio valorizado, que derruba a já fragilizada competitividade do produto brasileiro. E resolver a necessidade de aumentar o percentual de investimento público.

A balança comercial – saldo entre exportações e importações – deu o tom vibrante do espetáculo, com recordes ano após ano. Foram ótimas safras em um mundo ávido das commodities brasileiras – especialmente minério de ferro e soja. Lula deu nova escala às exportações e fez bem o papel de caixeiro-viajante, ampliando o fluxo comercial com países africanos e do Oriente Médio. 

Com os dólares, o governo ampliou as reservas internacionais. Em 2005, eram US$ 55 bilhões. Em 2010, mais de US$ 250 bilhões. O saldo é importante porque além de fazer o Risco Brasil cair, deu lastro para o Brasil ser visto – e ouvido – no G-20, com mais respeito pelos países desenvolvidos durante a crise financeira, permitiu que o país passasse de devedor a credor do FMI e formaram um colchão de segurança, reduzindo a vulnerabilidade externa que abatia o país quando os mercados internacionais entravam em turbulências.

Tantos dólares implicam em valorização do real. Nos últimos meses do governo Lula , a questão cambial tem provocado insatisfação no setor industrial, que perde competitividade nas exportações. Mas a enxurrada de dólares tem uma fonte ainda mais significativa que o comércio exterior: a taxa dos juros, que seguem altas e atraentes para o capital estrangeiro que busca aplicações de ganho rápido.

“Exemplo de algo que funcionou”

O Brasil passou a fazer jus à previsão, feita no início da década, de que, juntamente com Rússia, Índia e China (agora sobretudo os dois últimos) deverão liderar o crescimento mundial em meio à estagnação das nações desenvolvidas.

“Em toda a minha vida, esta é a primeira vez que o resto do mundo está olhando para a América do Sul e para o Brasil como exemplo de algo que funcionou”, afirmou o economista James Galbraith, durante passagem por Brasília para um seminário promovido pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

Numa política de estímulo ao consumo, trabalho e renda se destacaram. Segundo dados do governo, mais de 14 milhões de empregos com carteira assinada terão sido criados até o fim de 2010. Além de vagas, mais poder de compra. O salário mínimo cresceu 70% acima da inflação. O cenário positivo para os trabalhadores cortou à metade o número de miseráveis, diminuiu a as diferenças entre os mais ricos e os mais pobres e permitiu a milhões de brasileiros deixar as classes D e E e passar a integrar a classe C.

E essa multidão não para de consumir. Nos próximos 10 meses, a classe média brasileira vai gastar R$ 1 trilhão em compras.

Momento de inflexão

Ao assumir a Presidência em 2003, Lula herdou uma economia castigada por meses de crise financeira. O País havia pedido socorro ao Fundo Monetário Internacional em agosto de 2002, no valor de US$ 30 bilhões. A inflação disparara para mais de 12%, muito acima da meta oficial do governo, e o Banco Central promovera um “choque de juros” ao elevá-los para 25% ao ano, a fim de estancar o aumento dos preços. A nomeação da equipe econômica, com Antonio Palocci Filho na Fazenda e Henrique Meirelles no Banco Central, ajudou a dirimir a desconfiança de que haveria guinada que cedesse aos anseios da ala radical do PT.

O prometido “espetáculo do crescimento”, porém, demorou a vir: o Brasil chegou a entrar em recessão no primeiro semestre de 2003 e cresceu só 1,15% naquele ano. Foi graças à manutenção do tripé formado por câmbio flexível, equilíbrio fiscal e metas de inflação que o Brasil sobreviveu à travessia. O primeiro mandato também ensinou a relevância de reformas pontuais – caso da criação do empréstimo consignado, da nova Lei de Falências e os novos instrumentos de crédito imobiliário, fatores que trouxeram ganhos às áreas que mais crescem no País.

A inflexão viria no segundo mandato. Acusado de receber propina em contratos de coleta de lixo na Prefeitura de Ribeirão Preto – processo arquivado – e demitido após o escândalo da quebra do sigilo fiscal de Francenildo Costa, caseiro do imóvel onde se reuniam empresários de Ribeirão Preto, Palocci deixou o Ministério da Fazenda e foi substituído por Guido Mantega.

Sem abandonar o tripé câmbio flutuante, metas de superávits fiscais e metas de inflação, entrou em cena um certo desenvolvimentismo pragmática. O crescimento do mercado de crédito, com a criação do sistema de crédito consignado para bens de consumo, foi forte entre 2006 e 2009. Entre dezembro de 2005 e dezembro de 2009, o volume do crédito livre mais que dobrou, de R$ 403 bilhões para R$ 953 bilhões. A média anual do PIB, de 3,2% entre 2003 e 2005, subiu para 5,1% entre 2006 e 2008.

*Colaborou Leda Rosa

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